Imóveis

Índice que reajusta aluguel dispara e preocupa inquilinos

Usado como base em contratos de locação, IGP-M acumula alta de 18,2% em 12 meses. Corretores recomendam a imobiliárias que segurem reajustes para não perder clientes

Fernanda Strickland*
Jailson R. Sena*
postado em 22/09/2020 19:45 / atualizado em 22/09/2020 19:49
 (crédito: Breno Fortes/CB/D.A Press - 30/1/18)
(crédito: Breno Fortes/CB/D.A Press - 30/1/18)

O Índice Geral de Preços — Mercado (IGP-M), geralmente usado para calcular o reajuste anual de contratos de aluguel, subiu 4,57% no segundo decêndio de setembro, ante 2,34% no mesmo período do mês anterior. O dado foi divulgado na sexta-feira (18/09) pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Com este resultado, a taxa acumulada em 12 meses passou de 12,58% para 18,20%. O índice sofre influência considerável das oscilações do dólar, além das cotações internacionais de produtos primários, como  commodities e metais.

O IGP-M é composto de três componentes, que medem, respectivamente, a evolução dos preços no varejo (ICC), na construção civil (INCC) e no atacado (IPA). Este último é que vem registrando alta expressiva.

“As taxas observadas para o IPC e o INCC não registraram mudança significativa em comparação ao mês de agosto. Já a inflação ao produtor segue em aceleração e espalhada entre os estágios de processamento, com destaque para as matérias-primas brutas, cuja a variação média passou de 5,60% para 11,31%. Neste grupo, destacam-se minério de ferro (9,24% para 17,01%) e soja (4,73% para 12,53%), que juntos responderam por 42% do resultado do IPA.”, afirma André Braz, coordenador do IGP-M.

Com a elevação do IGP-M, o preço dos aluguéis pode ter forte alta, o que preocupa inquilinos. É o caso de Patrícia Barros, 74 anos, que mora de aluguel no Gama-DF. Para ela, reajustes dessa magnitude não são justos, já que não há aumento no salário. “Devido a pandemia, não é o melhor momento para reajustes de qualquer área. Há pessoas desempregadas, que vivem na dependência de um auxílio do governo. Nesse momento, a melhor opção é manter os aluguéis nos valores atuais”, afirma.

A estudante Ana Karolina Leão, 23 anos, ocupa um imóvel alugado em Taguatinga Norte há seis meses. Porém não existe um contrato, o que pode fazer o locador reajustar o preço a qualquer momento. “Caso ocorra o aumento, dependendo do valor eu converso. Se for muito absurdo, peço um mês e me mudo. Mas, para mim, é mais viável ficar, pois mudança custa caro, além de ser algo extremamente cansativo”, pondera.

Para muitas imobiliárias, a previsão é de não repassar o aumento aos atuais locatários. O corretor de imóveis autônomo Bruno Roque dos Santos diz que prefere manter os bons pagadores, clientes que vem recolhendo corretamente o aluguel. “Para esses clientes ,tentamos fazer o mínimo de reajuste anual possível. Com aumento de 20%, posso perder um bom inquilino”, diz.

Inadimplência

Ele complementa que as imobiliárias tentam não seguir o índice, principalmente devido à crise econômica. “A inadimplência é algo complicado agora, até porque tem um decreto dizendo que não se pode despejar ninguém até dia 30 de novembro. É necessário equilibrar as coisas dos dois lados”, pondera o corretor.

Para o presidente nacional da Comissão de Direito Condominial da OAB Federal, advogado Antônio Marcos da Silva, os aluguéis podem podem aumentar, mas não é o momento certo para isso. “Estamos em um momento de refluxo da economia, no qual todos tem que negociar para manter os valores que já são cobrados”, diz. Ele observa que, em plena pandemia, muitos estão com dificuldades, principalmente o setor do comércio, e acredita que o aumento do IGP-M não terá reflexo igual ao dos últimos anos. "O momento é de diminuir (o valor do aluguel) e tirar soluções que reduzam a possibilidade de inadimplência”.

*Estagiários sob supervisão de Odail Figueiredo

 

 

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