CONJUNTURA

Só vacina e reformas podem reverter retração na indústria, avaliam especialistas

Dados apontam a pior retração desde 2016. Apesar de ter havido oito meses de recuperação, não foram suficientes para reverter a paralisia provocada pela pandemia. Segundo especialistas, situação só se reverterá com vacinação e reformas estruturais

Marina Barbosa
postado em 03/02/2021 06:00
 (crédito: Mercedes-Benz/Divulgação)
(crédito: Mercedes-Benz/Divulgação)

A indústria brasileira fechou 2020 no vermelho, mesmo tendo registrado oito meses consecutivos de recuperação, após o impacto sofrido no início da pandemia de covid-19. Dados divulgados, ontem, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, no acumulado do ano, a produção industrial encolheu 4,5%. O tombo é o pior desde 2016 e, segundo especialistas, só será revertido com o avanço da vacinação contra o novo coronavírus e das reformas estruturais.

Segundo o IBGE, a retração entre março e abril de 2020 foi de 27,01%, pois muitas fábricas suspenderam a produção no início da pandemia –– outras continuaram produzindo com extrema dificuldade. Uma dos exemplos mais contundentes dos problemas enfrentados pela indústria brasileira em 2020 foi o encerramento, depois de um século, das atividades da Ford no país, no começo de janeiro, com a desativação das fábricas na Bahia e em São Paulo. Mas, em meados de dezembro passado, a Mercedes-Benz fechara sua fábrica de sedans em Iracemápolis (SP).

Mesmo assim, o setor vinha se recuperando de forma constante, impulsionado pela retomada da economia e do consumo, favorecido por estímulos como o auxílio emergencial. Também contribuíram para os bons ventos a mudança de hábitos provocada pelo isolamento social –– afinal, em casa, as pessoas trocaram serviços por bens industriais como alimentos, equipamentos de informática e materiais de construção.

Ao todo, o setor registrou oito meses consecutivos de crescimento. Por isso, avançou 41,8% entre maio e dezembro do ano passado, revertendo as perdas sofridas na pandemia e alcançando um patamar 3,4% superior ao do período anterior à disseminação do novo coronavírus. A recuperação foi mais forte do que o esperado, tanto que muitas indústrias vêm relatando falta de insumos e estoques. Segundo Luana Miranda, pesquisadora da área de Economia Aplicada do Ibre, da Fundação Getulio Vargas (FGV), pode gerar uma tendência otimista para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, se for acompanhada de outras surpresas positivas de comércio e serviços, cujos resultados anuais serão divulgados na próxima semana pelo IBGE.

Queda generalizada

“A recuperação da economia como um todo depende da normalização da atividade e da pandemia. Ou seja, do andamento do processo da vacinação”, apontou Luana Miranda

O avanço, contudo, não foi suficiente para tirar a indústria no vermelho em 2020. A queda foi generalizada em todos os setores industriais e representa o segundo ano consecutivo de retração, pois, em 2019, já havia encolhido 1,1%. “Houve uma recuperação importante ao longo de 2020. Porém, ainda há um campo importante a ser recuperado”, avaliou o gerente da Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do IBGE, André Macedo, contando que o setor ainda está 13,2% abaixo do seu nível recorde, alcançado em maio de 2011.

O gerente-executivo de economia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Renato da Fonseca, explicou que, depois do choque da pandemia, o setor voltou a enfrentar os mesmos desafios que vinham limitando o crescimento econômico do país antes da covid-19 –– como a falta de produtividade, a alta carga tributária e o desemprego elevado. “A indústria e a economia brasileira já não conseguiam manter um ritmo forte de crescimento pré-pandemia por conta disso. E, agora, volta ao ritmo de antes”, explicou Fonseca.

Para mudar esse quadro e acelerar a produção industrial, o gerente da CNI aponta que o país está diante da necessidade de avançar nas reformas econômicas, que podem atacar esses problemas. E lembra que, também, é preciso afastar o risco de novas medidas de isolamento social para garantir a continuidade da recuperação.

Recorde na abertura de empresas

O ano de 2020 teve recorde de abertura de empresas, com o registro de 3.359.750 novos empreendimentos. De acordo com o Mapa de Empresas –– boletim divulgado ontem pelo Ministério da Economia ––, houve um aumento de 6% em relação ao ano de 2019. Apenas entre agosto e dezembro, foram abertas 1,18 milhão de firmas, um aumento de 5,7% em relação ao segundo quadrimestre de 2020. Em comparação com 2019, a diferença positiva foi de 15,5%.

O estado que apresentou maior crescimento foi o Amazonas, com variação positiva de 23,9% em relação ao ano anterior. A Bahia foi a unidade da Federação com pior resultado: apenas 0,7% de aumento.

Já as empresas que fecharam as portas totalizaram 1 milhão — resultado 11,3% menor do que em 2019, mesmo com a chegada da pandemia, de acordo com os dados da pasta. Com isso, o saldo do ano foi positivo, totalizando 2,3 milhões de empresas. No fim de 2020, segundo o ministério, havia 19.907.733 empresas ativas, mas esse número subiu já em janeiro de 2021, quando o total chegou a 20.084.040.

Desburocratização

Para a Economia, o recorde é um reflexo direto dos esforços pela desburocratização. Foi o que afirmou Luís Felipe Monteiro, secretário de Governo Digital, em entrevista coletiva. “Tivemos um resultado muito positivo em 2020. Esse saldo, na nossa avaliação, é baseado em fatores econômicos e também em aspectos de redução das exigências”, detalhou.

Mas, com as demissões em alta, muitos trabalhadores buscam conseguir renda de forma autônoma, sendo necessário fazer registro como microempreendedor individual (MEI) para atuar dentro da lei. Essa categoria liderou os registros de 2020, com um aumento de 8,4% em relação ao ano anterior. Do total de empresas abertas contabilizadas pelo Ministério da Economia, cerca de 2,6 milhões são MEI. Foi o que explicou Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos.

“Por causa da crise, a alta nos registros já era esperada. Existem empresas que estão fechando e o dono está se cadastrando como MEI para atuar de forma individual”, afirmou.

Para ela, a desburocratização não é o principal fator para o elevado registro de novas empresas. “Eu gostaria que isso fosse verdade, mas não é. Há pessoas abrindo a garagem e transformando-a num bar ou barbearia. Esse movimento é fruto da necessidade de sobreviver”, salientou.

* Estagiário sob a supervisão de Fabio Grecchi

Venda de veículos cai 11,5% em janeiro

 (crédito: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press - 5/6/14 )
crédito: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press - 5/6/14

As vendas de veículos novos no Brasil interromperam a sequência positiva engatada após o choque da pandemia e fecharam janeiro marcando queda de 11,5% na comparação com o mesmo mês de 2020. No total, 171,2 mil unidades, entre carros de passeio, utilitários leves, caminhões e ônibus, foram emplacadas no mês passado, o menor volume em sete meses. Na comparação com dezembro, que, sazonalmente, é um mês mais aquecido, a queda foi ainda maior: de 29,9%.

Os números foram divulgados, ontem, pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), que representa as concessionárias de automóveis e retratam o primeiro mês sem a produção de carros pela Ford, que anunciou, em 11 de janeiro, o fechamento da fábrica de Camaçari (BA), onde montava os modelos Ka e EcoSport, e da a unidade que produzia motores e transmissões em Taubaté, no interior de São Paulo.

A montadora americana, que, durante a maior parte de sua centenária história no Brasil, esteve entre as quatro marcas mais vendidas do país, terminou janeiro na oitava colocação, com 5% do mercado. A liderança no primeiro mês do ano ficou com a Fiat, responsável por 19% das vendas totais, seguida por General Motors (16,37%), Volkswagen (16,35%) e Hyundai (9,1%).

Além do fim da produção da Ford, a oferta de modelos nas revendas seguiu prejudicada por interrupções de produção de algumas linhas de montagem em razão da insuficiência de peças. “Já vínhamos acompanhando as dificuldades que as montadoras, de forma geral, estão enfrentando com relação ao fornecimento de peças e componentes. Esse gargalo se intensificou em janeiro, diminuindo ainda mais a oferta de produtos”, comentou, em nota, o presidente da Fenabrave, Alarico Assumpção Júnior. Ele também atribui o resultado negativo à segunda onda da pandemia, que levou ao endurecimento das medidas de restrição, e ao aumento das alíquotas de ICMS em São Paulo, o maior mercado nacional.

O volume do mês passado é o menor desde junho, quando os emplacamentos somaram 132,8 mil veículos. O desempenho também dá fim a uma sucessão de resultados mensais positivos –– no comparativo mês contra mês anterior –– iniciada em maio. No período, o mercado, após sair da mínima inferior a 60 mil veículos de abril, alcançou 244 mil unidades em dezembro.

“O principal fator que abalou e influenciou uma queda acentuada foi a majoração do ICMS pelo governo do estado de São Paulo. Em seguida, vemos uma segunda onda da covid-19 que, eu acredito, seja em virtude de aglomerações feitas nas festas de final de ano. Isso abala muito a economia. Com o aumento dos casos, atitudes precisam ser tomadas para evitar a proliferação da doença e, então, temos o fechamento de fábricas e concessionárias”, ressaltou Alarico, acrescentando que “janeiro é um mês de expectativa baixa para vendas nesse setor, pois o consumidor tem outros gastos nesse período, como IPVA, IPTU, matrícula dos filhos, material escolar, entre outros compromissos”. (Colaborou Carinne Souza)

 

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