Entrevista

"Volta de Lula traz o medo de populismo do governo", diz Solange Srour

Economista-chefe do Banco Credit Suisse aponta que a desconfiança em torno do governo exige respostas rápidas, como a aprovação de reformas, sobretudo as administrativas e tributárias. Brasil do pós-pandemia será mais endividado, mais pobre, com maior desigualdade de renda

Vicente Nunes
postado em 14/03/2021 06:00
 (crédito: Marcelo Ferreira/CB)
(crédito: Marcelo Ferreira/CB)

Uma das vozes mais respeitadas no mundo econômico, Solange Srour afirma que o governo precisa dar respostas urgentes para afastar a desconfiança que hoje impera em relação ao país. Isso passa pela aprovação de reformas como a administrativa e a tributária e por um ajuste fiscal consistente. Economista-chefe do Banco Credit Suisse, ela relata o aumento do temor dos donos do dinheiro com a entrada do ex-presidente Lula no jogo eleitoral. O risco é de o presidente Jair Bolsonaro sofrer uma recaída populista e prejudicar ainda mais as contas públicas para garantir votos nas eleições de 2022. “A volta do Lula ao jogo político trouxe para o mercado a polarização da eleição, o que traz impactos para economia. A todo momento, iremos questionar o risco de o atual governo virar populista no caso de uma oposição fortemente contrária à política econômica atual”, frisa.

Para ela, os ruídos políticos tendem a agravar um quadro assustador vivido pelo país, que conjuga inflação alta e recessão econômica, a estagflação. Por isso, recomenda que o Banco Central aja com rigor para conter os aumentos de preços, hoje muito pressionados pela disparada do dólar. Ela acredita que, nesta semana, o BC aumentará a taxa básica de juros em 0,50 ponto percentual, de 2% para 2,50%, num movimento para reverter os ruídos que estão empurrando a moeda norte-americana para cima. Mas só isso não resolverá os problemas. “Com a inflação em alta, se tivermos só aperto monetário sem âncora fiscal, o câmbio seguirá depreciado, pois entraremos na discussão de dominância fiscal. Dito de outra forma, a PEC Emergencial aprovada (pelo Congresso) não substitui a alta de juros”

Solange projeta crescimento de 3,7% para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, mas ressalta que o viés é de baixa. Para que o crescimento da economia se sustente, é preciso que haja, rapidamente, um processo de vacinação em massa. “O mais importante para o PIB deste ano é que a vacinação avance com mais força. Acho que isso ocorrerá a partir de maio, junho e julho. Então, espero que, no segundo semestre, a atividade possa ser retomada com mais força, sem o risco de fechamento da economia”, destaca.
Mas, mesmo que todos os esforços sejam empreendidos no sentido de conter a disseminação do novo coronavírus, que já fez quase 280 mil vítimas no país, o Brasil pós-pandemia terá de lidar com problemas dramáticos. “O cenário do Brasil pós-pandemia será de um país mais endividado, mais pobre, com maior desigualdade de renda. Por isso, precisamos fazer reformas acima de tudo. A nossa situação pós-covid será bem diferente dos países desenvolvidos, que estão saindo com força total”, diz. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Correio.

Desconfiança de investidores

O questionamento que o Brasil está fazendo — no final da primeira e começo da segunda onda (da covid) — sobre a âncora fiscal e a possibilidade de convivermos sem regras fiscais por mais tempo, devido à pandemia, trouxe desconfiança não só sobre a solvência fiscal, mas também sobre a nossa capacidade de crescimento e controle da inflação. O Brasil gastou muito no ano passado para combater a covid, quase 8% do PIB. A dívida em relação ao PIB do Brasil, atualmente, é de quase 15 pontos percentuais maior do que no início da pandemia, e a pauta discutida recentemente englobava a possibilidade de não cumprir o teto de gastos este ano, estender o auxílio para além dos próximos quatro meses, retirar o Bolsa Família do teto, aumentar ainda mais a dívida frente ao PIB. Essas iniciativas ultrapassam o combate ao vírus e seus impactos macroeconômicos. A eterna discussão de usar a política fiscal para enfrentar todas as mazelas do país impede que o Brasil cresça, e isso gera desconfiança. Não é esse tipo de política pública que contribui para o nosso crescimento.

Reformar é essencial

O que vai ajudar o Brasil a se desenvolver são reformas que tenham como objetivo a melhoria da produtividade, a abertura da economia, a diminuição da insegurança jurídica. A desconfiança atual vem do fato de o país querer usar a política fiscal para algo que foge da sua finalidade. Ela deve ser contracíclica. Quando a atividade recebe um choque negativo, usa-se a política fiscal para amenizar, mas ela não deve ser vista como a solução da falta de crescimento estrutural. Para reverter essa situação, é preciso avançar não somente em pautas que solidificarão nossos fundamentos fiscais, como, por exemplo, a reforma administrativa, que completaria o rol de reformas fiscais importantes, junto com a da Previdência. Para mudar isso, é preciso investir também nos temas que sempre discutimos, de abertura da economia, ambiente de negócios, privatização, melhoria do marco regulatório, reforma tributária (que melhora a eficiência da economia). É isso que o governo pode fazer.

Risco de recessão

O PIB no ano passado caiu 4,1%, mas menos do que o esperado. Fala-se em recessão no primeiro e no segundo trimestre em 2021, por conta do impacto da segunda onda da covid-19 e das medidas restritivas, que não só levam à paralisação da atividade, mas também minam a confiança. As condições financeiras do Brasil estão apertadas: alta do juro longo e taxa de câmbio extremamente depreciado por conta da desconfiança fiscal. Há, sim, risco de o país entrar numa recessão técnica, mas ainda não é meu cenário base, que vai depender muito do segundo trimestre sem projeção de número negativo. Vou aguardar, ainda, para ver as medidas de restrição de mobilidade. A estimativa de crescimento do Credit Suisse para esse ano é de 3,7%, com viés de baixa, pois será preciso incorporar as medidas anunciadas diariamente em todo o país para frear o contágio no novo coronavírus. O mais importante para o PIB deste ano é que a vacinação avance com mais força. Acho que isso ocorrerá a partir de maio, junho e julho. Então, espero que, no segundo semestre, a atividade possa ser retomada com mais força, sem o risco de fechamento da economia. Isso será muito positivo, mas ainda teremos que atravessar um primeiro semestre mais desafiador em termos de atividade, e nessa travessia podem surgir mais dúvidas fiscais. Por isso, é preciso ter bastante prudência para caminhar nessa recessão sem gerar mais questionamentos, falta de credibilidade e compressão das condições financeiras.

Vacina e PIB

O Brasil começou atrasado em relação aos países desenvolvidos, mas nem tanto se comparado aos países emergentes. Se houvesse mais vacina, o ritmo de imunização seria mais alto, pois o país tem uma rede de distribuição boa, principalmente pela dimensão ampla da saúde pública. Então, se tivéssemos a quantidade de vacina que a Europa tem, conseguiríamos distribuir melhor do que o continente europeu. O problema foi ter começado o ano com pouca vacina e insumo para produção. Mas a nossa expectativa é de melhora do cenário em junho/julho, pois, a partir deste período, pelo menos a população acima de 65 anos já estará imunizada, o que vai facilitar a abertura da economia. Ainda dá tempo de virar o jogo, pois haverá produção da vacina e do insumo em território nacional, e isso vai proporcionar uma abertura no segundo semestre muito mais segura.

Ameaça da inflação

A inflação realmente está alta pelo choque de oferta com alta das commodities e pela depreciação do câmbio — neste caso, temos a visão de que em parte é causada pela incerteza fiscal. Mas, outro fator que influencia a desvalorização do real ocorre pelo diferencial de juros no Brasil extremamente baixo. A taxa de juros Selic de 2% não permite apreciação do câmbio, principalmente no cenário de taxas de juros longas abrindo lá fora. A expectativa do Credit Suisse é de 5,10% para o IPCA deste ano. É possível que a inflação fique acima de 5,25% (topo da meta), e o impacto disso na economia está sujeito à resposta do BC. Se a instituição responder de forma firme e mostrar vontade de controlar a inflação e as expectativas de inflação para 2022, ela não sai do controle. Mas depende do grau de credibilidade que o Banco Central terá no começo desse processo de subida de juros que será iniciado, provavelmente, nesta semana. A nossa estima é de alta de 0,50 ponto percentual e não de 0,75 ponto, como se fala, porque o BC tem feito uma comunicação bastante clara de que, a partir de agora, está de olho em 2022, e a inflação esperada pelo

Focus neste ano não está tão divergente do centro da meta. No entanto, é importante notar que as inflações implícitas estão bem acima do Focus e, em geral, o Focus está atrasado em relação ao mercado de implícitas. A expectativa do Credit Suisse para Selic esse ano está em 4,5%, mas tendemos a revê-la depois da decisão do Copom.

BC x dólar

Em relação ao dólar, realmente as intervenções do BC têm sido mais pesadas. Há dúvida se essa atuação visa conter a alta das expectativas de inflação e de juros, mas acredito que, de alguma forma, expressa a preocupação do BC sobre a depreciação do câmbio não estar sendo tão temporária como imaginado no início do ano e no fim de 2020. As intervenções podem trazer alívio temporário para a taxa de câmbio, mas não de forma estrutural. A intervenção não muda o fundamento da economia. Para o câmbio ficar menos depreciado, é preciso âncora fiscal e que esse diferencial de juros atual do Brasil seja corrigido. Na minha opinião, esses dois pontos facilitariam a apreciação do câmbio e seriam muito bem-vistos em termos de controle de inflação. Com a inflação em alta, se tivermos só aperto monetário sem âncora fiscal, o câmbio seguirá depreciado, pois entraremos na discussão de dominância fiscal. Dito de outra forma, a PEC Emergencial aprovada não substitui a alta de juros.

Intervenção na Petrobras

Quanto à mudança de política de preços do Petrobras e de outros setores regulados, não vemos indícios de que isso já esteja ocorrendo. Pelo contrário, tivemos aumentos significativos da gasolina nas últimas semanas. A avaliação sobre o direcionamento de preços no futuro depende do que vai acontecer quando o novo presidente da Petrobras assumir e qual será a política anunciada. Acredito que existe mecanismo de o governo subsidiar o preço da gasolina, mas é preciso fazer de forma clara. Melhor do que reduzir impostos sobre combustíveis e aumentar sobre outros setores é fazer o subsídio dentro do Orçamento de forma clara para a população. Reduzir tributos sobre combustíveis vai na contramão do mundo, que tem subsidiado, cada vez mais, energia verde.

Lula e o mercado

A volta do Lula ao jogo político trouxe para o mercado a polarização da eleição, o que traz impactos para economia. A todo momento, iremos questionar o risco de o atual governo virar populista no caso de uma oposição fortemente contrária à política econômica atual. As pesquisas eleitorais serão vistas com muita lupa, e isso acaba tendo algum efeito relevante para mercado, ainda que as eleições estejam longe. É muito difícil antecipar o cenário eleitoral. Não é 100% certo de que a eleição não terá uma terceira via. É preciso esperar alguns meses para avaliar o comportamento da economia, principalmente o crescimento e a inflação, que interferem muito na popularidade. O fato é que, com a volta do Lula ao cenário eleitoral, é inegável que a via da esquerda ganhou uma força relevante.

O papel do Congresso

O papel do Congresso, daqui para frente, é continuar com a pauta reformista. Depois da PEC Emergencial, a reforma administrativa poderia ser mais célere, principalmente, porque o presidente da Câmara tem demonstrado interesse em tê-la aprovada ainda no seu termo. Privatizações são relevantes, mas é difícil ocorrer em fim de mandato. Acredito que a MP da Eletrobras tem chance de ser aprovada antes do fim deste ano ou começo de 2022. Seria uma capitalização, um feito relevante para a atual administração. Quanto à reforma tributária, acho que temos chances de aprovar algo muito restrito, nada amplo, infelizmente.

Esperança no Brasil

Na minha opinião, dá para ter esperanças no Brasil, pois sabemos que a nossa história sempre foi de flertar com crises iminentes e depois recuar, com a apresentação de algum ponto da agenda de reformas. Depois da pandemia, com essa recessão enorme que estamos vivenciando, de volta da inflação, o país, provavelmente, vai precisar retomar a agenda de reformas, porque essa situação não é positiva para nenhum grupo político que esteja no poder, no Congresso, nos estados e municípios. A história do Brasil é de superação de crises, mesmo com impactos significativos na atividade e aumento da desigualdade social. Foi assim no fim do governo Dilma e início da gestão do Temer, quando se aprovou um número expressivo de reformas, não apenas o teto de gastos, mas, também, a reforma trabalhista, abertura do setor de óleo e gás, recolhimento da atuação dos bancos públicos na economia, fim de subsídios do BNDES. Há uma série de reformas que ganham relevância maior no fim da pandemia, ainda há tempo e destaco a administrativa e a tributária. Espero que o Congresso, com a liderança do Executivo, avance pelo menos parcialmente em ambas as reformas, pois, mesmo que não sejam robustas, é importante avançar nessa agenda.

O pós-pandemia

O cenário do Brasil pós-pandemia será de um país mais endividado, mais pobre, com maior desigualdade de renda. Por isso, precisamos fazer reformas acima de tudo. A nossa situação pós-covid será bem diferente dos países desenvolvidos, que estão saindo com força total, inclusive, existe um questionamento se estes vão enfrentar problemas de inflação. Diferentemente do que estamos vivendo nesse momento: estagflação. Um país nesta condição precisa avançar em reformas que promovam crescimento, controle da inflação e redesenho das políticas sociais com vistas para melhorar a desigualdade. 

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