Crônica

Viva o Pinella!

Estou falando do Pinella, um bar que ficava na Comercial da 408 Norte de Brasília e fechou suas portas em junho de 2026

Por Paulo Hargreaves —Houve um bar em Brasília que proporcionou alegria na vida de muita gente por um bom tempo. Um lugar onde você era bem recebido, bem atendido, bem alimentado e bem servido de drinks e cervejas. Também se ouvia boa música lá, mecânica ou ao vivo, o que foi uma das fontes do seu sucesso e do seu fim.

Estou falando do Pinella, um bar que ficava na Comercial da 408 Norte de Brasília e fechou suas portas em junho de 2026.

Eu conheci o Pinella por indicação de um amigo que frequentava o bar, por volta de 2014. Uns amigos e eu brincávamos de fazer cervejas artesanais, e eu fui conversar com uma das donas para pedir as garrafas vazias do bar para reutilizar para as nossas cervejas. Ela não só foi receptiva à ideia, como ainda ficou feliz, pois Brasília não reaproveitava os vidros para reciclagem. Ela já era ligada em redução de descartes e virou minha referência nesse tema.

Comecei a frequentar o bar. O clima era sempre bom, e a música, também. Levei amigos para conhecerem o local, e muitos deles viraram clientes frequentes, como eu. Passei a conhecer os funcionários pelo nome, e o lugar passou a ser a primeira sugestão de bar para encontro dos amigos. A rotatividade dos funcionários era muito baixa, o que para mim demonstra que eles recebiam um salário justo e eram respeitados. Encontrava alguns ex-funcionários e funcionários nos seus dias de folga por lá, situação que não acontece com ambientes de trabalho ruins.

Passei a ir regularmente com alguns amigos, e o Pinella virou o lugar onde colocávamos os assuntos em dia e resolvíamos os problemas do mundo. Um desses amigos conheceu sua esposa lá. E, então, veio uma pandemia e o mundo parou. O Pinella usou a criatividade enquanto não podia abrir e voltou a funcionar do jeito que dava, quando o comércio foi autorizado a reabrir. Meus amigos e eu passamos a ir às segundas-feiras, quando o bar estava mais vazio.

Diferentemente dos outros bares que eu conheço, todos os dias o Pinella montava e desmontava uma barreira na divisão com a quadra residencial, para minimizar o som que poderia incomodar os moradores. As bandas que tocavam ao vivo e o DJs convidados, com uma curadoria cuidadosa que variava da MPB ao jazz e rock, paravam de tocar às 22h, para atender à lei do silêncio. Parece que não foi suficiente. Na mensagem de despedida da sua dona, é uma lei inexequível.

Sinto muito que Brasília esteja ficando cada vez mais intolerante com os bares que funcionam à noite. Converso com pessoas que moram no centro da cidade e querem ter um silêncio da zona rural. Não defendo estabelecimentos que desrespeitam sua vizinhança e abusam do barulho. O Pinella não era um desses.

Um farol de alegria, arte, bem-estar e convívio foi apagado em Brasília.

Obrigado por 15 anos incríveis, Flávia!

O Pinella fechou. Vida eterna ao Pinella!

 

Mais Lidas

Tags