CONJUNTURA

Inflação avança e é a maior dos últimos quatro anos

IPCA tem alta de 1,35% em dezembro e termina 2020 em 4,52%, acima do centro da meta definida pelo governo. Elevação do preço dos alimentos puxa o índice e penaliza os mais pobres. Analistas já veem aumento de juros no horizonte

Rosana Hessel
Jailson R. Sena*
postado em 13/01/2021 06:00 / atualizado em 13/01/2021 11:36
 (crédito: Kleber Sales/CB/D.A Press)
(crédito: Kleber Sales/CB/D.A Press)

A inflação, que parecia comportada no começo de 2020, e chegou a ficar negativa no auge da pandemia de covid-19, acabou encerrando o ano surpreendendo o mercado e sinalizando que não deve dar trégua em 2021. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação, acelerou de 0,89%, em novembro, para 1,35%, em dezembro, a maior taxa para o mês desde 2002, puxado pela alta dos preços dos alimentos e da energia elétrica.

No acumulado do ano, o IPCA subiu 4,52%, maior patamar desde 2016, quando marcou 6,29%. A taxa anual ficou acima do centro da meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para o ano, de 4%, mas abaixo do teto, de 5,5%. O dado ainda superou a mediana das estimativas apontadas no boletim Focus, do Banco Central, de 4,3%.

O vilão de 2020 foi o óleo de soja, cujo preço mais do que dobrou no ano passado (103,79%). O arroz, ficou na vice-liderança, com alta de 76,01%. A influência dos alimentos na alta da inflação — o grupo alimentos e bebidas avançou 14,09% no ano passado — penalizou com mais força os mais pobres. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que mede o custo de vida das famílias com renda mensal de até cinco salários mínimos, acumulou alta de 5,45% em 2020, conforme os dados do IBGE.

Com a comida mais cara, consumidores têm mudado os hábitos de consumo para não estourar o orçamento doméstico. Moradora de Luziânia, a camareira Valquíria Moreira, 42 anos, contou que faz pesquisa antes de ir ao supermercado. “Tudo está muito caro e sempre temos que fazer economia, procurando as melhores opções, como buscar lugares e marcas mais baratas”, disse. O cozinheiro Gean Souza, 28, que estava desempregado até dezembro, também faz malabarismos para conseguir pagar as contas e a prestação da casa própria. “Tive que economizar no supermercado para conseguir pagar as prioridades, que são água, luz e internet. As demais serão renegociadas para serem quitadas.”

Entre as 16 capitais pesquisadas pelo IBGE, Brasília foi a que teve a menor variação do IPCA em 2020, de 3,40%. Campo Grande registrou a maior alta, 6,85%.

Juros
Diante da pressão inflacionária, analistas reforçam as apostas de que o Banco Central poderá começar a elevar a taxa básica de juros (Selic) ainda na primeira metade deste ano. Um dos motivos é o fato de o IPCA ter apresentado aumento na dispersão em dezembro, passando de 68% para 72%, o que significa que a alta de preços foi generalizada. No acumulado do ano, apenas vestuário apresentou queda, de 1,13%.

“O dado de dezembro veio um pouco acima do que esperávamos. Para este ano, mantemos a previsão de alta de 3,8% do IPCA, mas acredito que muitos analistas devem revisar as projeções. O câmbio ainda vai estar elevado e os preços de commodities, também, devido ao crescimento chinês e à desvalorização do dólar lá fora. Há diversos preços represados de 2020 que devem subir neste ano, basta lembrar os planos de saúde”, alertou Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. “Acho que o resultado de hoje só reforça o BC ter que subir Selic na metade do ano.”

O diretor de Política Monetária do Banco Central, Bruno Serra, admitiu que a Selic deve voltar a subir em 2021, saindo da mínima histórica de 2% ao ano. Porém, disse que esse debate só deve ganhar força depois que o cenário político indicar qual será o rumo da política fiscal brasileira. “A taxa de juros estrutural da economia brasileira não é 2%. Não é a taxa em que o Brasil vai conviver em situações normais. É o nível que o Banco Central precisou colocar para perseguir a meta de inflação em um ambiente bastante atípico”, afirmou, em live com o mercado financeiro.

André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), disse que as pressões inflacionárias persistem em 2021. “A energia pesou bastante no IPCA, mas, como estamos em um ano em que as chuvas devem ser menores, devido ao efeito La Niña, há riscos de novos reajustes ao longo de 2021 e até mesmo queda no nível dos reservatórios”, alertou. Pelas contas de Braz, os planos de saúde devem sofrer um reajuste médio de 20% este ano, o que também vai pesar no custo de vida. “Não vejo condições para o IPCA ficar abaixo de 3,75%. Em um cenário pior, com atrasos na vacinação e ruídos na comunicação do governo e com piora na trajetória da dívida pública, é provável que o indicador suba 4,5%”, apostou. (Colaborou Marina Barbosa)

*Estagiário sob supervisão de Odail Figueiredo

Mais pessoas devem pagar IR em 2021
A alta de 5,52% do IPCA no ano passado aumentou para 113,09% a defasagem da tabela do Imposto de Renda em relação à inflação nos últimos 24 anos, segundo o Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Sindifisco). Isso significa que mais pessoas devem pagar imposto em 2021. De acordo com a entidade, se a tabela fosse atualizada pela inflação do período, rendimentos de até R$ 4.022,89 ficariam isentos do IR. Hoje, os contribuintes com renda tributável superior a R$ 1.903,98 pagam o tributo. Desde 1996, a inflação subiu 346,69%, mas as correções da tabela do IRPF ficaram em 109,63%.

Mínimo fica sem aumento real

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acumulou alta de 5,45% em 2020, conforme dados divulgados, ontem, pelo Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE). Com isso, o salário mínimo de 2021, fixado pelo governo em R$ 1.100, teve correção abaixo da inflação. Se o INPC fosse aplicado integralmente, o piso salarial deveria ficar em R$ 1.102.

Este é o segundo ano em que o salário mínimo não tem reajuste real, ou seja, acima do custo de vida. A regra anterior, que corrigia o piso pelo INPC mais a variação do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes, não foi prorrogada e expirou em 2018. Com isso, seguindo a Constituição, o governo precisa, pelo menos, manter o valor de compra do salário mínimo, que significa corrigi-lo pela inflação. Procurado, o Ministério da Economia ainda não confirmou se vai atualizar o valor do mínimo.

Em janeiro de 2020, devido ao fato de o INPC encerrar o ano acima das projeções, a equipe econômica precisou reajustar o piso de R$ 1.039 para R$ 1.045 via medida provisória. No fim do ano passado, corrigiu o mínimo em 5,26% para 2021, “arredondando para cima” a estimativa de 5,22%.

De acordo com dados do Ministério da Economia, a cada real a mais de reajuste no salário mínimo, as despesas do governo federal com a Previdência Social sofrem um impacto de R$ 351,1 milhões no Orçamento de 2021. Logo, a correção de R$ 2 a mais sobre o novo piso implicaria em mais R$ 702,2 milhões de gastos em um Orçamento bastante limitado.

Na avaliação da economista Juliana Damasceno, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o reajuste do mínimo será mais um problema para o governo administrar na gestão do Orçamento de 2021, que ainda não foi aprovado pelo Congresso. Mesmo com o valor atual de R$ 1.100, já existia um gasto adicional de R$ 4,2 bilhões previsto na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). (RH)

Aposentadorias sobem 5,45%
Os aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que ganham mais do que um salário mínimo terão reajuste de 5,45% nos benefícios deste mês. No ano passado, o reajuste tinha sido de 4,48%. Assim, o teto do INSS deve subir de R$ 6.101,06 para R$ 6.433,57. A correção corresponde à variação do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), divulgado ontem pelo IBGE, conforme estabelecido na Lei nº 8.213. Quem começou a receber a aposentadoria ou pensão a partir de fevereiro de 2020 terá aumento proporcional ao período.

Governo vai antecipar 13º a aposentados

No intuito de estimular a atividade e compensar o fim do auxílio emergencial, que injetou R$ 254 bilhões na economia e atendeu 67,9 milhões de pessoas, o governo vai adiantar o 13º salário dos beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A intenção é também adiantar o abono salarial (uma espécie de 14° salário para trabalhadores que ganham até dois salários mínimos).

Segundo analistas, medida, antecipada pela Folha de S.Paulo, pode ser considerada como um plano de contingência para aquecer a economia. Essa “carta na manga” já estava no radar do ministro da Economia, Paulo Guedes, para enfrentar uma possível necessidade de retorno mais rigoroso ao distanciamento social e um repique da contaminação pela covid-19 — que já vem ocorrendo nos últimos meses, com a doença já tendo provocado mais de 203 mil mortes e 8,1 milhões de contaminados.

No final de 2020, Guedes indicou o que o governo pretendia fazer após o fim do auxílio emergencial. “Temos a capacidade de antecipar benefícios, diferir arrecadação de impostos, já fizemos isso neste ano”, disse, durante audiência pública no Congresso, ao garantir que essas ações vão respeitar o teto de gastos, regra que limita o avanço das despesas à inflação do ano anterior.

À época, fontes da equipe econômica, ao contrário, disseram que não estavam previstos diferimentos de tributos (postergação do pagamento) porque a Receita Federal está começando a recuperar agora a base de arrecadação. A Secretaria Especial de Previdência e Trabalho informou que “não comenta sobre estudos em andamento”. E o INSS respondeu que “tal decisão depende de decreto presidencial”.

Aquecimento
Nos cálculos de Fábio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o impacto das antecipações será de, pelo menos, R$ 37 bilhões. Cerca de R$ 20 bilhões da primeira parcela do 13º salário para aposentados e pensionistas, mais R$ 17 bilhões do abono salarial. “Isso significa mais ou menos 15% do total pago pelo auxílio emergencial. A grande preocupação é com os impactos lá na frente”, destacou.

Segundo ele, a medida vai “suavizar” a retirada do auxílio. “Mas a atividade tem que avançar para compensar esse gasto, tendo em vista que a inflação para 2021 já deu sinais de que vai continuar forte, e que os juros podem subir. Assim, o programa de imunização da população contra a covid-19 tem que estar a pleno vapor até agosto. De outra forma, é preocupante”, disse. Para a população, esse dinheiro novo vai dar “um reforço interessante no orçamento”, afirmou Bentes.

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