Sacrifícios

"O mercado não tem medo de ninguém", afirma ex-diretor do Banco Central

Para o economista, nem Lula nem Bolsonaro assustam os investidores, apesar das preferências. Ele afirma que a maior parte do ajuste fiscal foi feita e que, agora, o país está "na boca do gol". Mas alerta: "Inflação não ganha eleição"

Vicente Nunes
Rosana Hessel
postado em 14/02/2022 06:00
 (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)
(crédito: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)

Ex-diretor do Banco Central e estrategista-chefe da Wealth High Governance (WHG), Tony Volpon acompanha a economia brasileira dos Estados Unidos, onde mora e trabalha, e reconhece que a imagem do país lá fora precisará ser reconstruída. "A foto é muito ruim, sobretudo na questão ambiental", admite. Mas ele acredita que, depois de todos os sacrifícios feitos nos últimos anos, o país tende a dar uma importante virada se o próximo presidente da República não se render ao populismo nem ao radicalismo.

Para o economista, apesar do quadro polarizado, com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) liderando as pesquisas, uma terceira via ainda poderá ser viável. Contudo, a grande novidade do momento é a aproximação de Lula com o ex-tucano Geraldo Alckmin, que agrada parte dos investidores. Ele garante, que, por enquanto, o mercado não está precificando as eleições, porque tanto o petista quanto o chefe do Executivo são avaliados como iguais. "O mercado não tem medo de ninguém neste momento", frisa.

Volpon não acredita que, com as eleições se aproximando, haja disposição do Congresso em aprovar reformas constitucionais, como a administrativa e a tributária. Mas ele vê o quadro fiscal melhorando, saindo de um deficit estrutural de mais de 4% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2014, para 0,5%. Por isso, avalia que, se o próximo presidente souber administrar essa vantagem, fazendo um bom programa econômico, incluindo as reformas, haverá espaço para o Brasil voltar a crescer.

"As pessoas não percebem essa melhora estrutural das contas públicas devido ao pessimismo exagerado no país, porque os últimos 11 anos foram muito ruins, afinal, o quadro fiscal começou a desandar em 2011. Agora, estamos na boca do gol. Quem for o próximo presidente tem que, simplesmente, chutar a bola para dentro", afirma Volpon, que se define como "um radical de centro".

O estrategista da WHG e sua equipe ainda preveem um cenário de recessão para o Brasil, com quedas no PIB neste ano e no próximo de 0,3% e 0,5%, respectivamente, longe, portanto, do observado em 2015 e 2016. Sendo assim, o debate econômico na campanha eleitoral, na opinião dele, precisará ser focado na recuperação da economia. "Já pagamos o preço. O deficit estrutural está perto de zero. Não vamos morrer na praia por desespero", afirma.

Será preciso, porém, ter em mente que o combate à inflação é uma prioridade de qualquer governo. O economista lembra que a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que não conseguiu evitar carestia de dois dígitos, e o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que está convivendo com a maior inflação desde 1982, de 7,5% ao ano, perceberam isso. "Biden tem enfrentado vários problemas. Ele descobriu aquilo que Dilma descobriu e Bolsonaro, agora, talvez esteja começando a descobrir, que é o seguinte: inflação não ganha voto", resume. A seguir os principais trechos da entrevista de Volpon ao Correio.

Estamos em mais um ano de eleição. Como os investidores estão vendo o Brasil? Dá para ter confiança no país?

Para o investidor internacional, dado um cenário global de juros mais altos e inflação mais elevada, em que o ajuste de juros nos Estados Unidos deve ser relativamente gradual, é, até certo ponto, surpreendente que esse quadro esteja ajudando os mercados brasileiros — a Bolsa está em alta e o dólar, em baixa. Neste momento, o investidor está procurando um tipo de empresa que é mais representado na nossa Bolsa. São companhias cujas ações estão sendo transacionadas a preços relativamente baixos, não são caras frente ao lucro que têm. Não têm uma taxa de crescimento muito acelerada, mas têm boa rentabilidade, diferentemente, por exemplo, da Bolsa norte-americana, onde há muitas empresas que não pagam dividendos, têm um crescimento de lucro acelerado e são associadas, por exemplo, ao setor de tecnologia. O mercado, hoje, em função da mudança de postura do Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano), tem procurado empresas mais do setor de commodities e do setor bancário. E o Brasil tem boas companhias nesses setores. Por isso, em janeiro, o país teve uma entrada recorde de investimento na Bovespa de mais de R$ 34 bilhões, um recorde para o mês. Tivemos, com isso, uma coisa relativamente rara: a Bolsa brasileira subiu no mês de janeiro e a norte-americana caiu. Normalmente, a nossa Bolsa segue a norte-americana.

Esse movimento é consistente?

Esse movimento, talvez, não seja pontual, porque vamos estar em um processo de alta de juros nos Estados Unidos com inflação muito alta, de 7,5% ao ano, que é um patamar extremamente alto para a economia norte-americana. É a maior em 40 anos. Então, a chave desse raciocínio é a velocidade do aumento de juros do Fed. O mercado, hoje, ainda acredita em um processo muito gradual, e isso é bom para o Brasil. O risco é o Fed acelerar muito o aumento de juros. A aposta ainda é de um ajuste para 2,5% ao ano até 2023. Se isso se confirmar, não diria que é um cenário perigoso para o Brasil. Mas se 2,5% virar 4%, aí, complica. Por incrível que pareça, essa mudança de postura do Fed, de querer subir mais os juros, em um primeiro momento, ajudou o mercado brasileiro. Confesso que não tinha isso no meu cenário. Isso dá um vento favorável para a nossa economia. Vamos dizer, o vetor externo favorável no primeiro momento.

Isso acabou derrubando o dólar, o que é bom para a inflação.

Quando os recursos estrangeiros entram no Brasil, o real se valoriza, com o dólar ficando entre R$ 5,20, R$ 5,25, podendo até baixar mais. Isso acaba ajudando na questão da inflação e tem aqueles efeitos secundários positivos, permitindo ao Banco Central, em algum momento, cortar os juros mais rapidamente. O BC ainda está muito preocupado com a inflação, e a última decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) veio com um discurso mais duro na ata (na terça-feira passada) do que o esperado, fazendo o mercado aumentar as previsões de juros, mais uma vez. A mediana estava em 11,75% e, agora, deve ir para 12,25%. Talvez outro processo, espero eu, que pode dar um segundo vento, agora mais doméstico, é a inflação começar a ceder com os juros mais altos. Aí o mercado começa a precificar um corte de juros mais rápido, pelo menos, essa é a minha expectativa, que pode ajudar a economia. Mas não é algo que esteja precificado no mercado, neste momento.

Quais são as suas expectativas para a inflação?

Nossos economistas ainda estão trabalhando com IPCA de 5% em 2022. Mas acho que tem risco para baixo. No segundo semestre, podemos ter um processo de queda da inflação muito mais rápido do que o mercado está esperando neste momento.

Por quê?

Em parte, por causa do câmbio. O mercado ainda não está contabilizando essa queda do dólar como sendo algo permanente, porque se queimou muitas vezes. Lembrem que, no ano passado, o dólar chegou perto de R$ 5 e até ficou abaixo. Mas disparou (com as polêmicas do presidente Jair Bolsonaro) no Sete de Setembro, (de ameaças à democracia), e em outros eventos, como a questão do teto de gastos em outubro (com a PEC dos Precatórios, que acabou com a credibilidade do único marco fiscal vigente), e voltou para o patamar de R$ 5,60 e R$ 5,70. O mercado está um pouco mais cuidadoso. Sabe aquela coisa: errei uma vez, a culpa é sua; errei duas vezes, a culpa é minha. O mercado está um pouco cético e não quer precificar essa valorização do real nas suas projeções. A maioria ainda está com projeção para o dólar entre R$ 5,50 e R$ 5,60.

Mas agora, de qualquer forma, estamos em um ano eleitoral. Esse movimento mais positivo do mercado já está precificando as eleições ou ainda não?

O quadro eleitoral hoje tem duas candidaturas competitivas. E ainda não há uma terceira via que parece ser viável neste momento, mas isso pode mudar. O mercado está vendo qualquer um desses dois resultados relativamente como iguais. E não mostra, neste momento, uma grande preferência ou um grande medo também. Você pode ver por dois ângulos: não tem medo de nenhuma dessas duas candidaturas e parece não ter uma enorme preferência. Por isso, não parece ser algo que esteja fazendo preço. Não dá para ficar apostando muito no resultado nove meses antes do pleito. E, também, não dá para saber a eventual política econômica. Na medida em que o ano for caminhando, o mercado vai começar a fazer mais preço, começa a ficar mais tangível. Ao que me parece, frente à liderança e ao favoritismo, pelo menos do Lula, isso não está fazendo muito preço negativamente, o que seria talvez alguma coisa que muitos esperariam.

Sabe-se, hoje, o que é Bolsonaro no governo e o que é a política econômica de Paulo Guedes. Há algum medo em relação a Lula do mercado?

Eu não vejo. É o que eu estou dizendo. O mercado não está mostrando grande preferência. O que parece estar fazendo preço, neste momento, são mais fatores externos, como a questão do Fed e essa entrada de dinheiro nos nossos mercados. Agora, o mercado não gosta muito dessas PECs dos Combustíveis (há uma na Câmara e outra no Senado).

Como não gostava também da PEC dos Precatórios…

Exatamente. O mercado vê isso (as PECs) como algo que tem um custo fiscal muito alto. Não acredita que o suposto excesso de arrecadação (alardeado por Guedes) seja permanente. De fato, a foto fiscal atual é muito boa (devido ao superavit primário nas contas do setor público consolidado em 2021), mas o mercado não acredita que isso é para sempre. Então, não é para ficar gastando dinheiro, porque, naturalmente, a previsão do mercado é de que os deficits (das contas públicas) voltarão a se manifestar. Tem um discurso de que há um excesso de arrecadação. Tem alguns falando isso para gastar. O mercado acredita que não, que é algo pontual e não estrutural. Mas, apesar de o mercado não gostar das PECs dos Combustíveis, o dólar continua caindo. Se o fator externo positivo não existisse, como no fim do ano passado, com qualquer notícia fiscal negativa, o dólar dispararia.

Se olharmos para a geopolítica, com tensões globais por conta da crise entre Rússia e Ucrânia, isso não preocupa o mercado?

Isso ainda não está fazendo preço. Obviamente, o mercado está monitorando a questão da Ucrânia, mas não é isso que está precificando o mercado. É importante entender que esse quadro pode mudar radicalmente de um momento para outro. Se houver, de fato, uma invasão da Ucrânia, vai fazer preço. Mas, neste momento, não. Notícias fiscais não muito animadoras, frente a uma questão geopolítica também potencialmente complicada, podem mudar tudo. Agora, o Brasil não foi o único país que se beneficiou dos ventos favoráveis provocados pelo Banco Central dos Estados Unidos. Bolsas de vários países da América Latina também subiram no mês de janeiro: Peru, Chile, Colômbia… Empresas do setor de commodities, que estavam operando com preços relativamente baixos, estão baratas, pagam dividendos, e o investidor está procurando esse pagamento de dividendos. O setor bancário também está operando muito barato. De novo, foi bom para o Brasil, mas não foi uma história explicitamente brasileira, porque afetou outros países também. Vale lembrar que 65% da Bovespa se encaixam nesse grupo de ações que, agora, entraram na moda e no gosto do investidor global.

Esse tipo de investidor, no entanto, é arisco, e pode sair do Brasil a qualquer momento.

De fato, ele está ciente de que a economia brasileira terá um crescimento muito baixo, que a inflação está alta, os juros subiram. O investidor não está ignorando isso, está diferenciando a foto do filme. A foto talvez seja negativa. O ano de 2022 pode ser recessivo, de inflação firme e de juros indo para cima de 12%. Essa foto é ruim. Mas, quando o investidor olha para frente e vê que, provavelmente, a inflação deve cair e que, em algum momento, os juros vão baixar, tem essa entrada de capital que pode ser positiva. A eleição talvez não esteja fazendo preço, podendo ser bom ou ruim, mas não sendo impeditiva de se fazer investimento. Quando o investidor olha para esse conjunto, há uma percepção de que parece que vai melhorar.

Por quê?

No Brasil, fazendo um contraponto com os Estados Unidos e, também, com a Europa, o país está no fim do ciclo de aperto monetário. E se o juro vai acabar em 12% ou 13%, eu não sei. É aquele ajuste fino de final de ciclo, que é muito difícil prever. Mas, de qualquer maneira, ninguém está prevendo que o Banco Central continue subindo os juros até o fim do ano. Vai demorar uma reunião a mais ou duas do Copom. Mas estamos no fim. E a inflação vai cair por causa desses juros altos. Já os Estados Unidos estão no começo desse processo. Por lá, a inflação está muito alta e a economia está crescendo 5%, mas vai crescer menos. Aqui, deve crescer perto de zero este ano, salvo engano. Ninguém, neste momento, está prevendo uma recessão profunda como a de 2015-2016. Vai ser, no máximo, uma recessão leve, e aí volta a ter algum crescimento econômico, até em função de uma eventual queda dos juros e da inflação. É como se nós estivéssemos no pior momento, mas isso implica que, batendo no fundo, deve ter uma melhora. Os ativos brasileiros estão mais baratos quando olhamos para a Bolsa e para o câmbio. É um filme que está melhorando. A foto está feia, mas o filme tende a melhorar com o mercado barato. O mercado norte-americano é quase um espelho. É um filme que tende a piorar com o início do aperto monetário, com o mercado extremamente caro. Aí, o investidor global olha para isso. É verdade que ele acabou carregando o mercado dos EUA para cima e empurrando o mercado brasileiro e outros emergentes para baixo. Agora, o gringo está aqui falando que foi demais e faz um movimento ao contrário: o mercado norte-americano vai ficar um pouco mais barato e o mercado brasileiro vai ficar um pouco mais caro, e vai ter um pouco mais de fluxo.

Quando, efetivamente, as eleições vão entrar no radar dos investidores?

Primeiro, acho que tem que definir as candidaturas. Obviamente, a grande novidade tem sido uma articulação de uma possível candidatura de Geraldo Alckmin como vice de Lula. É uma surpresa, ninguém estava pensando nisso como possibilidade, até que surgiu como novidade. Mas ainda não foi confirmada, o primeiro passo é confirmar. A partir dessas confirmações, o mercado começa a precificar mais a eleição. Eu não acredito que a eleição esteja fazendo preço, nem para um lado, nem para outro.

Na visão dos investidores, há chances de uma terceira via vigorar?

Chance sempre tem. Mas, até agora, olhando para as pesquisas, nenhuma se destacou.

Para os investidores, é melhor uma terceira via ou tanto faz?

Não quero personalizar, fulanizar. O que o mercado gostaria de ver é estabilidade. Temos passado, até em função da pandemia, por um período de muitas mudanças, de muita volatilidade na economia e na política. Então, o que se quer é mais estabilidade, um processo mais ordenado e políticas conduzidas para o crescimento econômico. Se existe uma agenda comum que deveria unir todos nós é a de que, sem crescimento econômico, ninguém vai para frente.

Sem crescimento econômico não tem inclusão social…

E, também, não tem lucro para o empresário. Ninguém ganha. Estamos naquele jogo do perde-perde. O que todos queremos é um jogo ganha-ganha. Acho que podemos discutir vários pontos de política econômica, ter vários debates, mas já está comprovado que voltamos, talvez, a pensar que tem algum consenso ao redor da ideia de que tem que ter uma certa estabilidade fiscal, tem que ter uma regra fiscal, uma âncora fiscal. Não tem que ser o teto de gastos de 2016, mas também não pode ser nada. Só porque você não gosta do teto de gastos, e eu já fiz várias críticas desde a aprovação da regra, não implica que, agora, não deve haver nenhuma regra. Quem ganhar as eleições tem todo direito de mudar a regra via caminho legislativo normal, já que o teto está na Constituição. No Brasil, a Constituição tem mudado bastante, como a gente tem visto, mas acho que tem algumas coisas consensuais. Inflação baixa é bom, ninguém está gostando de inflação de 10%. Alguma regra fiscal é bom, tem que ter uma certa âncora. O mercado financeiro e o empresariado querem ver uma certa convergência ao redor dessas pautas mínimas. É muito difícil argumentar contra elas. Tem gente que argumenta, obviamente. E quando o mercado olha, hoje, para o leque de candidatos com mínima viabilidade, vê que tem um certo consenso ao redor disso, pelo menos. Por isso, acho que o mercado não está mostrando muito favoritismo a qualquer candidatura e não está fazendo muito preço.

Mas o mercado não tem
medo de Lula?

O mercado não tem medo de ninguém neste momento.

Independentemente do resultado das eleições, em 2023, vamos ter um país muito dividido, dada a polarização que vemos hoje. O senhor está vendo isso nos EUA após a disputa entre Biden e Trump, que deixou o país rachado. Até que ponto essa divisão está atrapalhando por lá e que problemas podem se repetir no Brasil?

Nos Estados Unidos é um pouco diferente, porque tem um sistema bipartidário, basicamente. Lá, a divisão é um pouco 50% e 50% mesmo. O Brasil tem um sistema político com excesso de partidos. Biden tem enfrentado vários problemas. Ele descobriu aquilo que Dilma descobriu e que Bolsonaro talvez esteja, agora, começando a descobrir, que é o seguinte: inflação não ganha voto. Se olharmos para Biden, ele tem uma economia crescendo 5%, mercado de trabalho em pleno emprego, só que a inflação está acima de 7,5% ao ano e ele está perdendo popularidade a cada pesquisa que é divulgada. E é muito provável, pelo menos neste momento, que os democratas vão perder tanto o controle da Câmara quanto do Senado.

A inflação cobra seu preço?

Inflação não dá voto. A classe política teima a aprender que medidas que podem até aumentar o gasto temporariamente, mas que acabam gerando um impacto inflacionário negativo, são ruins para, vamos dizer, o resultado político que eles querem. Aquela coisa do teto de gastos: eles mudaram o limite para aumentar o nível de gastos (com a PEC dos Precatórios). O dólar foi lá para cima, a expectativa de inflação e a inflação subiram, o Banco Central vai ter que aumentar os juros ainda mais. É muito difícil, a meu ver, argumentar que tudo isso vai resultar em um saldo político positivo. A experiência histórica e, agora, até comparando países e falando um pouco do Biden, mostram isso: inflação não dá voto. Se você quer ser um político popular e ser reeleito, controle a inflação.

O atual Congresso está mais ajudando ou mais atrapalhando?

Acho que a pauta legislativa é diferente de uma pauta do Executivo. Quando se tem gastos vindo do Congresso, normalmente, são direcionados a uma base política, que pode ser, muitas vezes, regional. E quando o eleitor vê um gasto na sua cidade, na sua região, ele gosta e tende a associar esse gasto como sendo algo positivo ao deputado que trouxe o recurso. Mas, se esse mesmo gasto, quando generalizado, acaba tendo um impacto macroeconômico negativo, isso é associado ao presidente. Aquele mesmo eleitor gosta daquele gasto, mas a inflação está em 10% e, vamos dizer, teve o impacto negativo, o presidente perde popularidade. O que muitas vezes não se entende é que não há um alinhamento automático de interesses entre essas duas pautas. Tem que ter um agente intermediário, que pode ser o próprio presidente, pode ser o ministro da Economia, enfim, tem que ter alguém olhando para essas duas dimensões da questão e trazer um certo equilíbrio entre elas. Obviamente, ter gasto na base é importante, e é até justificável. Tem que ter hospital, ponte, mas tem que ser um gasto que não gere um efeito negativo macroeconômico que será debitado na conta do Executivo e do presidente. O eleitor olha e fala: se tem desemprego, baixo crescimento e inflação, a culpa é do presidente. O contrário também é verdade. Se tem baixa inflação, crescimento e muito emprego, o mérito é do presidente. E, quando ele olha para a cidade dele, é prefeito e deputado fazendo obra…

Por isso, gasto público tem que ser de qualidade…

Tem que ser de qualidade, tem que ser do tamanho que não bagunce a macroeconomia. E, obviamente, isso muda. Tem período em que se pode gastar mais e tem período em que se tem que gastar menos. Por exemplo, olhando os últimos 20 anos, durante o boom de commodities entre 2003 e 2010, foi um período em que se teve muito crescimento, muita receita e dava para gastar muito. O problema na passagem para o governo Dilma foi que se acreditava que aquele crescimento econômico e de receita eram permanentes. O que se descobriu no primeiro mandato da Dilma, começando em 2011, um aprendizado duro e lento, foi que aquele crescimento de 4,5% na receita tributária não era permanente. Houve uma mudança de regime, a receita caiu, mas o nível de Orçamento ficou engessado ao redor daquilo que era supostamente permanente. E muito da história entre o primeiro mandato da Dilma até hoje foi de encolher — começando por Joaquim Levy (ex-ministro da Fazenda), passando pelo teto de gastos — o Orçamento para caber dentro do crescimento econômico. A boa notícia é que houve esse encolhimento. O deficit estrutural passou de 4,5% do PIB, em 2014, e, hoje, algumas estimativas apontam para 0,5% do PIB. Então, estamos muito perto de ter o equilíbrio fiscal. Foi feito um ajuste nos últimos anos, a duras penas.

Mas esse ajuste foi feito por meio dos investimentos e não estrutural do ponto de vista de outros gastos obrigatórios…

Tudo bem, você pode questionar a qualidade, mas o crescimento do gasto teve ajuste. O congelamento dos salários dos servidores por dois anos durante a pandemia foi positivo, porque mudou a base, que ficou menor. Mas, obviamente, se partir de agora, se forem repor tudo, aí o bolo cresce e vai ser uma decisão futura que deverá ser respondida pelo próximo presidente. Se, a partir de agora, for simplesmente expandir o bolo, será negativo, porque esse deficit estrutural, que está em 0,5%, volta a ser de 1%, 2%... O que deve ser feito é tornar esse ajuste mais estrutural, com uma reforma administrativa, e não um mero congelamento de salários. E, do outro lado, (é preciso) algum tipo de ajuste na questão tributária, que pode ser, num primeiro momento e temporariamente, um aumento de impostos, obviamente, distribuindo esse tipo de carga sobre quem pode pagar mais. Não é aumentar a carga tributária em cima do pobre. É o cara do andar de cima que pode pagar mais. Mas tem que fazer uma reforma do gasto para zerar o deficit estrutural, de forma sustentável. Temos a oportunidade de tornar esse ajuste estrutural. É uma escolha. Não estamos fadados a explodir de novo.

Como assim?

Podemos jogar seis anos de sacrifício por meio de um conjunto de más decisões ou podemos consolidar esse ajuste fazendo escolhas difíceis, ajudando do lado da receita e do lado do gasto, trabalhando os dois de tal maneira a tornar a percepção disso permanente. Aí, vamos colher benefícios em termos de queda na taxa de juros, uma melhor qualidade das despesas, fazer mais investimentos, e, por aí, ter crescimento econômico. Sem crescimento econômico não há solução para nada, volta o jogo perde-perde. No primeiro ano do governo Lula, foi possível fazer ajuste fiscal e, também, gastou-se mais dinheiro, porque foi um período de fartura que acabou não sendo permanente. Sei que muita gente critica a Dilma, eu também critiquei. Mas ela realmente enfrentou a queda estrutural daquela taxa de crescimento e muitas razões internas e externas que geraram o buraco fiscal. A história do ajuste fiscal começou com ela e Joaquim Levy. Eu não compro a narrativa de que foi tudo o teto de gastos. O Levy teve uma contribuição, o Nelson Barbosa (que assumiu depois), também. Desde lá até hoje, houve um processo, com idas e vindas, de fechar esse deficit que estava em 4,5% do PIB para 0,5%. As pessoas não percebem isso, com o pessimismo exagerado no país, porque os últimos 11 anos foram muito ruins, porque o quadro começou a desandar em 2011. Agora, estamos na boca do gol. Quem for o próximo presidente tem que simplesmente chutar a bola para dentro.

Mas é possível crescer com o desarranjo fiscal contratado com PEC dos Precatórios e PEC dos Combustíveis, se for aprovada, além das pressões do funcionalismo por reajuste?

É preciso fazer a reforma tributária e uma reforma administrativa. Casa uma com a outra para ter algum aumento de receita. O funcionalismo vai ter que ter aumento, mas tem uma questão demográfica no funcionalismo. Tem muita gente se aposentando que entrou durante a expansão do serviço público com a Constituição de 1988. Agora, não se tem de repor tanta gente. Podemos ter um funcionalismo menor, mas mais produtivo, trabalhando com novas tecnologias e com mais incentivo, com ganhos de eficiência, que acaba custando menos. Quando se olha para a massa que é gasta com funcionalismo em relação ao PIB, é possível fazer uma reforma administrativa repondo as vagas dos aposentados em uma nova estrutura. Não é gastar menos com o funcionalismo, mas aumentar a produtividade do serviço público brasileiro. Se fizer isso e uma reforma tributária, você dá o chute final para o gol.

Mas que reforma tributária o senhor acha que precisa ser feita?

Acho que o caminho é uma fusão das duas propostas que estão no Congresso, a da Câmara e a do Senado, bem pensada. Elas já estão lá. E não dá para fazer uma reforma tributária na porrada. Tem que ser estudado, debatido e trazer todos os agentes relevantes.

A votação da reforma do Imposto de Renda do ministro Paulo Guedes, por exemplo, foi atropelada na Câmara…

Foi uma coisa meio maluca. Quando todo mundo atropela, é uma m… Tem que fazer uma reforma bem pensada. Se funde as duas propostas do Congresso e fecha o deficit estrutural, o país pode voltar a crescer, os juros vão cair.

Quais as suas previsões para o PIB deste ano e de 2023?

Nossos economistas, hoje, não estão precificando nada disso mais positivo que eu estou falando, porque é tudo especulativo. Não sei se haverá essa reforma administrativa. Não sei se haverá reforma tributária. Não sei quem vai ganhar a eleição. A única coisa que a gente está precificando é o efeito desse aumento de juros. Então, a gente tem, de fato, a economia caindo 0,5% em 2023, depois de recuar 0,3% neste ano. Não estamos precificando reformas, nem eleições. É como no piloto automático com Selic indo para 12%.

Por que tem tanta decepção com Bolsonaro?

Eu prefiro não responder.

Neste ano, tem espaço para alguma reforma?

Não.

E as PECs dos Combustíveis, o senhor acha que podem avançar?

Parece que algo vai sair. Tem gente no Congresso e no Executivo trabalhando para isso.

Qual é o maior desafio do
próximo presidente?

Consolidar os ganhos e sacrifícios que já foram feitos e se beneficiar. Podemos ter a fase positiva do sacrifício. Sabe aquela coisa do regime? Eu sofro, perdi peso e agora vou ter mais saúde. O país já fez muito regime. É preciso ter consciência que isso já foi feito e não demora muito. De novo, a bola está na frente do gol, Mas tem que ter um esforço final, senão a gente morre na praia. Foram 10 anos muito sacrificados. Se fizer besteira, joga tudo fora. O debate econômico deveria se nortear por isso. Estamos lá. E olhando para o leque de candidaturas, qualquer candidato que tenha essa noção, desde que faça isso, podemos ter um bom período. Mas tem que ter alguma regra fiscal, se é regra A, B ou C, isso é menos importante, desde que tenha uma regra fiscal crível. Ficar argumentando muito que não pode mudar a regra do teto e tem que manter até a morte, eu sempre fui contra isso. Pode mudar a regra, desde que seja outra que tenha um bom raciocínio. Há vários economistas falando sobre um gasto inicial em 2023. Não é o fim do mundo. Não tem nenhum problema, desde que haja uma regra que mantenha o controle dos gastos e da dívida pública. Não será o fim do mundo, mas os juros devem demorar para cair. Ou pode ter uma outra proposta de não aumentar o gasto extra e apostar na queda dos juros. Aí, você está apostando mais na política monetária do que na fiscal. É outro approach. Honestamente, sou um pouco indiferente. Vai depender muito do momento e da credibilidade da comunicação. Mas, desde que se tenha a consolidação fiscal e a priorização de reformas, o grande sacrifício que já foi feito nos levará a algo mais perene e sustentável.

O Brasil está com uma imagem muito ruim lá fora. Vai mudar?

Depende de nós.

 

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