Brasil S/A

Antonio Machado
postado em 28/11/2020 23:41

EUA voltam ao mundo

O besteirol encenado diariamente pelo presidente Jair Bolsonaro e o tipo “perdido no espaço” do ministro da Economia, Paulo Guedes, atores da versão tropicalizada da comédia estrelada pelo misto de farsante com ditador de opereta Donald Trump, ficaram miseravelmente démodé com a entrada em cena de Joe Biden e Janet Yellen, a experiente economista indicada para tentar demolir no Tesouro o darwinismo liberal que levou ao impasse o poderio econômico dos EUA e depauperou sua classe média.

Não se discute que a economia e a política externa vão mudar muito com Biden em relação à condução caótica de Trump, ou ele não teria sido um dos raros presidentes dos EUA a não conseguir a reeleição.

Esse é um dado precificado e deverá ter repercussão mundial. Com Biden, o multilateralismo será reforçado nas negociações globais. O meio ambiente voltará a ser tratado no âmbito do Acordo de Paris, do qual Trump tirara os EUA, e com papel decisivo na transformação industrial e tecnológica que o presidente eleito quer priorizar.

A Organização Mundial do Comércio, que Trump também boicotou, será outra peça-chave da nova estratégia econômica dos EUA. Deverá ser o primeiro ponto de encontro entre Biden e o presidente da China, Xi Jinping, que tem se colocado como arauto do livre comércio.

Não implica ignorar o pouco progresso na China, desde sua adesão à OMC em 2001, no sentido de abandonar práticas mercantilistas (que seguem mais ou menos disfarçadas), permitir a liberdade sindical e respeitar os acordos de propriedade intelectual. Mas, depois que o governo chinês aderiu ao tratado comercial com Japão, Coreia do Sul e mais 12 países da Ásia e Pacífico, os EUA, assim como Europa e Brasil, não podem fechar a porta para o maior importador de grãos, proteínas e minérios do mundo, além de maior produtor industrial.

Anunciados por Biden na campanha, tais movimentos deverão induzir o realinhamento de governos submissos à política de Trump hostil à China, simbolizada pelo cerco à Huawei, fornecedora de equipamentos para redes 5G, sob a suspeita de que sua tecnologia escancara aos chineses o acesso a informações. Mas, está na condução da economia a marca da mudança, que não poderá ser cosmética. Se bem-sucedida, terá impacto global. Se fracassar, o século será ditado pela China.

Origens da polarização

A ruptura relevante esperada do governo Biden em relação a Trump será uma política econômica menos simpática a Wall Street e mais favorável à classe média endividada e com baixa mobilidade social. Sua insatisfação está na raiz da polarização dos EUA, que levou à eleição de Trump em 2016 com retórica nacionalista e populista.

Os democratas voltam depois dos dois mandatos de Barack Obama por Trump ter sido mais boquirroto e deletério que pagador de promessa — e isso significa que pioraram os fatores de desagregação social nos EUA, puxados pela brutal concentração de renda e pela liderança tecnológica e a produtividade do emprego cadentes há vários anos.

Biden é antítese de Trump — da polidez no trato com adversários no plano doméstico e no cenário internacional à sensibilidade para questões sociais e culturais. Situa-se ao centro do Partido Democrata, mas com habilidade para transitar da esquerda à direita partidária e negociar acordos com os rivais republicanos.

A ver se tais credenciais lhe bastarão para segurar o apoio da esquerda democrata e atrair a simpatia do populismo conservador dos republicanos, especialmente se não tiver maioria no Senado.

Especialista em emprego

As qualificações de Yellen, 74 anos, também impressionam. A imagem de vovó de filme da Disney desarma oponentes, mas já lhe basta sua sólida formação acadêmica em Yale e Brown e vasta cancha executiva. Ela presidiu o Federal Reserve no governo Obama, sucedendo a Ben Bernanke, e chefiou a assessoria econômica da gestão Bill Clinton.

É considerada a pessoa certa no lugar e tempo certos, como escreveu no Twitter a senadora democrata Elizabeth Warren, da ala esquerda do partido. Dois aspectos a distinguem. Ao dirigir o Fed, afrontou os profetas do apocalipse (comuns no Brasil) ao discordar de que os juros baixos despertariam a inflação. E sempre se dedicou a estudar o emprego. Com o marido George Akerlof, Nobel de Economia, escreveu estudo segundo qual trabalhadores mal pagos são menos produtivos.

Desafio é o investimento

Janet Yellen, como diz o Nobel de Economia de 2008 Paul Krugman, é firme tecnicamente e prudente, como aprecia o mercado financeiro. A questão é se terá apoio de Biden, do Congresso e das empresas para fazer o que requer uma economia que perdeu indústrias para o mundo emergente, sobretudo a China, depois dos governos Reagan e Clinton, tirou a tecnologia do foco com Trump e dificulta desde os anos 1970 a mobilidade social, espírito do “sonho americano”.

Não lhe será difícil obter consenso bipartidário para outra dose de gastos fiscais a fim de manter girando a roda da economia. Seus termos já estão encaminhados pela atual gestão. Incerto é se terá o entusiasmo empresarial para converter a liquidez brotada por dívida do Tesouro e laxismo monetário do Fed em projetos tangíveis e não, como tem sido, para inflar os preços de ações e ativos financeiros.

Sonho da “era dourada”

A rigor, o laxismo ou “quantitative easing” do Fed tem servido a partir de 2008, quando surgiu, mais para criar bolhas de ativos do que para levar as empresas a investir, gerar bons empregos e ousar com tecnologias disruptivas. É onde a China come nas beiradas.

Biden e Yellen podem ser moderados demais para reeditar o New Deal do pós-guerra, induzindo o que ficou conhecido como “era dourada do capitalismo”. A nova direita republicana sonha com isso. “É hora de afastarmos o reaganismo da economia”, disse Oren Cass, ideólogo dos republicanos antilibertários e crítico de Wall Street. É grande a sintonia com a agenda progressista dos democratas.

Se tais ideias prosperarem, a macroeconomia será reformada de alto a baixo, como propõe, aqui, o economista André Lara Resende. Ou não, o “anacronismo analítico”, como ele diz, segue dando as cartas e a frustração poderá gestar outro besteirol nas urnas em 2022. Então?

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