ELEIÇÕES E ECONOMIA

'Efeito Lula e Alckmin' divide mercado financeiro, indicam especialistas

Para alguns, Lula sozinho poderia ser interpretado como um flerte com a radicalização da esquerda. Ao elogiar Alckmin, o petista mostrou que buscará desenrolar um governo mais ao centro

Para uma parcela do mercado financeiro, as declarações feitas, nesta quarta-feira (19/1), por Lula a seu possível vice, Geraldo Alckmin, surtiram efeito positivo no segmento. Isso porque a onda de estabilidade seguiu até esta quinta-feira (20/1), que mostrou cotações do dólar em queda de 0,9% e vendido a R$ 5,417. Esse foi o menor valor de fechamento desde 12 de novembro do ano passado. Um dia antes, a moeda americana foi negociada também em queda, a R$ 5,465. Além disso, a bolsa de valores continua em alta, o Ibovespa registrou aumento de 4,08% este mês.

De acordo com especialistas ouvidos pelo Correio, essa união Lula-Alckmin pode representar um desvio ao chamado “risco de cauda”, ou seja, um tipo de cenário no qual algo fora do padrão possa acontecer. Um exemplo disso seria o covid-19.

Para alguns, Lula sozinho poderia ser interpretado como um flerte com a radicalização da esquerda. Ao elogiar Alckmin, o petista mostrou que buscará desenrolar um governo mais ao centro. Em um país que desde 1989 acumula uma despesa pública que cresce em 7% acima da inflação, o mercado busca por candidatos com mais racionalidade, aponta um dos especialistas ouvidos — que prefere não ser identificado. Segundo ele, serão observados comportamentos voltados para quem dê mais estabilidade e entrega econômica, além da observação da trajetória de como controlar a dívida pública brasileira. Portanto, a aposta será em analisar os programas de governo montados pelos pré-candidatos.

Nesse quesito, Lula não apresentou nenhuma ação concreta. Jason Vieira, economista chefe da Infinity Afset, explicou que o mercado não é homogêneo, por isso nem todos os investidores receberam a chapa sem desconfiar. Para ele, Alckmin será apagado na campanha com o petista. "Se unificar os discursos ele alivia as pressões do mercado, se não, ele anula Alckmin", comentou. 

“Agora ele [Lula] não vai pegar um cenário positivo. É um (cenário) fiscal muito ruim, um global muito desafiador que não vai ter um crescimento absurdo. Se ele começar a fazer excessivas promessas pra plateia dele, ele mata o efeito Alckmin. O discurso dúbio mata o efeito Alckmin. Se chegar aqui com os investidores e falar que vai fazer as reformas e no dia seguinte fazer tudo ao contrário, as pessoas vão dizer 'para quem esse cara está falando'? Se ele falar só para plateia ele se queima (a grande massa), se ele começar a equilibrar, fala uma coisa para a plateia e outra coisa em conversas mais privadas, não vai funcionar. Ele tem que unificar o discurso”, analisa.

O receio é de que Lula repita a estratégia do primeiro mandato, em 2002, no qual anunciou Antonio Palocci como ministro da Fazenda. Na época, para acalmar os ânimos do mercado — que não simpatizava com o petista — Palocci começou a montar a equipe econômica com nomes que eram considerados mais liberais e tinham maior aceitação de agentes do mercado. Marcos Lisboa e Joaquim Levy e Ricardo Henriques foram escolhidos, junto com Henrique Meirelles, para comandar o Banco Central. Em abril do ano seguinte, Palocci assinou um documento chamado Política Econômica e Reformas Estruturais, onde descrevia as “prioridades da agenda econômica”. O equilíbrio fiscal era a prioridade do ministro, por meio do endurecimento dos gastos públicos e estabelecimento de metas de superávit primário. O documento gerou rusgas no Partido dos Trabalhadores e foi um dos motivos de mudanças na equipe que seguiu outro rumo ideológico.

Cenário internacional

Jason atribuiu as mudanças positivas dos últimos dias no mercado financeiro à saída de investidores da Rússia por causa das tensões militares entre o país e a Ucrânia e a busca deles por novos mercados emergentes. “Ontem fomos a melhor moeda do mundo, pode ter tido lula como catalisador? Sim, mas não foi ele o ativo do movimento. Foi um movimento que se alimentou de outro. Falou o que as pessoas queriam ouvir por algum momento, mas não falou tudo”, explicou.

O economista gestor da BlueMetrix Ativos, Renan Silva, diz que ainda é cedo para afirmar que a reação positiva do mercado está relacionada às declarações de Lula. “Nesse momento, o mercado talvez não esteja tão sensível a esse evento político, até porque ainda é muito cedo para apontar o que vai acontecer nas eleições em outubro”. Para Silva, os resultados positivos foram causados porque agentes do mercado estão antecipando um fluxo de investimentos no início de 2022, com receio de uma instabilidade econômica que pode ser causada pelas eleições que acontecem em outubro.

“O mercado sabe que o vice não determina a diretriz econômica do governo. Os mandatos de Lula e Dilma ficaram marcados por terem uma gestão econômica 'pró-estado, o que denota uma certa ineficiência para o mercado”, sintetizou.

*Estagiário sob supervisão de Ronayre Nunes

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