Desigualdade sobe na pandemia

Estudo da FGV Social mostra que, apesar de o auxílio emergencial ter tirado milhões da pobreza, diferenças de rendimento no mercado de trabalho batem recorde durante a crise da covid-19. Metade mais pobre da população é a mais afetada

Rosana Hessel
postado em 11/09/2020 01:22
 (foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
(foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

A pandemia de covid-19 está fazendo um estrago sem precedentes no mercado de trabalho. Apesar de o auxílio emergencial de R$ 600 ter melhorado a renda dos mais pobres e vulneráveis, principalmente nos estados do Norte e do Nordeste do país, o mercado de trabalho está encolhendo e o rendimento dos trabalhadores cai em patamares nunca antes vistos na história.

Dados de pesquisa “Efeitos da pandemia sobre mercado de trabalho brasileiro: Desigualdade, ingredientes trabalhistas e papel da jornada”, divulgada ontem pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV Social), revelam que o Índice de Gini — indicador que mede a desigualdade da renda — aumentou 2,2% durante a pandemia, pelos cálculos do estudo, passando de 0,792, no último trimestre de 2019, para 0,824, no segundo trimestre de 2020. Na métrica do indicador, quanto mais perto de 1,0 maior é a desigualdade.

“Esse aumento do Índice Gini é gigantesco e nunca foi registrado na métrica de variação do indicador”, destacou Marcelo Neri, diretor do FGV Social e coordenador do estudo, em entrevista ao Blog do Vicente. “Um salto desse na desigualdade nunca houve na série histórica em termos de renda do trabalho”, pontuou. Na série apontada pela FGV, o patamar é o mais elevado desde 2012, e o aumento entre o segundo trimestre de 2019 e o mesmo intervalo de 2020 foi de 3,87%, três vezes maior do que em qualquer outro ponto da série.

O levantamento da FGV tem como base os dados da Pnad Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E, de acordo com Neri, o quadro só não é mais grave devido à redução da jornada de trabalho proporcionada pela Medida Provisória 936, que ajudou a evitar um grande número de demissões no país. No segundo trimestre de 2020, durante o auge da pandemia, a queda na renda foi de 20,1% e teve como principal impulsionador a redução da jornada de trabalho, de 14,3%. “Se essa medida de redução da jornada, que foi prorrogada, perder a validade, poderá se transformar em desemprego, e, com isso, o aumento da desigualdade será maior ainda”, alertou.

Céu e inferno
Neri lembrou que o auxílio emergencial ajudou a melhorar a renda média de todos os trabalhos, incluindo assistência social, durante a pandemia, tirando 13,1 milhões de pessoas das faixas D e E, conforme mostrou uma pesquisa anterior do FGV Social. “Em relação à pesquisa passada sobre classes, esta faz um contraponto, uma espécie de paradoxo, porque mostra o mercado de trabalho no inferno, tanto na renda quanto na desigualdade”, destacou.

De acordo com o estudo, os 50% mais pobres ainda foram mais afetados, pois tiveram queda na renda do trabalho de 27,9%. Já os 10% mais ricos perderam menos do que a média: 17,5%. As minorias também estão entre os maiores prejudicados. A renda média dos indígenas caiu 28,7%; a dos sem instrução recuou 27,5% e a dos jovens até 24 anos encolheu 26%. Ao comparar a queda da renda média entre os estados brasileiros, Pernambuco lidera a lista de aumento da desigualdade, com queda de 26,9%. Já o Distrito Federal apresenta redução média de 19,3%.

 


“Em relação à pesquisa passada sobre classes, esta faz um contraponto, uma espécie de paradoxo, porque mostra o mercado de trabalho no inferno, tanto na renda quanto na desigualdade”

Marcelo Neri,diretor do FGV Social

Caem pedidos de seguro desemprego


O Ministério da Economia registrou queda de 18,2% no volume de pedidos de seguro-desemprego em agosto. Foram contabilizados 463.835 requerimentos na modalidade “trabalhador formal”, conforme dados da pasta divulgados ontem. Segundo a assessoria do órgão, não houve represamento de pedidos, como ocorreu no começo do ano, e o sistema está “funcionando normalmente”.

No acumulado de janeiro a agosto, o ministério contabilizou 4.985.057 pedidos de seguro desemprego. O dado representa aumento de 7,5% em relação aos 4.635.454 acumulados no mesmo período de 2019 e reflete o impacto da recessão profunda em que o país mergulhou devido à pandemia de covid-19. No oitavo mês de 2019, foram 567.069 requerimentos, logo, houve 103.234 pedidos a menos nessa base de comparação. Em relação a julho, quando foram computadas 570.602 solicitações, a redução foi de 18,7%.

Em relação ao perfil dos solicitantes, 40,1% eram mulheres e 59,9%, homens, de acordo com os dados da pasta. A faixa etária da maior proporção de requerentes era de 30 a 39 anos, com 33%. Em termos de escolaridade, 59,2% tinham ensino médio completo.

Os setores da economia que tiveram a maior incidência de pedidos de seguro desemprego foram os de serviços e de comércio, com 43,2% e 26,4% do total, respectivamente. Indústria (com 14,7%), construção (9,7%) e agropecuária (4,8%) vieram na sequência. (RH)

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