DESEMPREGO

Brasileiros que sobrevivem graças ao auxílio emergencial demonstram medo

Brasileiros que conseguiram sobreviver à crise da covid-19 com base no auxílio emergencial estão apreensivos com a perspectiva de não contar mais com a ajuda do governo, num momento em que há pouca oferta de trabalho

Fernanda Strickland*
postado em 08/09/2020 06:00 / atualizado em 08/09/2020 06:27
 (foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)

As dúvidas sobre como estará a economia do país no pós-pandemia e a redução do valor do auxílio emergencial de R$ 600 para R$ 300 preocupam pessoas como Jéssica Alves Silva, 29 anos, advogada autônoma e produtora cultural, que está conseguindo sobreviver devido ao benefício, mesmo com muita dificuldade.

Ela mora em uma casa em Ceilândia com mais quatro mulheres que atuam na cena cultural de Brasília. “Antes da pandemia, eu morava sozinha, mas as condições financeiras não foram favoráveis”, conta. Todas recebem o auxílio emergencial de R$ 600. Elas decidiram morar juntas para dividirem as despesas com aluguel e alimentação. “Com o auxílio, custeamos o básico. O preço dos alimentos subiu de maneira expressiva. Só com alimentação, gastamos, em média, R$ 400 por semana. Ainda têm as despesas com internet, água, luz e medicamentos”, explica Jéssica.

“Estamos bem preocupadas. Somos mulheres negras em situação de vulnerabilidade social. Teremos de buscar outros meios de sobrevivência. O problema maior é a falta de oportunidades e, principalmente, o medo de contágio. Sabemos que a realidade da covid atinge de maneira drástica a periferia. Ficamos sem perspectiva de futuro”, diz a advogada.

Mesmo com as dificuldades, elas criaram um modo de ajudar outras pessoas na mesma situação, o Festival Preta Cei. “É um festival on-line com o objetivo de auxiliar artistas e outras pessoas que atuam na cena cultural. Conseguimos 21 cestas básicas e R$ 1.020 em dinheiro para dar assistência para pessoas que passam por dificuldades financeiras semelhantes às nossas”, conta Jéssica.

Francisco Chagas de Oliveira, 45 anos, morador da Cidade Ocidental (GO), fazia eventos no Distrito Federal, trabalhando como chefe de cozinha e viu sua renda de R$ 5 mil a 6 mil por mês despencar em meio à pandemia da covid-19. Há seis meses, devido ao isolamento social, vários eventos foram cancelados, impossibilitando que ele conseguisse trabalhar. “Agora, estou dependendo do dinheiro do auxílio emergencial ou de vender marmita”, afirma. Ainda desempregado, Francisco conta que tem dificuldades para pagar as contas. E, mesmo mandando currículo para várias empresas, não consegue emprego.

Já a dona de casa Maria Aparecida Fontele dos Santos Costa, 27 anos, que mora em Moraújo (CE), está desesperada para manter a família sem o auxílio emergencial, que foi suspenso. “Antes de o benefício ser cancelado, eu já estava preocupada com a diminuição do valor. Agora, me preocupa muito mais, pois o preço das mercadorias só aumenta”, conta.

Segundo ela, com o cancelamento, seu marido teve de fazer trabalhos ocasionais para garantir a sobrevivência da família. “Estamos apenas fazendo bicos ou dependendo da diária do meu esposo. Precisamos sustentar uma família com seis pessoas, então, é muito difícil”, afirma.

*Estagiária sob a supervisão de Rosana Hessel

Consumo restrito ao básico

As classes D e E, que são a base da pirâmide social, possuem hábitos de consumo bastante restritos à alimentação e à moradia, como aluguel e contas de água e de luz, de acordo com Fabio Mariano Borges, professor de comportamento do consumidor da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP).


Ele lembra que os supérfluos acabam sendo consumidos apenas quando sobra algum dinheiro. “Nesse período de pandemia, devido à retração da renda pelo desemprego, o consumo dessas classes deverá cair, especialmente, com a redução e, posteriormente, o término do auxílio emergencial, porque essas pessoas vão ter maior dificuldade para pagar as contas”, destaca. “Nas classes mais baixas, haverá também um cenário de aumento da inadimplência. Logo, o consumo ainda vai demorar para se recuperar nessas famílias, que são numerosas, e cuja maioria deverá continuar desempregada”, lamenta.


De acordo com Borges, falta uma estratégia do governo para lidar com o problema que está por vir, em um cenário em que a pandemia está se estendendo por um período muito maior do que o inicialmente previsto. “A complexidade dessa crise é que ela não é apenas econômica, mas sanitária, e está ficando cada vez mais difícil administrar a retomada das atividades, sem afetar a saúde. O governo não vai conseguir decretar um lockdown. Não é mais tão fácil como no início da pandemia. As pessoas não conseguem mais ficar em casa por tanto tempo”, afirma.


Segundo Borges, o governo falhou ao não dar a importância para a crise sanitária no início da pandemia e perdeu tempo trocando os ministros da Saúde. “A comunicação do governo e de empresas também foi muito ruim, porque diziam que tudo ia passar rápido. E a realidade do país não comporta um confinamento prolongado nas classes mais baixas. Elas moram na periferia, onde não há boas condições de saneamento básico, e precisam sair para trabalhar e comer”, pontua.

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