conjuntura

Desemprego atinge 14,1 milhões de brasileiros, aponta IBGE

O número indica uma leve recomposição, mas sem efeito sobre as perdas acumuladas no ano. Na comparação do trimestre terminado em outubro com o mesmo período de 2019, a população ocupada é menor em quase 10 milhões de pessoas

Vera Batista
Natália Bosco*
postado em 30/12/2020 06:00
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A taxa de desocupação no trimestre de agosto a outubro de 2020, de 14,3%, cresceu 0,5 ponto percentual em relação ao trimestre de maio a julho (13,8%) e 2,7 pontos percentuais frente ao mesmo trimestre de 2019 (11,6%), de acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com isso, o número de pessoas desempregadas chegou a 14,1 milhões, um aumento de 7,1% em relação ao trimestre terminado em julho. O dado representa 931 mil pessoas a mais à procura de emprego no país.

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A alta no desemprego, por outro lado, é um sinal de que houve avanço no número de pessoas à procura de oportunidade (2,8%). Esse movimento de busca fez com que a população ocupada aumentasse para 84,3 milhões. “Esse cenário pode estar relacionado a uma recomposição, ao retorno das pessoas que estavam em afastamento. Neste trimestre, percebemos uma redução da população fora da força de trabalho e isso pode ter refletido no aumento de pessoas sendo absorvidas pelo mercado de trabalho e também no crescimento da procura por emprego”, explicou a analista da pesquisa Adriana Beringuy.

Apesar do aumento de trabalhadores ocupados frente ao trimestre anterior, ainda há queda na ocupação e alta na população fora da força quando a comparação é feita com o mesmo período de 2019. “Se compararmos com o mesmo trimestre do ano anterior, temos uma população ocupada que é menor em quase 10 milhões de pessoas e um aumento de 12 milhões na população fora da força. Então, esse pode ser um início de uma recomposição, mas as perdas acumuladas durante o ano ainda são muito significativas”, afirmou Adriana.

Chamou a atenção, conforme avaliou Adriana, o incremento do trabalho informal, sem carteira assinada (no setor privado e trabalhadores domésticos), sem CNPJ (empregadores e por conta própria) ou sem remuneração (auxiliam em trabalhos para a família). A taxa de informalidade chegou a 38,8% da população ocupada. O país tem 32,7 milhões de informais. No trimestre anterior, essa taxa foi de 37,4%. Já o nível da ocupação ficou em 48%, ou seja, apesar do aumento de 0,9 ponto percentual frente ao trimestre anterior (47,1%), menos da metade da população em idade para trabalhar está ocupada.

Expectativas

Para André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, “os dados do emprego estão longe de estarem bons, no entanto, indicam que pararam de piorar”. Ele apontou que a massa salarial, importante variável que determina em grande parte as condições da demanda das famílias, dá sinais que podem indicar alta, após uma queda relevante. “A taxa de desemprego pode piorar nos próximos meses, à medida em que os brasileiros que viviam do auxílio emergencial começarem a procurar emprego”, reforçou Perfeito.

A taxa de desemprego, de 14,3% em outubro, ficou um pouco abaixo das expectativas (14,6%) dos analistas da XP Investimentos e do consenso de mercado (14,7%). Na leitura geral, para os economistas, o mercado de trabalho vem apresentando uma trajetória benigna. Vários indicadores, avaliaram, reforçam uma boa recuperação dos empregos destruídos no início da pandemia. A grande fonte de incerteza quanto ao desemprego ainda é com relação à transição do fim da ajuda às famílias e às empresas em 2021 com os desafios da economia brasileira, como a agenda de reformas que pode trazer confiança, principalmente ao setor de serviços. Os analistas estimam que, com ajuste sazonal, a taxa de desemprego alcance sua maior taxa no primeiro trimestre de 2021.

O balconista Cristiano da Silva, 32 anos, morador do Paranoá (DF), perdeu o emprego no início de abril, logo que começou a pandemia da covid-19. “Em fevereiro, eu fui contratado por um supermercado, o Ultrabox, que abriu aqui (no Paranoá). Contratou muita gente, mas quando começou a pandemia, lá entre março e abril, eles demitiram muitas pessoas. Eu fui uma delas”, contou. Cristiano lembrou que, em seguida, foi contratado por uma padaria, mas só ficou no cargo por 45 dias, uma vez que o estabelecimento não tinha movimento.

Ainda sem conseguir um emprego fixo, o balconista faz bicos. “Eu faço alguns freelancers em final de semana em um ou outro restaurante, quando me chamam. Um deles fica no setor militar urbano e outro é no Paranoá mesmo, um barzinho que me chama também quando dá muito movimento”, disse. Ele destacou que viu muitas pessoas próximas ficarem desempregadas durante este ano. “Uma colega, desempregada há muito tempo, já colocou currículo em vários lugares, mas não consegue arrumar emprego.”

O estudante universitário João Gini Neto, 28, de Franca (SP), também ficou desempregado com a chegada da pandemia. Ele estagiava em uma academia que precisou reduzir a estrutura para sobreviver. “A academia praticamente quebrou. Está parada, pois saíram os alunos, e estagiários e profissionais foram dispensados”. João continua procurando uma nova oportunidade, mas, desde então, sente muitas dificuldades.

Retomada

O número de empregados sem carteira assinada, no setor privado, aumentou 9% em relação ao trimestre anterior e chegou a 9,5 milhões de pessoas. Já o contingente dos trabalhadores por conta própria sem CNPJ cresceu em 918 mil no trimestre encerrado em outubro. “Esses dois contingentes são importantes no trabalho informal. Dessa expansão da população ocupada de 2,3 milhões no total, 89% são de trabalhadores informais. Isso mostra que essa retomada da ocupação está sendo puxada pelo trabalhador informal, principalmente o trabalhador sem carteira do setor privado e o por conta própria, sem CNPJ”, ressaltou a pesquisadora Adriana Beringuy.

Ante o mesmo trimestre de 2019, houve aumentos em três categorias: empregado com carteira de trabalho assinada (3,4%); empregado sem carteira de trabalho assinada (11,1%); e empregado no setor público (4,1%). A única queda foi entre os trabalhadores domésticos (-3,2%). As demais categorias mostraram estabilidade.

O IBGE também apontou estabilidade do rendimento médio real habitual (R$ 2.529) no trimestre encerrado em outubro frente ao trimestre anterior (R$ 2.568), e alta de 5,8% no confronto com 2019 (R$ 2.391). A massa de rendimento real habitual (R$ 207,9 bilhões) ficou estável frente ao trimestre anterior e caiu 5,3% (menos R$ 11,7 bilhões) em relação ao mesmo trimestre de 2019.

* Estagiária sob a supervisão de Simone Kafruni

  • "A academia praticamente quebrou. Está parada, pois saíram os alunos, e estagiários e profissionais foram dispensados" João Gini Neto, estudante Foto: Arquivo Pessoal
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Inflação do aluguel dispara 23,14% em 2020

Indicador usado para o reajuste dos aluguéis, o Índice Geral de Preços — Mercado (IGP-M) variou 0,96% em dezembro. Embora o percentual seja inferior ao apurado em novembro, quando subiu 3,28%, o índice acumula alta de 23,14% entre janeiro e dezembro de 2020. Essa é a maior variação anual desde 2002, quando a elevação foi de 25,31%. Em dezembro de 2019, o índice havia subido 2,09% e acumulava alta de 7,30% em 12 meses. Os dados foram divulgados ontem pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Apesar de ser usado nos contratos de aluguel, o IGP-M é um indicador do atacado, de matérias-primas. “O grupo que exerceu maior pressão inflacionária no índice ao produtor por estágios de processamento, cedeu no último mês de 2020. As matérias-primas brutas caíram 0,74% em dezembro”, explicou André Braz, coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV).

Segundo o especialista, as principais contribuições para este movimento partiram das commodities: soja (11,91% para -8,93%), bovinos (7,40% para -0,58%) e milho (21,85% para -2,17%). “Os preços da soja e do milho seguem em alta em bolsas internacionais e tal movimento pode limitar a magnitude das quedas nas próximas apurações”, disse.

Outro indicador da FGV, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) subiu 1,21% em dezembro, ante 0,72% em novembro. Cinco das oito classes de despesa componentes do índice registraram acréscimo em suas taxas de variação. A principal contribuição partiu do grupo Habitação (0,23% para 2,11%), puxado, sobretudo, pela tarifa de energia, cuja taxa passou de -0,16% em novembro para 8,59% em dezembro.

Também tiveram alta os grupos Educação, Leitura e Recreação (1,44% para 2,63%), Alimentação (1,61% para 1,72%), Despesas Diversas (-0,04% para 0,28%) e Comunicação (0,09% para 0,10%). Destaque para o aumento da passagem aérea (de 11,70% em novembro para 14,62% em dezembro, frutas (-0,64% para 4,59%), alimentos para animais domésticos (-1,44% para 1,76%) e mensalidade para tevê por assinatura (-0,08% para 0,86%).

O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) variou 0,88% em dezembro, ante 1,29% no mês anterior, com destaque para Materiais e Equipamentos (2,85% para 2,08%), Serviços (0,73% para 0,38%) e Mão de Obra (0,24% para 0,06%).

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