CONJUNTURA

Energia pressiona e inflação é a mais alta de maio em 25 anos

Com forte alta das tarifas de energia elétrica, combustíveis e alimentos, o IPCA alcançou 0,83% no mês passado, marca que não se via desde 1996. Em 12 meses, carestia chega a 8,06% e fica bem acima do teto da meta para o ano todo

Vera Batista
Gabriela Chabalgoity*
postado em 10/06/2021 06:00
 (crédito: editoria de ilustração)
(crédito: editoria de ilustração)

Sob forte pressão de itens como o custo da energia elétrica, a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), atingiu 0,83% em maio, a maior alta para o mês nos últimos 25 anos. Com esse resultado, o indicador acumulou um aumento de 8,06% nos últimos 12 meses, ficando bem acima do teto da meta estabelecida pelo governo para o ano como um todo, de 5,25%.

O percentual surpreendeu o mercado, que esperava avanço de, no máximo 0,72%, em maio. Se o custo de vida não dá trégua, quem sofre mais são os mais pobres. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que mede a variação de preços de uma cesta de consumo típica de famílias com renda de até cinco salários mínimos (R$ 5,500) atingiu 8,90% no período de 12 meses encerrado em maio. Apenas no mês passado, o INPC avançou 0,96% — a maior alta desde maio de 2016.

No IPCA, que calcula o custo de vida de famílias com renda de até 40 salários mínimos (R$ 44 mil), os nove grupos de produtos e serviços pesquisados apresentaram alta em maio. A maior variação (1,78%) foi observada no grupo habitação, com destaque para as tarifas de energia elétrica, que aumentaram 5,37%. Sozinha, a alta da conta de luz foi responsável por 0,23 ponto percentual da variação do IPCA.

“Em maio, passou a vigorar a bandeira tarifária vermelha patamar 1, que acrescenta R$ 4,169 na conta de luz a cada 100 quilowatts-hora consumidos. Vale lembrar que, entre janeiro e abril, estava em vigor a bandeira amarela, cujo acréscimo é menor (R$ 1,343). Além disso, no final de abril, ocorreram reajustes em diversas regiões de abrangência do índice”, destacou o IBGE.

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Preocupação

Com o salto dos preços, alguns especialistas temem um retorno ao indesejável passado de inflação de dois dígitos. “Se continuar nesse ritmo, nos próximos três meses, estaremos chegando aos 10%, no cômputo dos 12 meses”, assinalou o economista César Bergo, sócio consultor da Corretora OpenInvest. Isso poderá acontecer, afirmou, porque a inflação, embora tenha sido puxada pela energia elétrica, em maio, também está pressionada pelo encarecimento de alimentos, transportes e combustíveis. Segundo o economista, o governo não fez o dever de casa. “Não resolveu o problema da energia elétrica e não cuidou dos estoques reguladores de alimentos. A carne subiu 38%, em 12 meses. Arroz, feijão e soja já registraram alta de mais de 50%”, listou Bergo.

Para Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, o susto ainda não foi suficiente para levar a inflação aos dois dígitos. “No entanto, a meta indicada pelo Banco Central perdeu sentido. Pelas projeções mensais do IPCA do Boletim Focus para os meses de junho a dezembro 2021, o IPCA acumulará alta de 8,30% em junho”, disse Agostini. A partir daí, na avaliação de Agostini, o indicador “entra em rota descendente até encerrar o ano ao redor de 5,68%".

O dia a dia

O dono do restaurante Le Parisien Bistrot, Leandro Amaury do Couto, 35 anos, disse que o que mais pesou, para ele, foram “as proteínas animais, que impactam diretamente no preço final dos pratos”, apontou. Ele disse que fica entre três opções. Ou ajusta rapidamente o preço para repassar para o cliente, que não fica feliz com os constantes aumentos, ou usa a criatividade em novos pratos, para manter a mesma faixa de preço, ou é engolido pela inflação e começa a perder margem a cada dia.

“A energia elétrica é um custo alto para os restaurantes e hoje, com a queda do número de consumidores, esse item está sendo um ponto crucial. Temos de conseguir enxugar ao máximo o custo de todos os lados”, disse Leandro Couto.

A alimentação é o que mais preocupa a cuidadora Cristiane dos Santos Teixeira, 35 anos. “Carne e leite, hoje, são alimentos de luxo. Como moro com meus pais, que são idosos e precisam tomar alguns remédios que não são oferecidos pelo governo, tenho mais essa despesa”, contou ela. “Tirando tudo isso, tem a energia e o gás. Todo mês, a energia vem mais cara, mesmo economizando”, desabafou.

A professora Rosana Alexandre Machado, 50 anos, lamentou as dificuldades que os brasileiros estão passando com a disparada da inflação. “Nunca vivi um aumento de preços tão grande nos combustíveis, alimentos, energia elétrica, água e material de higiene”, disse. “A carne virou artigo de luxo. Agora, só como frango, ovos e, às vezes, peixe, que também está caro. Tive que fazer redução em tudo, luz, água, combustível, alimentos e outros artigos”, reforçou.

Bolsonaro culpa governadores

O presidente Jair Bolsonaro reconheceu a alta da inflação, mas culpou governadores e as medidas de restrição, como o distanciamento social, adotadas para combater a pandemia de covid-19, que já vitimou mais de 476 mil brasileiros. “Tem inflação em alimentos, sim, não vou negar. Estamos, agora, tentando diminuir o preço do milho. Vai atingir diretamente a galinha, o ovo. De onde vem isso aí? Da política do ‘fica em casa, que a economia vem depois. Não é isso?’”, alegou. “Está vendo aí, ó? A política do lockdown, fecha tudo, fecha comércio, destrói empregos. Imagine se o campo tivesse parado, não teria inflação. Teríamos desabastecimento”, disse a apoiadores na saída do Palácio da Alvorada.

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