COMÉRCIO

Aumento na conta de luz deve refletir preços no varejo

Comércio varejista deve experimentar queda nas vendas, aponta especialista. Aneel reajustou bandeira vermelha patamar II em 52%, na terça-feira (29/6)

Fernanda Fernandes
postado em 30/06/2021 11:33 / atualizado em 30/06/2021 11:33
 (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
(crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

O aumento na cobrança extra da conta de luz a partir de julho poderá impactar os consumidores domésticos e comerciantes duplamente: no aumento direto das despesas com energia elétrica e no reflexo nos preços em todos os setores do varejo. É o que afirma o economista Fábio Bentes, responsável por estudos da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) divulgou, na terça-feira (29/6), um reajuste de 52% na taxa da bandeira vermelha II, aplicada atualmente e com previsão para permanecer em toda fase crítica da crise hídrica, o valor da tarifa passou de R$6,24 a cada 100 quilowatts para R$ 9,49/100 kWh.

Bentes afirma que o reajuste é significativo e poderá, não só frear o crescimento esperado para o comércio varejista nos próximos meses, como provocar queda nas vendas em todos os setores “não essenciais”. “Mais de 10% das despesas do comércio são com tarifas de energia elétrica, e o repasse do aumento na conta de energia aos preços dos produtos acaba sendo obrigatório. O consumidor, por sua vez, não tem condições de fazer frente ao aumento de preços acima da média e, na hora de pagar as contas, para não ter a energia cortada, vai retirar do consumo o vestuário e o item de eletrodoméstico, por exemplo”, explica o economista.

Um estudo da CNC, cita Bentes, revela que para cada 1% de aumento no preço da energia, é necessário repassar 0,44% no preço, e o empresário consegue “dividir o imposto com o consumidor”, assumindo 0,56%. Essa estimativa, contudo, é válida para situações de normalidade, que não é o caso do quadro atual, de acordo com o economista.

“Muitos setores nem se recuperaram da pandemia, e a energia elétrica tem subido muito mais do que a capacidade do varejo de gerar receita. Por isso, o aumento de energia não deverá ser repassado nesse mesmo percentual que costumava ser até dois anos atrás, o que também será um fator para que o varejo experimente queda de receitas”, reforça.

Retomada do comércio afetada

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados este mês apontam que as vendas do comércio varejista subiram 1,8% em abril de 2021, com relação a março. Na comparação com abril do ano passado, o volume de vendas no varejo cresceu 23,8%. Em maio, a CNC manteve em 3,3% a previsão de crescimento do volume das vendas no varejo para 2021, após a divulgação da Pesquisa Mensal de Comércio pelo IBGE. Para Fábio Bentes, o aumento na conta de luz pode desacelerar o crescimento.

“O reajuste pode desacelerar a recuperação do varejo. O melhor exemplo é o vestuário, que hoje já vende 20% a menos do que antes da pandemia, e, se for repassar aumentos na energia para preço, irá demorar mais ainda para se recuperar”, afirma.

Os setores do comércio varejista que podem sentir, um pouco menos, esse impacto são os essenciais, especialmente ligados à alimentação, segundo Fábio Bentes. “No setor de alimentação costumam se adaptar melhor aos reajustes e a variação de preço é mais inelástica”, conta.

Marcio Milan, vice-presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), explica que, devido ao uso de energias alternativas, grande parte dos supermercados consegue manter as despesas com energia elétrica na margem de 2% ao mês.

"Trabalhando com energias de fontes renováveis, os mercados, especialmente de grandes redes, conseguem trabalhar um valor bem menor com os distribuidores de energia. Muitos utilizam geradores em horário de pico, por exemplo”, revela o representante do setor.

Alta não será imediata

De acordo com Milan, ainda que a alta nos preços de varejo possa suceder aumento dos valores das bandeiras tarifárias, isso não deve ocorrer imediatamente, pois o reajuste ainda deve ser assimilado por cada setor. No caso dos supermercados, o volume de estoque também interfere nessa análise.

“Cada tipo de produto tem uma dinâmica e um gasto sobre a energia elétrica , além disso, muitos produtos ainda estão estocados e foram comprados dentro da tarifa anterior, então vai depender dos níveis de estoque, também”, conta.

Ainda segundo o vice-presidente da Abras, as indústrias e comércio deverão negociar com fornecedores e a competitividade deve ser um impeditivo para grandes altas nas prateleiras dos supermercados.

“Haverá um tempo para negociar com as indústrias. Então o reajuste não refletirá agora nos preços. No caso dos supermercados, o mercado é muito competitivo e cada um procura oferecer o melhor produto pelo melhor preço”, ressalta.

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