Economia

Guedes e Campos Neto negam divergência sobre controle fiscal

O presidente do BC disse que não criticou o ministro ao dizer que é preciso "um plano que dê uma clara percepção aos investidores de que o país está preocupado com a trajetória da dívida"

Marina Barbosa
postado em 26/11/2020 23:27
Campos Neto e Guedes: trégua para acalmar o mercado -  (crédito: Sergio Lima / AFP)
Campos Neto e Guedes: trégua para acalmar o mercado - (crédito: Sergio Lima / AFP)

"Evento superado". Foi assim que o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, tentou minimizar o mal-estar que se instalou na equipe econômica nessa quarta-feira (25/11) após o chefe da autoridade monetária cobrar a apresentação de um plano claro de disciplina fiscal e ser rebatido publicamente pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Ele explicou que defende o mesmo plano de trabalho de Guedes e já conversou com o ministro para acertar o discurso.

Campos Neto e Guedes conversaram nesta quinta-feira (26/11) pela manhã e garantem que o assunto está resolvido. "Eu estava ecoando, na verdade, uma preocupação que tinha sido dita pelo ministro, que é uma preocupação de que não podemos achar uma saída que gere um gasto fiscal permanente, alto. É importante estar dentro do teto de gasto", afirmou o presidente do BC, em entrevista ao SBT. Fontes ligadas a Guedes também negaram quaisquer atritos. "A cartilha do Roberto é a mesma do Paulo. O plano já foi apresentado", afirmou uma fonte ligada ao ministro.

Reformas e investidores

O plano de Paulo Guedes é endereçar a questão fiscal e atrair investidores por meio das reformas econômicas e do pacto federativo. E Campos Neto garantiu que não fez uma crítica a esse planejamento ao dizer, em um evento realizado nessa quarta-feira, que é preciso "conquistar credibilidade com um plano que dê uma clara percepção aos investidores de que o país está preocupado com a trajetória da dívida". "Não era uma crítica. Eu estava, na verdade, ecoando uma mensagem que tinha sido propagada pelo ministro e pela área de economia. Nós temos um pensamento muito parecido", declarou.

Para o presidente do BC, o que permitiu ao governo brasileiro elevar o endividamento público para fazer frente às despesas exigidas pela pandemia de covid-19 foi o teto de gastos, já que esse instrumento indicava que o Brasil voltaria a controlar os gastos públicos em 2021. Ele disse, contudo, que, "quando começaram a surgir propostas que flertavam por não respeitar o teto de gastos ou desrespeitar a trajetória de convergência da dívida", foi preciso ecoar a mensagem de que é importante retomar a disciplina fiscal.

Mensagem coerente

E afirmou que essa mesma mensagem que tem sido defendida por Guedes e pelo secretário do Tesouro, Bruno Funchal. "É um evento superado. De novo, importante dizer que eu estava ecoando a mesma mensagem que já havia sido passada", minimizou Campos Neto.

O presidente do BC fez questão, contudo, de reforçar a importância da disciplina fiscal. Ele alertou que "é muito difícil manter inflação baixa e juros baixos com o fiscal descontrolado", bem como atrair os investimentos que podem ajudar o país a voltar a crescer. "Nós precisamos crescer com a iniciativa privada, porque temos pouco espaço fiscal. Para crescer com a iniciativa privada, precisamos gerar credibilidade. A credibilidade hoje está baseada em dois fatores: aprovação das reformas e a disciplina fiscal", afirmou.

O chefe da autoridade monetária ainda avisou que qualquer saída que não vá nessa linha vai gerar uma reação do mercado e pode elevar ainda mais a inflação. "Qualquer saída que for percebida como uma saída que não gere convergência fiscal vai ter uma reação adversa, e podemos ir para o caminho de desorganização de preço, como câmbio desvalorizar, curva de juros subir ainda mais, o prêmio de risco do Brasil subir ainda mais", declarou.

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