CONJUNTURA

Juros favorecem a retomada

Ex-presidente do BC afirma que a taxa Selic em 2% ao ano é um dos motores para o Brasil superar a crise. Mas salienta que é necessário consolidar a âncora fiscal e realizar as reformas administrativa e tributária

Simone Kafruni
postado em 23/09/2020 01:36

O ex-presidente do Banco Central e presidente do Conselho de Administração do Credit Suisse, Ilan Goldfajn, afirmou que o Brasil está com juro real negativo e juro nominal abaixo do ponto de equilíbrio. Por isso, a Selic, em 2% ao ano, ajuda a alavancar a retomada da economia no pós-pandemia.

“Empurra a demanda e o investimento”, disse ele, ao participar do debate Política Econômica da Pandemia e o Setor de Telecomunicações, durante o Painel Telebrasil 2020.

Ele ressaltou que a taxa de juros bem abaixo do ponto de equilíbrio, que seria algo em torno de 6%, com desconto da inflação de 3% a 4%, teria, aí sim, juro real de 2% a 4%. Segundo ele, a Selic baixa promoveu novos produtos financeiros, como fundos de infraestrutura e imobiliários, com o mercado de capitais crescendo muito. “A queda de juros faz a diferença, mas, obviamente, é apenas uma das forças”, afirmou.

Segundo o ex-presidente do BC, o Brasil venceu a inflação e, agora, está vencendo os juros altos. “Mas nos falta um passo relevante no mundo macroeconômico: a consolidação fiscal. Precisamos que a nossa dívida seja percebida como estável. Entramos na pandemia com relação dívida/PIB em 75% — e vamos sair com 95% a 100%. Por isso, as reformas administrativa e tributária são necessárias, para consolidar o fiscal e a uma taxa de juros de um dígito”, assinalou.

Para Ilan, como a recessão está voltando, o fiscal precisa ser trabalhado. “O pior da crise foi em abril, estamos melhorando. Porém, a volta tem alguns componentes importantes. É a saída da pandemia. O mundo está tendo uma dúvida de segunda onda, sem o mesmo grau de letalidade que tinha no começo da primeira fase. No caso do Brasil, temos uma primeira onda que está devagar, se estabilizou e vem se reduzindo um pouco nas últimas semanas”, analisou.

Um fenômeno relevante, destacou, é a nova mobilidade das pessoas. “Muita gente que não podia oferecer seus serviços, do contingente autônomo ou do setor informal, os invisíveis, podem voltar e tentar fazer o ganha pão deles. Há setores que paralisaram muito pouco, como o agrícola ou o industrial. E os serviços estão tendo uma volta, apesar daquela parcela que depende do presencial, como aviação, cinemas e shoppings”, avaliou.

Respeito ao teto
Já para o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, atual secretário de Fazenda e Planejamento de São Paulo, o teto de gastos — regra cada vez mais ameaçada pela tentativa do governo federal em criar um programa de renda mínima que entregue ao beneficiário R$ 300 — foi fundamental para permitir a redução da taxa básica de juros em 2% ao ano. Ele era ministro do ex-presidente Michel Temer, responsável pela criação da norma que congelou, por 20 anos, a expansão do gasto público, limitado à inflação do ano anterior.

“O teto de gastos viabilizou a discussão orçamentária. Passou a ser forçoso discutir prioridades orçamentárias, porque não se podia expandir o gasto. E o Brasil voltou a crescer. A recuperação permitiu ao Banco Central, de forma conservadora, baixar a taxa de juros, com uma consequente melhora estrutural”, defendeu, ao participar do debate Política econômica da pandemia e o setor de telecomunicações, durante o Painel Telebrasil 2020 (Leia mais na página 9).

Segundo ele, a situação fiscal será muito importante nos próximos anos, para garantir a retomada da economia de forma sustentável. “Neste momento, temos cada vez mais que implantar o teto. No pós-pandemia, é preciso voltar para uma absoluta obediência. Sei que a tentação é grande, porque, por um período, houve expansão por conta de uma crise de saúde inédita. Agora, é necessário reequilibrar o processo”, sustentou.

O ex-ministro disse, ainda, que as reformas, assim como a racionalização dos gastos públicos e as medidas para viabilizar a manutenção do teto, são necessárias para impulsionar a economia. “Também precisamos de investimento em infraestrutura. Um dos nossos problemas maiores é o deficit estrutural nessa área. Isso passa por privatização. O Estado brasileiro e os governos estaduais não têm recursos para isso”, acrescentou.

75%

era o percentual da relação dívida/PIB do Brasil quando o país começou a viver a pandemia


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