Brasil S/A

Viúvas da inflação

"Bastou a comida encarecer para os populistas e o lobby do juro alto ressurgirem assanhados"

Antonio Machado
postado em 12/09/2020 23:37

O buchicho sobre a disparada do preço do arroz e outros produtos da cesta básica, com o presidente Bolsonaro cobrando “patriotismo” de supermercados e empresários convocados pelo ministro da Justiça a dar explicações, fez-me lembrar de uma charge, acho que do Ziraldo, sobre uma das cenas mais patéticas do combate à inflação no país.

Na derrocada do Plano Cruzado, em 1986, quando o congelamento de preços fazia água, o desabastecimento era geral, embalagens de um quilo vinham com 900 gramas, a Polícia Federal no governo Sarney recebeu ordens para caçar bois no pasto e fazer a carne reaparecer nos açougues. A charge pintava um touro com jeito malandro, fazendo xixi nos pés do chefe da PF, Romeu Tuma, e do ministro da Fazenda, Dílson Funaro, ambos com binóculos procurando o bicho.

O que começou com populares fechando supermercado ao som do Hino Nacional terminou em zombaria. A farsa do cabresto na inflação foi tentada mais três vezes. Todas fracassaram, humilhando o presidente e o ministro da hora, até que a reforma monetária que criou o real em 1994 pôs ordem na casa, apesar do serviço incompleto. Faltaram a reforma da governança do Estado, hoje inadiável, e a desindexação total de quaisquer contratos, de aluguéis ao crédito bancário.

A questão que se coloca é se há motivo para nos preocuparmos com o risco de recidiva do processo descontrolado de reajustes de preços. Altas isoladas não configuram risco. O que justifica os aumentos de preços do arroz, da carne, do óleo de soja, além de matérias primas e insumos industriais, então?

A brutal depreciação do real em relação ao dólar desde meados de 2019 é um dos vilões. Outro foi o aumento da renda disponível para 67 milhões de pessoas que recorreram ao auxílio emergencial de R$ 600 (ou R$ 1,2 mil no caso de mulheres chefes de família). Para a maioria, o auxílio foi maior do que a renda habitualmente recebida, implicando aumento do consumo de alimentos, o item mais relevante no orçamento das famílias, seguido de produtos para a casa.

Ambos eventos são datados. O maior poder de compra da maioria da população foi reduzido à metade a partir de setembro e até o fim do ano, com o corte do auxílio emergencial para R$ 300. Quanto à depreciação cambial, a expectativa é de que o Banco Central mostre-se mais ativo, já que não há escassez efetiva de divisas no país.

Cautela com os cenários
O noticiário está tomado de avisos sobre o risco de insolvência do Tesouro Nacional, dividindo espaço nos últimos dias com a inflação — que segue baixa, no conjunto da obra. O IPCA acumula alta em 12 meses até agosto de 2,44% e as projeções de mercado compiladas pelo boletim Focus, do BC, seguem ancoradas em tranquilos 2,00% e 2,88% para 2020 e 2021, respectivamente. O que deve chamar a atenção?

Primeiro, a divulgação dos cenários mais pessimistas de maneira acrítica, especialmente quanto ao deficit orçamentário e a dívida pública. Ambos exibiam trajetória ruim antes da pandemia, devido à estagnação do crescimento a partir do governo Dilma, e o provável é que retornem a essa tendência, passada a recessão.

A relativa rapidez da recuperação da atividade econômica, ao lado das projeções de aumento do PIB (Produto Interno Bruto) ao redor de 3%, ano que vem, deve ser avaliada com cautela. A base de comparação com o PIB de 2020 será extremamente baixa. Além disso, boa parte da retomada em processo deve-se ao pagamento do auxílio emergencial e a outros programas emergenciais que vencerão no fim de dezembro.

Dólar caro foi tiro no pé
A apreensão com o que virá com o fim da chamada economia de guerra também toma as atenções do BC e deve pautar a próxima decisão sobre o curso da Selic na reunião do Copom desta quarta-feira. É possível que mantenha a taxa atual de 2%, sem descartar outro corte adiante.

A velocidade da recuperação da atividade, acompanhada do emprego e da retomada da economia informal da qual a maioria pobre da força de trabalho tira o seu sustento, é o fator determinante do laxismo monetário, sobretudo pela restrição do teto de gasto orçamentário (congelado ao realizado em 2016 e apenas corrigido pela inflação).

A verdade a ser encarada pelo BC é que ruiu a hipótese do ministro Guedes, anunciada no início do ano, de que a “nova combinação” da política econômica reunindo câmbio alto e juro baixo impulsionaria o crescimento, ao ajudar a alavancar as exportações industriais e encarecer as importações. As exportações têm avançado, mas graças à maior demanda da China por commodities agrícolas. Neste setor, como na mineração, não há exportação gravosa nem com dólar a R$ 4.

Modelo atual esgotou-se
Já a demanda por manufaturados ressente-se na veia com o real no rés do chão. Não há bem industrial intermediário ou final sem naco substantivo de componentes eletrônicos que o país não produza. Se a importação encarece, o custo represado pela recessão fica evidente.

O câmbio irreal, porque não há carência de divisas, o deficit das contas externas é pequeno (US$ 13 bilhões na previsão do BC para o fim do ano) e o país dispõe de um folgado colchão de reservas de US$ 356 bilhões — desvia excedentes de alimentos para a exportação (o que bate na inflação) e reduz a lucratividade da indústria (que perde razões para investir e empregar). O que fazer? O BC intervir nas operações com câmbio futuro e peitar as apostas especulativas.

Furar o teto (como querem os ministros próximos de Bolsonaro e seus novos “aliados” do Centrão), rebaixar o piso do teto (como o ministro Guedes defende, o que exige reformas constitucionais que estão no Congresso) ou um pouco das duas coisas são as opções.

Mais que isso só com outra equipe econômica, muita ajuda externa e nova coalizão política. O modelo atual esgarçou-se e não tem conserto.

A discussão necessária
Em meio às necessárias ações de curto prazo, faz-se, também, crucial discutir o que estimula o progresso. Desde a ruína do dirigismo na ditadura, replicado como versão meia sola no governo Dilma, tem-se privilegiado o crescimento movido a consumo. Mas só o investimento alavanca os meios de produção e bons empregos. A subalternidade do investimento cria estagnação e dependência da maioria da população sem emprego decente por programas sociais. Dinheiro barato, nesta configuração, só cria endividado, não riqueza e bem-estar social.

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