Finanças

No segundo dia de operação, Pix movimenta mais de R$ 1 bilhão

Valor médio das transações em R$ 895, segundo o BC. Para especialista, o Pix é um fator importante para a bancarização da sociedade brasileira e reforça uma tendência de queda na demanda por dinheiro físico

Principal novidade do setor financeiro brasileiro no momento, o Pix — nova ferramenta de pagamentos instantânea do Banco Central — teve seu segundo dia de operação com números ainda mais expressivos do que o primeiro: foram 1,1 milhão de operações liquidadas entre às 0h e 18h10 desta terça-feira (17).

O valor total movimentado nesse intervalo, segundo o BC, foi de R$ 1 bilhão (cerca de 28% mais do que o dia anterior, que teve R$ 777 milhões em volume). Já o valor médio das transações foi também maior do que o dia anterior: R$ 895,96, contra R$ 773,43 da segunda-feira.

Diferentemente do primeiro dia, não houve registros de instabilidades no sistema. Nas redes sociais, usuários elogiaram a novidade e destacaram a praticidade de utilizar o Pix. Em desenvolvimento há cerca de dois anos pelo Banco Central, a ferramenta foi anunciada no primeiro semestre e começou a funcionar para todos os correntistas de instituições financeiras na segunda-feira (16/11).

Agilidade

Segundo o BC, a novidade vem para tornar menos burocrático e mais ágil transferir dinheiro e realizar pagamentos. Em países, como a China, por exemplo, o dinheiro físico caiu em desuso e smartphones são as ferramentas utilizadas para o pagamento.

Para especialistas, esse tipo de migração já é uma tendência, fato que fez com que o BC se antecipasse e desenvolvesse sua própria solução de pagamentos. É o que explica Edemilson Paraná, professor especialista em finanças, tecnologia e sociologia econômica. Para ele, a implementação do Pix era previsível.

"Isso já vem ocorrendo em outros países. O maior exemplo é o da China. Com o Pix, a gente vai finalmente entrar na revolução dos pagamentos via código QR. A China já está entrando em uma nova fase, via reconhecimento facial, inclusive com discussões polêmicas sobre uso de dados", explica.

Paraná comenta a competição no mercado de pagamentos. O BC está atento ao movimento de instituições privadas que pretendem ingressar com seus próprios produtos, como é o caso do Facebook, com o WhatsApp Pagamentos.

Bigtechs

"As bigtechs querem atuar em pagamentos dessa modalidade há tempos. No início do ano, o WhatsApp Payments quase entrou no mercado brasileiro. Mas o problema desse tipo de serviço em uma empresa privada é que há uma tendência de oligopólio. Naquela época, o Banco Central já estava trabalhando no Pix e acabou segurando o Facebook para o Pix ser adotado antes", lembrou o especialista.

Ele argumenta também que a novidade é eficaz para tornar mais acessíveis transações financeiras e promove uma maior inclusão financeira – permitindo que as classes mais pobres possam utilizar-se dos sistemas de pagamento online.

"Esse tipo de solução incentiva a inclusão financeira de pessoas que não são bancarizadas ainda. China e Índia já fizeram isso, se utilizaram dessas soluções para incluir financeiramente as pessoas. O impacto pode ser significativo. Vários reformadores financeiros estão tratando dessa possibilidade de inclusão desde ao menos a revolução 3G", diz.

Mudança

Para Paraná, o modelo tradicional de transações bancárias deve morrer em breve e as instituições devem se reinventar diante das soluções de instituições de pagamentos que têm abocanhado grande parte do mercado de crédito.

"O que está acontecendo é uma reconfiguração do setor bancário. O antigo modelo de negócios dos bancos acabou, não tem mais lugar econômico ou social, para filas e processos burocráticos com taxas. Bancos precisam se reinventar e isso acabou virando um processo inevitável diante dos modelos de fintechs", avalia.

Ele afirma ainda que uma realidade sem dinheiro físico não está muito distante, mas ainda há problemas a serem solucionados, como a necessidade do acesso ao celular e internet — dificuldade encontrada entre as classes mais pobres. "Se pararmos pra pensar, grande parte do dinheiro que circula hoje no Brasil e no mundo é digital. A utilização tende a diminuir. Mas realmente, boa parte da população não é bancarizada. E a gente viu isso com a pandemia, o auxílio emergencial. O Pix deve acabar com a necessidade de sacar dinheiro, mas isso exige acesso à internet, acesso a celular", conclui.

*Estagiário sob a supervisão de Carlos Alexandre de Souza