CARESTIA

Inflação mais "democrática" castiga ricos e pobres

Desde a alimentação às passagens aéreas: quase todos os itens subiram de preço nos últimos meses. O IPCA-15 de agosto aponta variação de 0,89%, uma alta de 0,17% na comparação com julho

Fernanda Fenandes
postado em 26/08/2021 13:08
 (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
(crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

A inflação não deverá desacelerar tão cedo, pelo menos na previsão do mercado financeiro e pelo que vem sendo demonstrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nos últimos meses. O Instituto divulgou, nesta quarta-feira (25/8), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15), com dados coletados entre 14 de julho e 13 de agosto. A pesquisa aponta que a inflação observada em agosto (0,89%) teve mais um aumento, desta vez de 0,17%, na comparação com percentual registrado em julho (0,72%). 

Se antes a pressão inflacionária era atribuída a itens pontuais como a conta de luz e os combustíveis, agora, tem se espalhado para, praticamente, todos os grupos de consumo, tanto de bens como de serviços. André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), explica que algumas despesas que andavam sem grandes alterações nos últimos meses, passaram a pressionar a inflação. “Eu destacaria serviços de reparo, que entra no grupo de artigos de residência, que era um setor que não se movia e avançou 1% em um mês. Quando você olha para os preços dos bens duráveis como automóveis, eletrodomésticos e equipamentos, observa que tudo aumentou”, afirma o especialista.

O setor de artigos de residência, apontado por Braz, registrou variação de 1,05%, segundo o IBGE. Os dados do IPCA-15 de agosto demonstram que, dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados, oito tiveram alta no período. O setor de habitação segue liderando a pressão inflacionária, com impacto de 0,31% na inflação, principalmente devido à alta na energia elétrica (5%) e do botijão de gás (3,79%).

Outro setor que segue pesando no bolso do brasileiro, especialmente da população de baixa renda, é o de alimentação e bebidas, que teve impacto de 1,02% no índice. Já saúde e cuidados pessoais tiveram queda de 0,29% e comunicação, um aumento sutil de 0,19%.

Para Braz, a distribuição dessa pressão aos diversos itens de consumo é perigosa, especialmente por dificultar previsões mais exatas do mercado financeiro. “Quando essa pressão está contida, você entende o porquê de estar ocorrendo o fenômeno, e ele não representa grande agravamento por ser temporário, mas quando essa pressão se espalha é um sintoma que merece maior atenção”, alerta.

Crise hídrica, ruídos político-fiscais e questões macroeconômicas são os principais fatores que têm acarretado na alta inflação, que deverá respingar em 2022, segundo André Braz. Para ele, o fato de a inflação este ano estar refletindo no ano que vem, mexe com a expectativa dos agentes econômicos e exige maior exercício da autoridade monetária para não “desancorar” as previsões do mercado financeiro. “Uma previsão de inflação distante da meta para 2022 já é um sintoma de desancoragem. A gente tem visto estabilidade somente a partir de 2023 e isso é ruim”, afirma.

Para o economista, a inflação deverá ultrapassar 8%, caso haja um novo reajuste na conta de energia elétrica, o que já foi sinalizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). “Pode ultrapassar a casa de 8%, tudo é possível, mas não acredito que haja um risco maior do que o que se consegue enxergar agora, prevendo novo aumento na bandeira vermelha”, explica.

Os “respingos” da inflação no próximo ano tem sido demonstrados nas análises do mercado financeiro. No último boletim Focus, divulgado pelo Banco Central há três dias, os economistas elevaram a estimativa de inflação para 2022, de 3,8 para 3,93% ao ano. Para 2023 e 2024, as previsões são de 3,25% e 3%. Já para 2021, o mercado financeiro avalia que a inflação, atualmente em 4,76%, alcançará 7,11%. O percentual está muito acima do teto da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 5,25%, e é o mesmo apresentado, esta semana, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

A pesquisadora do Ipea, Maria Andreia Parente Lameiras, explica que a alta projetada de 7,1% é baseada nos elementos não especulativos. “O preço da carne que aumenta a pressão nos alimentos, o combustível que deve continuar alto por conta da alta no petróleo ou as commodities em alta; No Ipea a gente tenta não entrar na especulação e, hoje, a gente enxerga uma desaceleração. Não é uma inflação confortável, especialmente se comparada à meta de 3,65% do BC, mas não é uma inflação descontrolada”, afirma. Ainda segundo Lameiras, a tendência para 2022 é de uma inflação mais branda, com a retomada de serviços e o recuo no preço de itens que estão pressionando o índice, atualmente

Com a alta inflação distribuída em praticamente todos os setores, a pressão ficou mais “democrática”, segundo André Braz. Ele explica que, diferentemente de 2020, quando a inflação de alimentos foi o que mais pesou e castigou os mais pobres, este ano, os serviços e bens consumidos pelos mais ricos, que estavam em baixa, tiveram alta. “Os vilões da inflação não são mais pontuais, eles se espalharam. Itens como mensalidades de escolas particulares, hotéis e passagens aéreas, antes com descontos, agora estão em alta e pensam no bolso da classe média e alta, também”, afirma.

Café da manhã do brasileiro está mais caro

De acordo com André Braz, apesar estar espalhada em todos os setores, a inflação ainda atinge com mais força os mais pobres, uma vez que o setor de alimentação segue em alta em todos os itens de supermercado. “Essa geada atingiu safras como a de cana, café, laranja e de milho, que é utilizado nas rações do animais”, pontua. A afirmação do economista do Ibre/FGV é confirmada nos dados do último IPCA-15, que apontam que, não só não houve alívio no preço dos alimentos na comparação com 2020, como houve um aumento de mais que o dobro na inflação do setor, passando de 0,49% em julho, para 1,02% em agosto.

O estudante e diretor de arte Ryan Castro, de 19 anos de idade, conta que os altos preços nas prateleiras obrigaram a família a fazer mudanças no cardápio, que ficou mais restrito. “Aqui em casa, comprávamos muita fruta, banana, abacaxi, manga, goiaba, uva... E esse mês só compramos banana e mexerica”, diz o morador do Riacho Fundo II, no Distrito Federal.

De fato, as frutas foram alguns dos itens de alimentação que mais sofreram aumento em agosto. De um cenário de queda de 1,33% registrado em julho, o item saltou para alta de 2,07% em agosto. “A impressão que dá é que, a cada vez que vamos ao mercado, o valor das coisas está mais alto. Não sei quanto vou precisar gastar de supermercado no próximo mês para poder comprar o que preciso”, lamenta Ryan.

Se o almoço do brasileiro já vem tendo sua qualidade comprometida devido ao alto preço da carne bovina e de frango, cada vez menos presentes no prato do consumidor, os itens do café da manhã também encareceram, no acumulado dos últimos 12 meses. O açúcar, por exemplo, teve aumento de 7,1%; Os ovos, de 3,52%; As farinhas, utilizadas em bolos, saltaram 2%. Já o leite e o pão francês subiram 1% e 0,7%, respectivamente. No geral, o setor de alimentação e bebidas aumentou 1,07% desde agosto do ano passado.

Felipe Alves, atendente em uma das franquias do Fran 's Café, confirma a alta da inflação nos itens de café da manhã. Ele conta que o quadro, que já estava difícil com a pandemia, piorou nos últimos meses. “Eram 15 funcionários, agora só tem 7. Na hora de escolher os produtos com os fornecedores, somos obrigados a fazer muita pesquisa para encontrar bom preço e qualidade”, revela. (Colaborou Luiza Victorino)

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