Conjuntura

Carne mais barata após período de alta

Embargo chinês aumentou a oferta do produto no mercado interno, o que provocou uma ligeira queda nos preços. Mas situação é temporária

Bernardo Lima* Maria Eduarda Angeli*
postado em 24/11/2021 00:01
 (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)
(crédito: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)

Após um período de alta contínua dos preços, o Índice de Preços de Supermercados (IPS) indicou uma leve desaceleração no valor dos cortes mais populares de carne. Segundo o levantamento feito pela Apas (Associação Paulista de Supermercados) e Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), a cesta de carnes apresentou deflação de 0,55%.

Dos 14 cortes acompanhados pela Apas, 10 recuaram em nível de inflação no mês de novembro. Entre os mais populares, o acém apresentou queda de 3,10% em outubro, e a alcatra, de 1,39%. Ainda de acordo com a Apas, a redução dos preços se deu pela maior oferta interna e estabilidade no custo de produção.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) também apontou que o preço do item caiu em outubro. Os dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que os preços da proteína bovina tiveram baixa de 0,31%. A última queda havia ocorrido há 16 meses atrás, em maio do ano passado (-1,33%).

Apesar dos recuos, a inflação dos dois cortes ao longo do ano é de 9,32% e 11,00%, respectivamente. O total da cesta de carnes acumula alta de 13,05% no ano, segundo o IPS.

Embargos e restrições

O Ministério da Agricultura confirmou, ontem, que o governo chinês flexibilizou os embargos em relação à proteína bovina brasileira. A partir de agora, as carnes datadas de antes de 4 de setembro, quando começaram as restrições chinesas, serão liberadas na alfândega. "Esse recuo dos preços, ainda que pequeno, passa pelo embargo que a China estabeleceu", explica o economista Oscar André Frank, da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs). "Por conta de uma maior disponibilidade de oferta doméstica, nós tivemos o impacto que acabou reverberando sobre esses valores", completa.

Já para o especialista em macroeconomia José Luiz Oreiro, o embargo da China às carnes brasileiras não é o único motivo para a queda no preço dos itens nos supermercados. De acordo com ele, a baixa também pode ser atribuída a um menor consumo da proteína bovina por parte da própria população. "O próprio aumento dos preços gerais reduziu o poder de compra das pessoas. Elas substituíram carne por alternativas mais baratas", afirma Oreiro.

O assessor técnico de pecuária de corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rafael Ribeiro de Lima Filho explica que a carne bovina perdeu competitividade com seu preço alto. "Em 2019, um quilo de carne bovina custava 2,4 quilos de frango. No ano passado, essa relação subiu para três, e em 2021 se manteve em parâmetros parecidos".

Segundo Rafael Ribeiro, o cenário de pouco comércio com um grande comprador da carne brasileira, como a China, obrigou os frigoríficos e supermercados a se adaptarem às demandas do consumidor brasileiro "Talvez muito dessa pressão pudesse ter sido aliviada se tivesse uma exportação para China mais ativa. Com um maior volume de carne voltado para o mercado interno, é necessário se adaptar às demandas e consumo daqui", avalia.

Dólar alto

Apesar da questão chinesa, alguns fatores ainda pressionam o preço da carne. A valorização do dólar, por exemplo, torna a exportação do produto mais vantajoso para o produtor. Além disso, há o aumento da demanda internacional, com a reabertura das economias e o avanço da vacinação. "É importante notar que, se por um lado, nós teremos um reforço nos programas de distribuição de renda — como o Auxílio Brasil —, por outro, nós temos uma situação bastante complicada em termos de mercado de trabalho", frisa o economista Oscar André Frank. Embora o setor venha se recuperando, a taxa de desemprego segue alta.

Outro ponto a se considerar é o fato de que a renda real está comprometida, diz o economista. "Essa alta generalizada dos preços está corroendo o poder de compra dos salários, e isso pode continuar a suscitar nos consumidores a procura por outros tipos de mercadorias que ocupem o lugar da carne", observa André Frank.

A aposentada Luiza Moreira, 75 anos, diz que teve dificuldade de acompanhar a subida dos preços da carne bovina com sua renda. "Fui para outras alternativas, tem cachorro-quente com salsicha toda semana lá em casa agora". Apesar disso, segundo ela, o custo das carnes tem se estabilizado dentro dos supermercados nos últimos meses. "Tenho percebido que não tem mais um aumento muito constante dos preços, né? Alguns cortes têm barateado um pouquinho também", observa. Ainda assim, para Luiza, a queda não foi o bastante: "Como minha renda não aumentou, continua muito caro. Na hora de pagar é complicado", desabafa.

O respiro, no entanto, pode durar pouco. Para o assessor da CNA, Rafael Ribeiro, as festas de fim de ano podem levar o preço da carne a subir novamente em dezembro. "Com uma maior movimentação agora nestas semanas de Natal, o final de mês pode e costuma levar a uma retomada da subida de preços". Além disso, ele também destaca que o Ano Novo Chinês impulsiona a exportação da carne brasileira, que resulta em aumento no preço do produto no mercado doméstico.

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