Brasil S/A

Divórcio litigioso

"Guedes e Bolsonaro se atritam por razões estranhas à transformação estrutural que o país requer"

Antonio Machado
postado em 15/08/2020 23:24

Como casamento arranjado, a cizânia entre o ministro Paulo Guedes e o presidente Jair Bolsonaro era só questão de tempo. A surpresa é que tenha demorado para o nacionalista da velha guarda — saudosista do tempo em que o ministro da Fazenda fazia chover com o orçamento federal, bancos e empresas estatais — se cansar do liberal sem meio termo, desses para quem o Estado é problema, não parte da solução.

A explosão de Guedes ao sacar que Bolsonaro maneja os cordéis para furar o teto de gasto orçamentário e assim se apropriar das grandes marcas de Lula, o Bolsa Família e o PAC (programa de obras públicas dilmista), recriá-las como suas e iniciar a marcha para a reeleição foi o grito de desespero de um governo com projetos acidentais.

O projeto imediato de Bolsonaro é ter controle de seu destino, por ora, ameaçado pelo entorno nebuloso dos assessores de seus filhos e de seu próprio gabinete enquanto deputado federal. É onde desponta o ex-PM Fabrício Queiroz, conforme denúncias da promotoria do Rio. Ele seria, além de amigo de milicianos, o gestor do suposto esquema de rachadinha — desvio de salários de funcionários parlamentares.

Há, também, o caso das fake news em redes sociais, movidas, segundo inquérito, a cargo do ministro do STF, Alexandre de Moraes, para difamar desafetos e as instituições. As acusações são muito graves.

Fato é que o político boca-dura no Twitter e fanfarrão em eventos de apoiadores que pediam intervenção militar mudou, levando para o governo ministros e antigas amizades, digamos, mais pragmáticas.

Contra tais processos, afastou-se de deputados da extrema-direita, deu mais espaço para os generais que trouxe para o governo, voltou ao ninho do Centrão, que reúne partidos do “é dando que se recebe” e do qual sempre fez parte em seus 28 anos na Câmara, e vem ouvindo os ministros impacientes com a penúria orçamentária.

Se o processo das rachadinhas tornou dispensável o ministro-xerife Sergio Moro, a necessidade de se fazer popular junto ao eleitorado menos instruído e mais pobre, dependente de auxílio público para se sustentar com a parada da economia pela pandemia, fez de Guedes um luxo para Bolsonaro. Assim como o plano do deficit zero levado a Lula, com o mensalão batendo à porta, lhe soou como um disparate.

Uma história sem mocinhos
Não há mocinhos nesta nova, velha história sobre como Brasília vem enterrando o progresso econômico e social nas últimas décadas, sem nunca os dirigentes eleitos e a burocracia concursada, com exceções contadas nos dedos, se empenharem por transformações necessárias.

Em meados dos anos 1980, afora Japão, nenhum país asiático, China inclusive, tinha parque industrial tão diversificado como o nosso, e renda per capita maior. Comemos poeira desde então, passamos por experimentos econômicos a granel, e nada evitou nossa estagnação.

Ou regressão em vários setores, como o da saúde, da educação, dos grupos empresariais que atraíam a cobiça das multinacionais; carros montados no Brasil circulavam na Europa, a economia era mais que um fornecedor de grãos e minérios. Foi isso que Guedes encontrou.

Eficiente na eloquência de suas ideias, crítico dos programas de transferência de renda dos governos passados, que nada mais fizeram que cumprir os ditames sociais da Constituição, mas incapaz de dar forma a projetos que fossem além de propor ao Congresso cortes das despesas fiscais, Guedes foi se apequenando aos olhos de Bolsonaro.

Do empresariado também. A rigor, tem sido poupado de críticas mais pelo receio do mercado sobre o que viria depois dele.

Muito papo e pouca ação
Na última terça-feira, quando já sabia da demissão dos secretários de privatização de seu ministério, Salim Mattar, e de administração de pessoal e gestão digital, Paulo Uebel, Guedes desabafou contra o que chamou de “fura-tetos”, depois de se reunir com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e um dos líderes do Centrão, Arthur Lira.

Mattar queixou-se de não conseguir privatizar devido à oposição do que chamou “establishment”, apesar de ter dito que Bolsonaro não se opõe. A questão é que privatizar para fazer caixa não funciona se o problema é de fluxo contínuo de gasto e não de estoque de dívida.

Antes de passar Petrobras e Eletrobras no cobre, é preciso clareza de que o novo dono não vai buscar ganho fácil e devolver o bagaço, como ocorreu com estradas e aeroportos licitados no governo Dilma.

Uebel, por sua vez, não se manifestou, mas é certo de que se fosse adiante sua intenção de implantar a digitalização em massa de toda a população, fraudes com o auxílio emergencial teriam sido evitadas.

Constatou-se o pagamento indevido a mais de 680 mil funcionários públicos pela CEF, quase R$ 1 bilhão. Seu maior projeto também não avançou: a reforma administrativa, barrada por Bolsonaro.

Peças soltas no tabuleiro
As iniciativas pelas quais Guedes mais se esforçou, como o regime de capitalização na previdência, que morreu já na fase inicial das discussões na Câmara, e se esforça, tipo trazer a CPMF de volta do cemitério de projetos infelizes, são peças soltas num tabuleiro em que se joga o futuro de uma economia respirando por aparelho.

O que será do crescimento econômico e da paz social, uma vez que se tire de cena a liberdade para o governo gastar devido à pandemia? Não há elemento algum a sugerir que não se voltará à estagnação dos últimos cinco anos sem outra política econômica. Mas, qual?

Keynesianismo hidráulico
O keynesianismo hidráulico que Bolsonaro e seus acólitos pretendem é certeza de repetição do fracasso do PAC dilmista. O setor público perdeu a capacidade de formular projetos executivos, controlar sua execução, modelar o financiamento com fundos públicos e privados, selecionar prioridades de forma soberana.

É essa carência que fomenta a corrupção, não leis draconianas e um ministério público e juízes como inquisidores do Santo Ofício.

E, obviamente, não se vai escancarar o Tesouro para salvar a pele seja lá de quem for. Essa é a questão. Nela, Guedes é um detalhe.

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