Conjuntura

Guedes lamenta não conseguir entregar privatizações

"É bastante frustrante", diz ministro sobre o fato de não ter vendido uma só estatal em quase dois anos de governo. "Precisamos recompor o nosso eixo político para fazer as privatizações prometidas na campanha", defendeu

Rosana Hessel
postado em 10/11/2020 12:44 / atualizado em 10/11/2020 15:17
Guedes: governo carrega
Guedes: governo carrega "estatais e imóveis ineficientes", mas reconheceu que foi otimista ao crer que esse inventário renderia em torno de R$ 2 trilhões se negociado -

O ministro da Economia, Paulo Guedes, admitiu que está frustrado por não conseguir vender uma única estatal no programa de privatização, nesses quase dois anos de governo. Durante a campanha e na posse, ele prometeu arrecadar R$ 1 trilhão com a venda de empresas controladas pelo governo federal.

“Estou estou bastante frustrado por não conseguir vender uma estatal nesses quase dois anos de governo. É bastante frustrante”, disse Guedes, nesta terça-feira (10/11), durante a abertura do evento "Boas práticas e desafios para a implementação de política de desestatização do governo federal", realizado pela Controladoria-Geral da União (CGU).

Ao reforçar a defesa das privatizações, Guedes fez um alerta de que o Brasil pode "ir para a hiperinflação muito rápido" se não conseguir rolar a dívida pública satisfatoriamente. Afirmou que o governo será duro contra a inflação e que a venda de estatais pode ajudar a estancar esse processo e trata-se de algo que “está acima da política partidária”. E reafirmou que reduzir o peso do Estado é fundamental para o país se transformar em uma economia de mercado. “Precisamos recompor o nosso eixo político para fazer as privatizações prometidas na campanha”, defendeu sem dar novos prazos ou citar quantas estatais pretende vender. “Temos que avançar nosso programa aqui”, frisou.

Quatro estatais

Em outro evento realizado hoje, o ministro afirmou que, até dezembro de 2021, quatro estatais deverão ter sido vendidas: Correios, Porto de Santos, Eletrobras e PPSA, que administra o sistema de partilha de petróleo. “Até dezembro, essas quatro devem estar feitas. E muitas outras. Esse é o ponto de partida. Estamos propondo isso para o Congresso nos próximos 30 a 60 dias”, adiantou.

O ministro disse que se houver sucesso na venda dessas estatais, o governo poderá arrecadar US$ 100 bilhões, recuperando parte do que foi gasto no combate à pandemia – quase R$ 900 bilhões. “Eu não acredito que seremos bem sucedidos em vender tudo. É só para te dar ideia do montante. Esse é só o primeiro movimento”, disse, na teleconferência da Bloomberg sobre mercados emergentes.

De acordo com o ministro, a falta de avanço na agenda de privatizações foi o motivo por ele ter perdido a colaboração do empresário Salim Mattar na Secretário Especial de Desestatização. E acrescentou que o substituto de Salim, Diego MacCord, só tem que fazer “um gol para ganhar” – ou seja, vender uma estatal.

Marco regulatório

O ministro demonstrou otimismo com o novo marco regulatório do saneamento básico, que deve ajudar, por exemplo, na venda da Cedae, empresa de água e esgoto do Rio de Janeiro. Contudo, parou de prometer vender quatro estatais “nos próximos 90 dias”, como fazia nas falas constantes com operadores de mercado. Ele sempre salienta a recuperação rápida da economia com curva em V, algo que os mais otimistas evitam arriscar devido às incertezas da retomada diante de uma nova onda de contágio da covid-19, como ocorre na Europa. Entretanto, não tratou disso no evento da CGU.

Guedes ainda reforçou que o governo carrega "estatais e imóveis ineficientes" e reconheceu que seus dados estavam muito otimistas. Salientou que, antes de assumir o cargo, achava que o governo tinha R$ 1 trilhão de estatais e R$ 1 trilhão de imóveis, devido às estimativas de dois bancos feitas para ele. Mas reconheceu que o número é um pouco menor e que “superestimou", principalmente, "o valor de imóveis”.

O chefe da equipe econômica destacou, ainda, que a privatização vai ser uma consequência do processo de transformação e de abertura da economia que pretende continuar implementando. “Nós devemos à democracia essa transformação do Estado. Isso está acima da política partidária”, destacou. Ele criticou o Congresso por não conseguir avançar com as promessas de desestatização e voltou a dizer que o “timing da política” não é o mesmo que ele gostaria.

Fenômeno chinês

Guedes reconheceu que a privatização no Brasil será mais complexa. Contou que tem estudado a China porque “é um fenômeno de mercado” e está incomodando os países do Ocidente. O ministro lembrou o processo de crescimento do país asiático, desde a entrada na Organização Mundial de Comércio (OMC), transformando-se em uma economia de mercado dentro de outra totalmente estatizada, durante as duas últimas décadas. Segundo o ministro, o governo chinês tentou vender algumas estatais, mas não conseguiu. E, enquanto isso, foi ocorrendo um movimento interno de abertura em áreas como Hong Kong, onde o capital entrou.

“Por inteligência e para sobreviver, (a China) mergulhou nos mercados globais e deixou a China de mercado dentro da China estatal. A China de mercado nova que surgiu tem 200 milhões de chineses fora da China. Tem um Brasil fora da China”, destacou Guedes, acrescentando que tem mais chineses migrando para Portugal do que brasileiros.

“Após afundarem na Idade Média, (os chineses) ressurgiram com muita força como economia de mercado. Essa é a China da inovação, do 5G, que, inclusive, vem assustando o Ocidente”, disse, explicando o porquê da guerra comercial com os Estados Unidos, que é a segunda maior economia do planeta.

 

 


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