Pandemia

Auxílio emergencial não paga nem um terço da comida básica

Na média, o novo auxílio será de R$ 250 por família. Só o desembolso com alimentos básicos, como arroz, feijão, carne e outros 25 itens que entram na composição da cesta de comida, atingiu R$ 893,56 em fevereiro

Agência Estado
postado em 20/03/2021 13:47 / atualizado em 20/03/2021 13:47
 (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
(crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
A nova rodada de auxílio emergencial, que será paga aos brasileiros vulneráveis a partir de abril, está muito distante de atender as necessidades básicas de alimentação e de consumo de itens de higiene pessoal e limpeza da casa de uma família. O quadro é crítico, especialmente na pandemia, quando cuidado com limpeza deve ser redobrado.
No mês passado, o custo da cesta básica na capital paulista para uma família de quatro pessoas ficou em R$ 1.014,63, segundo levantamento da Fundação Procon de São Paulo feito em parceria com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Houve até um pequeno recuo do valor em relação a janeiro, de 0,11%, por causa dos produtos de limpeza. Eles ficaram, em média, 3,5% mais baratos, com a queda de quase 6% no preço do sabão em pó.
Mesmo assim, o valor da cesta básica está muito mais próximo do salário mínimo, hoje em R$ 1.100, do que do novo auxílio emergencial. O novo benefício vai de R$ 150 mensais, para famílias de uma pessoa só, a R$ 375, no caso de mulheres que são as únicas provedoras da casa. Na média, o novo auxílio será de R$ 250 por família.
Só o desembolso com alimentos básicos, como arroz, feijão, carne e outros 25 itens que entram na composição da cesta de comida, atingiu R$ 893,56 em fevereiro. Foi praticamente a mesma cifra do mês anterior.
Famílias com a mulher como única provedora e que vão receber R$ 375 conseguem comprar 40% da cesta de alimentos. Isso corresponde a uma compra de supermercado bem enxuta, só com arroz, feijão, óleo de soja, alho, cebola e carne de segunda para preparar a principal refeição do dia. E um café da manhã com café, açúcar, pão com margarina, mas sem leite, alimento fundamental para mães com crianças pequenas.
Para a média das famílias que terão um benefício de R$ 250, os recursos serão suficientes apenas para bancar menos de um terço da despesa com alimentação básica - 27,97%. Isto é, essa quantia é suficiente para cobrir os gastos para compra de arroz, feijão, óleo, cebola, alho e carne de segunda para o preparo da principal refeição do dia. Mas não sobra dinheiro para os alimentos do café da manhã.

Só limpeza

As famílias que vão embolsar um auxílio de R$ 150 terão dinheiro apenas para fazer frente às despesas com as cestas de higiene pessoal (R$ 76,26) e limpeza da casa (R$ 46,81). Com o troco R$ 28,93, será possível comprar um pacote de 5 quilos de arroz (R$ 23,34) e menos de 1 quilo de feijão carioquinha (R$ 6,78).
"A situação é preocupante, é de pauperização da sociedade", afirma Marcos Pujol, diretor da Escola de Proteção e Defesa do Consumidor da Fundação Procon-SP. Ele argumenta que o quadro fica ainda mais complicado para a população manter o consumo de itens básicos, diante dos aumentos de preços da comida e também de outros itens que estão fora da cesta básica. "O aluguel está subindo e as famílias têm gastos com material escolar e outros produtos e serviços básicos que estão fora da cesta."

Pechinchas

O valor da cesta básica pesquisado pelo Procon considera os preços mais baixos de cada item em 40 supermercados da cidade de São Paulo. Na prática, esse custo acaba sendo inatingível para um consumidor, que não tem a disponibilidade de fazer esse mesmo tipo de levantamento de preço quando vai às compras.
Na opinião do diretor do Procon, a situação já era crítica para fazer frente ao custo da cesta básica quando o auxílio emergencial era de R$ 600. Agora piorou com o valor muito menor do benefício, diz, lembrando do avanço da inflação e da grande massa de trabalhadores desempregados, que não para de crescer com o agravamento da pandemia. "É uma crise nunca antes vista e o Brasil vai chegar a um colapso social."
No mês passado, a inflação oficial pesou no bolso das famílias de maior e de menor renda. Para os domicílios que recebem até 40 salários mínimos, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo subiu 0,86%, a maior alta para fevereiro desde 2016. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que mede o custo de vida das famílias com renda de até cinco salários mínimos, subiu 0,82%. Os preços dos alimentos desaceleraram em geral, mas a carne que é um item básico do prato do brasileiro, voltou a subir.
A inflação pressionada continua tirando o sono das autoridades monetárias. Tanto é que o Comitê de Política Monetária do Banco Central elevou os juros básicos esta semana em 0,75 ponto porcentual, após quase seis anos de redução, para conter o avanço de preços. Os juros básicos estavam no piso histórico de 2% desde agosto de 2020.

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