MERCADO FINANCEIRO

Bancos reforçam práticas de sustentabilidade mirando novos financiamentos

Agenda ESG tornou-se uma preocupação para as instituições financeiras, pois cresce entre os investidores a percepção de que preservação e sustentabilidade trazem alto retorno para as aplicações. Além disso, compromisso torna o mercado nacional atrativo

Marina Barbosa
postado em 05/04/2021 06:00
 (crédito: Luiz Michelini/Divulgação)
(crédito: Luiz Michelini/Divulgação)

Os consumidores brasileiros estão cada vez mais atentos ao impacto socioambiental dos negócios do país. Pesquisa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) indica que 87% deles consideram que tal compromisso é importante para a imagem e a avaliação de uma empresa. Por isso, os bancos têm reforçado as práticas de sustentabilidade.

A preocupação do mercado financeiro com a política ambiental veio à tona no ano passado, quando um grupo de investidores estrangeiros ameaçou deixar o país devido ao avanço do desmatamento na Amazônia e das parcas iniciativas do governo federal para conter as queimadas. Bradesco, Itaú e Santander, por exemplo, se uniram para lançar o Plano Amazônia, com 10 metas de desenvolvimento sustentável para a floresta.

A ideia dos bancos é levar o compromisso com a ecologia aos clientes, por meio do financiamento de projetos sustentáveis e da emissão ou investimento em títulos verdes. Por isso é que a Febraban fechou parceria com a International Finance Corporation (IFC), do Banco Mundial, para alinhar o setor aos compromissos do Acordo de Paris.

A política de autorregulação da Febraban tem a adesão de 23 bancos. “A autorregulação existe desde 2014, mas ganhou destaque nos últimos anos por conta da agenda ESG (em inglês, Environmental, Social and Governance — Ambiental, Social e Governança). Os clientes gostam de saber que o dinheiro está indo para ativos de alto impacto ambiental, sobretudo os mais jovens. O investidor e o consumidor estão exigindo empresas mais engajadas e percebem que as empresas mais comprometidas com a agenda ESG são mais lucrativas”, explicou o diretor de Sustentabilidade, Cidadania Financeira, Relações com o Consumidor e Autorregulação da Febraban, Amaury Oliva.

Ao disseminar essa preocupação com a clientela, será possível manter os ativos das empresas brasileiras atrativas aos investidores estrangeiros, que, no ano passado, demonstraram preocupação com a política ambiental do país. “O mercado entende que é preciso cuidar do meio ambiente e que as empresas que não são sustentáveis tendem a acabar uma hora. Por isso, todos sentimos esse caminho de sustentabilidade nas instituições financeiras”, afirmou o vice-presidente de Agronegócios e Governo do Banco do Brasil, João Pinto Rabelo Junior.

Quem for "limpo" terá crédito

Um dos objetivos dos bancos é ampliar a concessão dos créditos que visam o financiamento de projetos sustentáveis, que, em 2019, respondiam por 22% do mercado brasileiro. O Itaú, por exemplo, quer liberar aproximadamente R$ 100 bilhões para financiamentos de impacto positivo, até 2025. A Caixa avalia os riscos ambientais dos projetos dos clientes e pode negar o empréstimo caso a atividade do solicitante gere impacto negativo no meio ambiente, na saúde e na segurança dos trabalhadores. E o Banco do Brasil (BB) quer financiar até R$ 125 bilhões em projetos de agricultura sustentável, R$ 15 bilhões como fomento às energias renováveis e R$ 20 bilhões em ações de desenvolvimento sustentável dos estados e municípios até 2025.

O BB também se comprometeu a apoiar a emissão de até R$ 30 bilhões de títulos verdes por empresas brasileiras, e aplicar pelo menos R$ 20 bilhões em fundos verdes nos próximos cinco anos. A ideia é levar empresas de outros setores, e também os investidores do país, ao mundo dos títulos ESG, que têm atraído cada vez mais investidores no mundo. O banco ainda se prepara para emitir os próprios papéis para o setor, como fez o Bradesco — que, no ano passado, captou R$ 1,2 bilhão por meio de um título verde que financia projetos de transição para uma economia menos intensiva em carbono.

O Santander, neste ano, assumiu o compromisso de neutralizar suas emissões de carbono até 2050, e ajudar seus clientes a fazer essa transição para uma economia zero carbono. Superintendente executiva de Sustentabilidade do banco espanhol, Karine Bueno explicou que sustentabilidade e geração de negócios são temas indissociáveis hoje em dia. “É preciso reconhecer que os temas sociais e ambientais fazem parte dos negócios. E há provas concretas disso”, afirmou. Karine disse que o Santander dobrou o seu portfólio de negócios verdes no último ano, passando de R$ 14 bilhões em 2019 para R$ 27 bilhões em 2020 — cifra que o banco ainda quer ampliar neste ano. (MB)

BC empenhado nas boas práticas

O Banco Central também está atento à preocupação dos investidores estrangeiros e dos consumidores brasileiros com a política ambiental. Por isso, vem trabalhando para implementar, ainda neste ano, a Agenda BC#, que foi lançada no ano passado para estabelecer metas e ações de responsabilidade socioambiental para o setor financeiro nacional. “Iniciativas relacionadas com o conceito de finanças sustentáveis têm ocupado posição cada vez mais proeminente na agenda de bancos centrais e de reguladores financeiros, que vêm adotando medidas com o objetivo de reduzir a exposição dos agentes de mercado a riscos socioambientais e climáticos”, justificou a autoridade monetária, na primeira entrega da sua agenda de sustentabilidade: o lançamento de uma consulta pública sobre critérios de análise que devem ser adotados nas operações de crédito rural do Brasil.

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