CONJUNTURA

Combater a inflação é prioridade, sinaliza Banco Central

Autoridade monetária admite que IPCA deve estourar o teto da meta neste ano, mas promete utilizar "todos os instrumentos" para atingir o alvo em 2022, em detrimento de "objetivos secundários". Elevação do custo da energia é desafio

Rosana Hessel
postado em 25/06/2021 06:00
 (crédito: Leonardo Sá/Agencia Senado)
(crédito: Leonardo Sá/Agencia Senado)

Após o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reconhecer que as pressões inflacionárias neste ano não são temporárias, sinalizando um ciclo de alta na taxa básica de juros (Selic) mais longo do que o inicialmente previsto, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, reforçou que o foco da instituição é o combate ao custo de vida. Ele ainda voltou a afirmar que pretende utilizar “todos os instrumentos disponíveis” para cumprir a meta de inflação no ano que vem.

“O mandato está bem claro, a prioridade é a meta de inflação”, afirmou Campos Neto, ontem, reconhecendo que “existem alguns objetivos secundários”. A recém-aprovada autonomia do BC prevê duplo mandato, incluindo preocupação com a atividade econômica.

A fala de Campos Neto ocorreu durante videoconferência sobre o Relatório Trimestral de Inflação (RTI), divulgado ontem com novas projeções macroeconômicas. As estimativas atualizadas do BC ficaram mais conservadoras do que as do mercado, tanto para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) quanto para o Produto Interno Bruto (PIB).

A instituição elevou de 3,6% para 4,6% a previsão de crescimento do PIB deste ano, abaixo da mediana das estimativas do mercado coletadas pelo boletim Focus, de 5%. Para 2022 e 2023, o BC prevê IPCA de 3,5% e 3,3% enquanto as metas, respectivamente, são de 3,5% e 3,25%.

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Crise hídrica

Entre os principais riscos apontados pelo relatório, está a crise hídrica, que deverá ficar no radar até 2022, pois, de acordo com o diretor de Política Monetária do BC, Fabio Kanckzuk, as projeções de inflação do ano que vem já consideram o uso da bandeira vermelha 1. O diretor reconheceu que o choque de preços, no momento, não é de demanda, e, por conta disso, a recente alta na taxa de juros acaba não surtindo efeito na inflação diretamente. “Se o choque é de oferta, a política monetária só vai combater os efeitos de segunda ordem”, disse.

A autoridade monetária passou a prever, para este ano, estouro do teto da meta de inflação determinada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 5,25%, ao elevar de 5% para 5,8% a expectativa para o IPCA no fim do ano. As projeções também apontam que o indicador da inflação oficial poderá chegar a 8,5% no acumulado em 12 meses em agosto.

Kanckzuk admitiu que há muitas incertezas no segundo semestre, além da crise hídrica. Ele destacou que ainda não é possível saber qual será a intensidade do aumento dos preços assim que houver uma abertura das atividades de forma mais robusta. Pelas projeções do BC, apesar da queda recente do dólar, as pressões inflacionárias persistem.

As projeções do mercado para a Selic no fim de 2021 estão acima dos 6,25% sinalizados pelo BC, convergindo para 6,5%, podendo chegar a 7,5% ou 8% no ano que vem, de acordo com Newton Rosa, economista-chefe da Sul América Investimentos. Segundo ele, mesmo com uma previsão de inflação no fim do ano mais baixa do que a do mercado, o BC não vai escapar de ter que se explicar ao Ministério da Economia por não ter cumprido a meta.

“Nos próximos meses, se houver uma acomodação dos preços em patamares razoáveis, as expectativas para a inflação de 2022 deverão ficar ancoradas na meta”, afirmou Rosa. Ele reconheceu que a grande dúvida é como os preços de serviços e da energia elétrica deverão se comportar na medida em que a economia for reabrindo e a atividade voltando ao normal.

O economista-chefe do Banco Alfa, Luis Otavio de Souza Leal, vê com bons olhos o foco de Campos Neto no combate à inflação. “É uma questão de visão econômica. Manter a inflação sob controle pode tirar algum crescimento no curto prazo, mas, certamente, no médio prazo, a média de crescimento será maior. Ou seja, não acho os mandatos conflitantes”, observou.

Gastos

Ele lembrou o período do ex-presidente do BC Alexandre Tombini. “Manteve juros baixos, aceitando mais inflação para ter crescimento. No fim, tivemos uma recessão, inflação e juros altos. Esse discurso de que crescimento e combate à inflação são conflitantes é papo de economista que não gosta de fazer conta e briga com a realidade”, afirmou.

Apesar da relativa melhora do cenário fiscal, Campos Neto reforçou os alertas do RTI sobre a preocupação com as ameaças ao teto de gastos, principalmente em 2022. “O arcabouço do teto de gastos tem sido desafiado com frequência. Temos um ano de eleições pela frente e entendemos que, apesar de números melhores na trajetória da dívida, há risco de possível rompimento do teto e de aumento de gastos”, alertou.

Meta de 3% para 2024

O Conselho Monetário Nacional (CMN) fixou em 3% a meta para a inflação oficial em 2024, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A margem de tolerância continua de 1,5 ponto percentual, para mais ou para menos, o que permite um teto de 4,5% e um piso de 1,5%. As metas atuais foram mantidas, sendo 3,75%, para 2021; 3,50%, para 2022; e 3,25%, para 2023. Em nota, o Ministério da Economia afirmou que “a redução em 0,25 ponto percentual na comparação com a meta de 2023 é coerente com a elevada credibilidade da política monetária”.

Classe média encolhe na pandemia

No ano passado, a crise provocada pela pandemia da covid-19 empurrou 4,7 milhões de pessoas da classe média para a vulnerabilidade ou a pobreza na América Latina e no Caribe, conforme estudo do Banco Mundial (Bird) divulgado ontem. Contudo, se não fosse o auxílio emergencial promovido pelo governo brasileiro, esse número seria muito maior, chegando a 12 milhões, de acordo com o levantamento do Bird. A entidade advertiu que o quadro pode piorar neste ano se não houver medidas para conter o aumento da desigualdade.

De acordo com a pesquisa denominada A lenta ascensão e o declínio repentino da classe média na América Latina e no Caribe, sem o programa de auxílio brasileiro, 20 milhões de pessoas ficaram em situação de pobreza em 2020.

O estudo, de 78 páginas, destacou que a classe média latino-americana encolheu mais rapidamente do que cresceu nos últimos anos, mas, em 2020, os percentuais de pobres e vulneráveis passaram a ser predominantes na região. A atual crise global, segundo a instituição, deve resultar em um rápido declínio no tamanho da classe média na maioria dos países, “tornando a América Latina novamente uma região majoritariamente de pessoas vulneráveis e abaixo da linha da pobreza”.

Nas últimas duas décadas, o número de pessoas vivendo em situação de pobreza na região caiu quase pela metade. Em 2018, a classe média (com renda per capita diária entre US$ 13 e US$ 70 por dia) ultrapassou o número de pessoas em situação de vulnerabilidade (vivendo com US$ 5,50 a US$ 13) e de pobreza (abaixo da linha de pobreza de US$ 5,50 por dia).

Naquele ano, a classe média correspondia a 37,4% da população da região, e, em 2019, passou para 38,4%. Contudo, em 2020, recuou para 37,3%.

A população em situação de vulnerabilidade aumentou de 37%, em 2019, para 38,5% em 2020. Já as pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza eram 21,8% da população, dado levemente abaixo do total de 2019, de 22,1%.

A América Latina concentra 8% da população global, mas registra 32% das mortes provocadas pela covid-19. O Produto Interno Bruto (PIB) regional encolheu 6,5% no ano passado e, segundo o Bird, a recuperação que está ocorrendo “não será suficiente para que o PIB regional retorne ao patamar de 2019”. Para garantir a recuperação, a instituição destacou que será fundamental garantir o amplo acesso a vacinas e fortalecer os sistemas de saúde em toda a região.

Os dados mostram, ainda, que 54,4% dos trabalhadores latino-americanos estão na informalidade e que 9 em cada 10 das pessoas que vivem na pobreza trabalham no setor informal.

“Aqueles que estavam em pior situação no início provavelmente serão os mais afetados, levando ao aumento na desigualdade de renda em uma região já muito desigual”, disse Ximena Del Carpio, gerente da Prática Global de Pobreza e Equidade do Banco Mundial. “O acesso a serviços básicos, como eletricidade, água tratada, saneamento e até mesmo a internet, se tornou ainda mais essencial em situações de lockdown”, acrescentou. (RH)

Retrocesso

Evolução da pobreza na América Latina
(Dados em %)

Faixa de renda (em US$/dia) 20192020
Classe média (13-70) 38,437,3
Vulneráveis (5,5-13,0) 37,038,5
Pobres (até 5,5) 22,121,8

Fonte: Banco Mundial

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