cronica

A faixa de pedestre e a cidade

Se alguém buzina, recebe um olhar severo, mesmo que tenha sido pra chamar a atenção de algum motorista meio desatento

Por Cilene Vieira —Eu nunca entendi porque nas entradas de Brasília existem placas nas quais se lê "Senhores visitantes em Brasília evitamos buzinar". Não que seja uma inverdade, a capital tem um dos trânsitos mais silenciosos do país, e realmente aqui não existe essa mania de buzinar a todo momento para quem está na frente ou do lado. Se alguém buzina, recebe um olhar severo, mesmo que tenha sido pra chamar a atenção de algum motorista meio desatento.

Mas a minha indagação é por que, tal como essas placas, não existem várias lembrando que, em Brasília, nós respeitamos a faixa de pedestre?

Quando algum novo morador, vindo de qualquer parte do país, chega a Brasília e busca se ambientar, saber sobre as sutilezas da cidade, ele vai ouvir: "Cuidado e muita atenção, aqui a gente para na faixa de pedestre." Pode ser que a pessoa que aconselha cometa alguns delitos e passe na faixa vez ou outra sem prestar essa atenção que recomenda, mas o fato é que o brasiliense se enche de orgulho ao falar para qualquer pessoa de fora que, em Brasília, a faixa de pedestre é respeitada. E, talvez, só depois, comente também que, aqui, costumamos não buzinar.

A faixa de pedestre, com o seu significado cívico de educação no trânsito, tornou-se um patrimônio local, um traço de identidade, um símbolo que, inclusive, já virou souvenir e estampa de camisetas. Importante lembrar que o respeito à faixa de pedestre como modelo de cidadania resultou de uma campanha de conscientização contra a violência e pela paz no trânsito, liderada pelo Correio Braziliense, na segunda metade dos anos 90. Essa campanha vitoriosa mobilizou a sociedade local e órgãos públicos, transformou a cultura do trânsito com a conscientização dos motoristas sobre a importância de parar para dar passagem aos pedestres, reduzindo acidentes e, com certeza, salvando muitas vidas.

Mas manter essa conquista não é fácil. Muitas ações e campanhas educativas já foram realizadas, desde a adoção dessa obrigatoriedade legal, para que as pessoas motorizadas continuem respeitando quem atravessa a faixa e que as travessias dos pedestres sejam feitas nelas. Ainda que exista o fato inexorável, entre pessoas comuns, que torna todo motorista um pedestre, pois, em algum momento, ele atravessa na faixa. Portanto, não se trata de empatia, palavra da moda, mas de realidade: a faixa é de todos, todos passam por ela.

Por isso, se você observar bem, já encontra alguns comportamentos bem típicos dos transeuntes da faixa, que se aproxima dos 30 anos na vida do brasiliense.

Tem os cuidadosos, que acenam com a mão, esperam que os motoristas parem para fazer a travessia, mas tem os muito confiantes, que caminham e saltam da calçada pra faixa, assustando os motoristas que precisam frear o carro de repente. Normalmente são os apressados e, principalmente, os atletas, aqueles que estão praticando exercícios pela rua, que agem assim. Tem os que desfilam, se sentem numa passarela, capricham no andar e, sem pressa, passam convencidos de que estão sendo observados.

Há os que atravessam com seus bebês e pets à frente, colocando os inocentes em risco, antes que os carros parem. E tem, também, os que atravessam devagar, normalmente olhando pro celular, sem pressa alguma, meio que mostrando que parar na faixa é obrigação do motorista, e ele que espere. Mas nenhum desses é tão perigoso quanto aqueles vestidos de preto, que atravessam a faixa durante a noite.

Alíás, à noite, nas vias escuras e arborizadas de Brasília, a faixa é um problema, e se o pedestre estiver vestido de preto, é um problemão. Então, o melhor para o motorista é, em vez de se aborrecer, reparar mais no tipo de pedestre que atravessa e sempre seguir o aviso que, espero, comece a existir em placas: "Atenção! Em Brasília, temos orgulho de parar na faixa."

 

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