Produção industrial

Representantes da indústria do aço negam crise de desabastecimento

"Há zero possibilidade de desabastecimento. A nossa capacidade instalada é de 51 milhões de toneladas e trabalhamos com um grau muito baixo e a prioridade da indústria do aço é abastecer o mercado interno", afirma presidente do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes

Rosana Hessel
postado em 27/11/2020 16:57 / atualizado em 27/11/2020 20:58
 (crédito: China Daily/REUTERS)
(crédito: China Daily/REUTERS)

Representantes da indústria do aço marcaram encontro com o presidente Jair Bolsonaro, nesta sexta-feira (27/11), para informar que o setor está operando abaixo da capacidade e que "não há crise de abastecimento do produto no mercado interno, porque a produção opera com 68% da capacidade instalada enquanto o ideal seria que esse patamar fosse de 80%".

“Há zero possibilidade de desabastecimento. A nossa capacidade instalada é de 51 milhões de toneladas e trabalhamos com um grau muito baixo e a prioridade da indústria do aço é abastecer o mercado interno. Infelizmente, ele não demanda o que é necessário para as empresas terem um grau de utilização da capacidade afirmou o presidente do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, em videoconferência, a jornalistas, antes da reunião com Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, no Palácio do Planalto.

De acordo com o executivo, o que ocorreu foi uma “colocação de narrativas de clientes de empresas que passaram a demandar mais e a reposição dos estoques não acompanhou o volume. “As empresas estão com ajustes para atender os pedidos”, explicou ele, em resposta às críticas recentes de representantes da construção civil que andaram se queixando da falta de vergalhões. De acordo com os executivos, a normalização deverá ocorrer dentro de "algumas semanas".

 

Recuperação em V

O presidente do Conselho Diretor do Instituto Aço Brasil, Marcos Faraco, durante a apresentação dos números afirmou que a indústria do aço, após o auge do confinamento social provocado pela pandemia de covid-19, está em pleno processo de recuperação, com uma “verdadeira curva em V”, superando o volume de produção pré-pandemia. As vendas internas passaram de 1,5 milhão de toneladas de aço laminados planos e longos, em fevereiro, para 983 mil toneladas, em abril, e, em novembro, chegam perto de 1,9 milhão de toneladas.  

“O que acompanhou essa retomada foi muito ruído. O que se viu, especificamente, foi uma retomada em V maiúsculo, e uma questão de desenquadramento entre a oferta e a demanda, que está se ajustando em todos os estoques”, disse Faraco.Pelas estimativas do instituto, entretanto, a produção de aço bruto em 2020 deverá somar 30,7 milhões de toneladas, representando uma queda de 5,6% na comparação com 2019.

De acordo com os executivos, a indústria opera com 68% da capacidade quando o ideal seria que esse patamar ficasse em 80% para uma desenvolvimento mais sustentável e que o setor vem conversando com os representantes da construção civil para expor a realidade "e reduzir os ruídos". Conforme dados apresentados pelo instituto, não há desvio da produção para o mercado externo uma vez que a exportação representa menos de 10% das vendas mensais de laminados dos últimos meses: 172 mil toneladas.

Competitividade

Marco Polo contou que, além de apresentar os números do setor a Bolsonaro, outro assunto que o instituto vai incluir na conversa é a necessidade de melhorar a competitividade da indústria, porque os custos da burocracia, da carga tributária e da logística fazem o setor não ter preço competitivo com países como a China. “A produção anual de aço do Brasil equivale a 11 dias da produção chinesa”, comparou. Ele citou, inclusive um dado que vem sendo citado pelos exportadores de que R$ 1,2 trilhão a R$ 1,5 trilhão é o peso anual do Custo Brasil.

Em um comparativo com outros países apresentado por Faraco, a produção per capita de produtos siderúrgicos brasileira foi de 99,4 quilos por habitante no ano passado e deverá ficar em 97,7 quilos, neste ano. Enquanto isso, a China produz 632,9 quilos por habitante.

O executivo ainda disse que apresentar um balanço do setor de defender avanço da agenda de projetos do Programa de Parceira de Investimentos (PPI) para ajudar a alavancar a produção local e melhorar o uso da capacidade instalada. Além disso, vai reforçar que a indústria não apoia o acordo comercial entre Mercosul e Coreia do Sul, que, junto com a China é um país com excesso de capacidade de produção e são alvos de processos de concorrência desleal. “O governo insiste nesse acordo que não tem apoio da indústria como um todo, porque não vemos ganho nesse acordo e é sintomático China e Coreia receberem o maior número de processos antidumping”, afirmou Marco Polo.

Apesar da retomada da produção em 2020 para os patamares pré-crise e da perspectiva de crescimento em 2021, em torno de 5,3%, o executivo reconheceu que existem sinais de desaquecimento no quarto trimestre em meio ao aumento dos casos de contágio de covid-19 pelo país. “A gente está vendo sinais de piora em diferentes regiões, mas estamos setorialmente preparados”, afirmou. Para Marco Polo e Faraco, os níveis de paralisação não deverão ser os mesmos de abril, no auge da pandemia. “É um sinal de alerta, e, de alguma forma, pode afetar algum setor pela nossa cadeia”, destacou.

Além de reivindicar ao presidente medidas de isonomia de tratamento entre o produto nacional e o importado, Marco Polo também destacou que, na exportação, é preciso que a indústria tenha pelo menos ressarcimento de seus resíduos tributários (Reintegra), que hoje está em 0,1%, mas já foi de 3%.

 

Receptividade

Após o encontro com Bolsonaro, Marco Polo contou ao Correio que a reunião foi bastante positiva. Segundo ele, o presidente e os ministros foram receptivos às demandas do setor. "A gente sabe como funciona. A negativa sempre vem na hora. Mas o que houve foi a percepção de que o que estávamos falando é extremamente coerente com a agenda de produtividade e de retomada do crescimento que o governo defende. Por isso, acho que as propostas foram bem recebidas", afirmou o executivo, pouco antes de embarcar com destino ao Rio de Janeiro. 

De acordo com ele, o clima da conversa também foi descontraído, principalmente, entre Guedes, Bolsonaro e o ministro-chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto. "Não vi sinais de atritos. Eles mostraram total sintonia", afirmou.  Ele contou que, durante a conversa, os representantes do setor industrial elogiaram as medidas econômicas adotadas pelo governo no combate à pandemia. "Reconhecemos o esforço que foi importante para que o setor tivesse essa recuperação fantástica que mostramos nos dados e abordamos o item do abastecimento, falando também do mercado internacional com excesso de capacidade", destacou.

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