CONJUNTURA

BC acelera alta dos juros por conta da inflação mais forte

Analistas estimam que taxa poderá ultrapassar os 7% em dezembro e chegar até a 8%. Crise hídrica e risco fiscal preocupam

Rosana Hessel
postado em 05/08/2021 06:00 / atualizado em 06/08/2021 16:27

O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, elevou, ontem (4/8), a taxa básica de juros (Selic) pela quarta vez consecutiva e intensificou o ritmo de aperto da política monetária, refletindo maior preocupação com a inflação e com as contas públicas, em meio ao aumento das incertezas no mercado doméstico.

Com a decisão, tomada por unanimidade pelo colegiado, a Selic aumentou em 1 ponto percentual, de 4,25% para 5,25% ao ano. Em comunicado distribuído após a reunião, o órgão sinalizou que deverá promover alta de mesma magnitude na reunião de 21 e 22 de setembro e um aperto mais forte até o fim do ano. Isso fez analistas aumentarem as apostas para uma Selic acima de 7% em dezembro, provavelmente, entre 7,5% e 8% anuais.

No documento, em tom duro, o BC reconheceu a existência de riscos em todas as direções no cenário básico. “O Copom considera que, neste momento, a estratégia de ser mais tempestivo no ajuste da política monetária é a mais apropriada para garantir a ancoragem das expectativas de inflação”, destacou a autoridade monetária.

O texto ainda sinalizou uma taxa básica acima do patamar neutro, atualmente, entre 6,5% e 7% anuais, o que poderá frear um processo de retomada mais robusta da atividade, que ainda não engrenou. “Neste momento, o cenário básico e o balanço de riscos do Copom indicam ser apropriado um ciclo de elevação da taxa de juros para patamar acima do neutro”, acrescentou.

A nota do BC ainda destacou preocupação com o prolongamento de políticas fiscais no combate à pandemia da covid-19. “Apesar da melhora recente nos indicadores de sustentabilidade da dívida pública, o risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista no balanço de riscos, ou seja, com trajetórias para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária”, alertou.

A decisão do colegiado era esperada pelo mercado, porque a inflação está cada vez mais pressionada por fatores como crise hídrica, retomada gradual dos serviços com o aumento da vacinação e, mais recentemente, geadas. A mediana das estimativas coletadas pelo boletim Focus para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve encerrar o ano em 6,79%, bem acima do teto da meta, de 5,25% ao ano. Para 2022, as projeções apontam o indicador rumando para o teto da meta do ano que vem, de 5%.

Na avaliação de Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, o comunicado do Copom mostrou maior preocupação do BC com a questão fiscal e com a inflação do que nas reuniões anteriores, o que resultou em um aumento da Selic mais forte do que o 0,75 ponto percentual das três reuniões anteriores.

“No nosso cenário, o BC deverá realizar um esforço adicional para ancorar as expectativas de inflação, que estão elevadas em 2022 e, por isso, sinalizou que a Selic deverá ficar acima dos juros neutros. Por conta desta sinalização no comunicado, elevamos de 7% para 7,5% nossa projeção da Selic no fim do ano, mas, como o BC não informou se haverá limite, não descartamos que os juros fiquem acima dessa nossa nova estimativa”, afirmou.

“Houve um tom maior de preocupação. Acabou aquela tese de choque temporário e caiu a ficha de que há riscos crescentes para a inflação”, destacou Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. Para ele, o BC tomou a decisão correta, porque as pressões inflacionárias devem jogar a inflação para 7% no fim do ano, e ainda impactar a de 2022, que poderá ficar acima dos 4% atualmente previstos pela MB. “Há chances elevadas de a Selic chegar a 8% no final desse ciclo”, disse Vale.

Incerteza derruba a bolsa

Apesar da safra de balanço dos grandes bancos apresentar lucros do segundo semestre de 2021 acima de 50% ou 60% dos registrados no mesmo período de 2020, o mercado acionário sentiu o baque do aumento das incertezas em relação ao governo de Jair Bolsonaro e fechou em forte queda ontem. O Ibovespa, principal indicador da Bolsa de São Paulo, caiu 1,4%, para 121.801 pontos.

A perspectiva de um aperto monetário mais duro do Banco Central, devido ao aumento das pressões inflacionárias, a estratégia do governo de financiar o novo Bolsa Família com uma espécie de calote nos precatórios judiciais azedou o humor dos investidores. Além disso, o cenário político, com o acirramento dos embates entre o presidente e o Supremo Tribunal Federal (STF) contribuiu para aumentar a preocupação.

“Há um aumento dos atritos na área política e das incertezas na economia. As pressões inflacionárias estão aumentando e o BC precisou acelerar a alta da Selic para ancorar as expectativas”, avaliou o economista-chefe da Órama, Alexandre Espírito Santo.

Segundo ele, devido aos fatores domésticos e piora no cenário fiscal, o Ibovespa não consegue voltar ao recorde de junho, de quase 131 mil pontos, apesar dos resultados positivos de empresas importantes na B3. “Nesses últimos dias, a questão fiscal ganhou contornos mais complexos, com a intenção do presidente Bolsonaro em turbinar o Bolsa Família. O adiamento dos precatórios gerou muito ruído. O mercado está apreensivo”, explicou. (RH)

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