Trabalho

Parceria entre Microsoft e governo quer qualificar 5,5 milhões

Plataforma vai oferecer 20 cursos de tecnologia, desde alfabetização digital até computação em nuvem. Atualização de solução para o Sine promete ajudar na empregabilidade de 25 milhões de pessoas

Simone Kafruni
Carinne Souza*
postado em 20/10/2020 11:21 / atualizado em 20/10/2020 19:09
Tânia Cosentino, presidente da Microsoft Brasil: é preciso formar mais profissionais -  (crédito: Reprodução evento digital de lançamento )
Tânia Cosentino, presidente da Microsoft Brasil: é preciso formar mais profissionais - (crédito: Reprodução evento digital de lançamento )

A Microsoft anunciou, nesta terça-feira (20/10), o programa Mais Brasil, um plano que pretende ajudar o governo brasileiro com oportunidades de emprego e qualificação. A gigante de tecnologia expandiu sua oferta de nuvem no país e estabeleceu uma aliança com o Ministério da Economia. O objetivo é auxiliar na empregabilidade de até 25 milhões de trabalhadores, por meio de uma atualização do Sistema Nacional de Emprego (Sine), e oferecer treinamento digital gratuito para 5,5 milhões de pessoas.

A plataforma de ensino remoto, desenvolvida pela Secretaria Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia (Sepec/ME) em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), inclui 20 cursos da Microsoft, por meio da ferramenta Microsoft Community Training, com a capacidade de atender até 5,5 milhões de candidatos a emprego até 2023. Os cursos de tecnologia são de diferentes níveis com base nas principais competências exigidas pelo mercado de trabalho, desde a alfabetização digital até módulos mais avançados de computação em nuvem, inteligência artificial e ciência de dados.

De acordo com o titular da Sepec, Carlos da Costa, a demanda por profissionais de tecnologia da informação é enorme por falta de qualificação. “Em Recife, existem 2 mil vagas abertas, sem encontrar pessoas com habilidades adequadas e, por outro lado, temos milhões de desempregados”, disse, durante o evento digital de lançamento.

“Um dos mais graves problemas do Brasil é a falta de capital humano. É caro contratar pessoas, primeiro por conta dos encargos sobre a mão de obra, que são altos. Mas também porque a qualificação é baixa quando comparada com a mediana da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Essa iniciativa é para evoluir o capital humano em competências digitais, que são inclusivas”, explicou o secretário.

A Microsoft também doou créditos de nuvem para auxiliar na melhoria do Sine. A atualização da solução foi liderada pela BizApp e irá usar Inteligência Artificial para conectar pessoas e suas habilidades a oportunidades de emprego relevantes, bem como encaminhar indivíduos para cursos de qualificação. A meta dessa solução é melhorar a empregabilidade para até 25 milhões de trabalhadores.

Costa explicou que a Microsoft foi escolhida para a parceria, porque estava disposta a fazer coisas essenciais e contribuir, sem custos financeiros para a União. “Estamos em um momento sem recursos. Algumas empresas ofereceram soluções temporárias e depois com custo. Outro motivo foi a disponibilidade de customizar as soluções, porque o Brasil é muito específico, a necessidade de qualificação começa bem de baixo. O país tem deficiência de base, tem gente sem habilidade nenhuma, sem educação formal. O sistema tem que começar muito da base, não poderia ser muito técnico. Então, todas essas dimensões fizeram com que a Microsoft fosse a escolhida”, justificou.

Tecnologia 

De acordo com Tânia Cosentino, presidente da Microsoft Brasil, a companhia está comprometida com o crescimento sustentável do país. “A pandemia nos forçou a experimentar a tecnologia, e ajudou a desmistificá-la e também a acelerar algumas regulamentações. Houve intensificação do uso de ferramentas digitais, educação à distância, telemedicina. Qualquer profissional autônomo que queira construir seu negócio com novas experiências digitais pode acelerar o crescimento, por isso precisamos reduzir o gap, a brecha, de 30 mil profissionais por ano que formamos a menos do que o mercado necessita”, ressaltou.

Tânia afirmou que o Brasil ficou para trás no setor. “Temos profissionais menos qualificados hoje. Precisamos ajudar a melhorar a educação do país. Atrair jovens para as ciências exatas. Quem não souber lidar com a tecnologia vai ficar obsoleto”, disse. “A Microsoft trouxe o datacenter para cá, para criar infraestrutura e investir em educação e qualificação. Isso porque, quando colocamos o Brasil em um ranking global, estamos em 80º lugar na capacidade de atrair, formar e reter talentos. Pior do que estar atrás, foi termos perdido oito posições no último ano”, comentou.

O ministro de Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, também participou do evento digital. “A capacitação de pessoal é uma das coisas relevantes para o futuro do país. Vemos essa área de TIC (tecnologia da informação e comunicação) com deficit muito grande de profissionais. Um dos nossos focos é atrair a atenção dos jovens para as carreiras de tecnologia”, disse. Pontes também comentou sobre o monitoramento da Amazônia, uma vez que a Microsoft também anunciou um novo esforço para ajudar a proteger a floresta amazônica do desmatamento usando inteligência artificial.

Profissionalização

Para o vice-presidente da Associação Catarinense de Empresas e Tecnologia (Acate), Moacir Marafon, especialista em Planejamento Econômico e Ciências da Computação, a profissionalização dos brasileiros para as novas tecnologias digitais é um assunto coletivo. “Não é mais assunto do governo e nem do centro de formação, é um assunto da sociedade, é uma maneira de inclusão social. Os ecossistemas que envolvem as empresas podem ser um elo de conexão entre o profissional e esses dois coletivos, mas os jovens precisam despertar a vontade para se profissionalizar nessas áreas”, explicou.

Com o avanço das tecnologias, as empresas e vagas de emprego se tornaram mais abrangentes e pedem por profissionais cada vez mais capacitados para atuar no ramo tecnológico, um dos que mais cresce no mundo. De acordo com estudos da ManPowerGroup, 65% dos alunos atuais do ensino básico vão trabalhar em empregos que ainda não existem.

Marafon ressaltou que a demanda e a concorrência é mundial, mas a oferta, não. “As empresas do mundo inteiro procuram por esses profissionais e aqueles que são capacitados passam por várias delas, poucos estão aptos para ocupar as novas vagas. É preciso trabalhar na base, na educação dos futuros profissionais. Celular e rede social não forma um profissional TIC, os cursos técnicos estão com as inscrições preenchidas e todas as vagas ocupadas, mas apenas 11% se formam. Quando esse aluno passa a ver matemática e algoritmo, ele desiste do curso e o abandona”, lamentou.

Para a gerente de Pessoas & Cultura do DOT digital Group, Ana Paula Baseggio, enquanto as escolas e futuros profissionais não se engajam na profissionalização técnica, as empresas precisam investir na capacitação dos seus profissionais. “O funcionário não vem pronto e, mesmo que tenha uma excelente profissionalização, o mundo está em constante mudança, é preciso que ele se atualize e a empresa deve investir nisso. Isso aumenta a concorrência, aumenta a produção e o profissional se torna mais engajado”, argumentou Beseggio.

Ana Paula, que possui MBA em gestão estratégica de pessoas, também explicou que é preciso entender a demanda de cada empresa para, assim, traçar o perfil do profissional desejado. “A empresa entende que ela precisa de alguém formado ou com profissionalização em TIC, mas qual sua demanda para ele? Muitas vezes o candidato é capacitado mas não se encaixa no perfil da vaga pois não foi traçado a necessidade.”

Mulheres nas TICs

O cenário para o público feminino também não é favorável. De acordo com os dados divulgados pela ONU Mulheres Brasil, as mulheres ocupam apenas 25% das vagas na área tecnológica e somente 18% tem graduação em Ciências da Computação. A mesma pesquisa também indicou que o grupo feminino está fora dos principais cargos gerados pela era digital.

Em 2019, a então gerente de Princípios de Empoderamento Econômico da ONU Mulheres, Adriana Carvalho, afirmou que 64% das mulheres demonstram interesse nas áreas da tecnologia e ciência, mas apenas 30% dos pesquisadores do mundo são mulheres. Baseggio assinalou que as empresas precisam criar ações para inclusão de mulheres para as vagas de tecnologia. “Esse meio é dominado pelos homens. As mulheres podem programar e é preciso dar oportunidades! O ambiente é acolhedor para o público feminino e as mulheres precisam saber disso”, explicou.

* Estagiária sob supervisão de Simone Kafruni

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