REUNIÃO DO FMI

Explicações para a crise do país

Desgastados pelas denúncias de que mantêm empresas em paraísos fiscais, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, desembarcam em Washington, amanhã, para participar da reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. Guedes também participará do encontro de ministros do G-20.

O ministro tem sido aconselhado a ficar fora dos holofotes e se concentrar nas reuniões nos Estados Unidos que já foram marcadas. O desgaste de Guedes aumentou depois que o plenário da Câmara , por 310 votos favoráveis, aprovou, na semana passada, a convocação dele para prestar esclarecimentos sobre a sua offshore, com patrimônio de US$ 9,55 milhões.

As empresas offshores, porém, não são os únicos problemas das duas maiores autoridades econômicas do país. Nas reuniões na capital norte-americana, eles vão mostrar aos seus pares um país em crise, com crescimento econômico em declínio, juros em alta e inflação ascendente.

Na edição de ontem do Boletim Focus, publicação na qual o Banco Central lista semanalmente as projeções de um seleto grupo de economistas do mercado financeiro, a previsão para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste ano subiu de 8,51% para 8,59% — a 27ª elevação consecutiva. Na estimativa dos analistas, a taxa básica de juros, a Selic, terminará 2021 em 8,25% e fechará 2022 em 8,75%. A economia deverá crescer 5,04% neste ano, mas a expansão cairá para apenas 1,75% no próximo.

O economista da FGV André Braz explica que o Brasil é uma potência, porém passa por dificuldades. “Nós negligenciamos a política fiscal, não ficamos atentos ao limite de gastos, e acreditamos que só a política monetária daria conta. Porém os juros, no início deste ano, estavam em 2% ao ano, e ninguém queria pegar dinheiro emprestado, porque não é apenas o setor privado que tem que puxar o investimento, o setor público também. Mas o setor público sem dinheiro confiava no crescimento da economia no setor privado”, explicou.

Nesse jogo de empurra, segundo o economista, o Brasil não saiu do lugar, a inflação, com a chegada da covid, foi gradualmente tomando mais espaço, até um ponto em que ficou insustentável segurar os juros em 2% ao ano. “Hoje, os juros estão em 6,25%, a expectativa é que vão para 8,25%, ainda em 2021 e, com esses juros altos, o efeito colateral é o crescimento baixo, não tem outro jeito”, afirmou.

De acordo com Braz, é preciso, nesse momento, diminuir o ruído político e apresentar uma proposta de melhora rápida das contas públicas, que estão no vermelho há anos, minando a confiança dos agentes econômicos. “E, na medida do possível, tentar conter o avanço da inflação”, acrescentou.

1,75%

Previsão dos analistas do mercado financeiro para o crescimento da economia brasileira no ano que vem