Fed também sob pressão

Correio Braziliense
postado em 17/03/2022 00:01

Em dia de decisão de política monetária no Brasil e nos Estados Unidos, a chamada "superquarta" do mercado financeiro, o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), anunciou aumento na taxa básica de juros norte-americana. É a primeira vez que o Fed adota tal medida desde 2018.

O Fomc, comitê de política monetária do Fed, elevou os juros básicos em 0,25 ponto percentual, fazendo o intervalo da taxa ficar entre 0,25% e 0,5% ao ano. A decisão ocorreu em linha com as expectativas do mercado, mas não foi consensual.

Analistas reconhecem que, quando os juros na maior economia do planeta sobem, o fluxo de capital estrangeiro muda de direção. O resultado esperado daqui para frente é conhecido: os países emergentes deixam de ser o destino de investidores de curto prazo, e suas moedas passam a se desvalorizar.

No comunicado, o Fomc sinalizou preocupação com a disparada da inflação nos Estados Unidos. Em fevereiro, ela atingiu 7,9% no acumulado em 12 meses — o maior patamar desde janeiro de 1982 —, antes mesmo das pressões inflacionárias decorrentes da guerra na Ucrânia. Com esse cenário, Felipe Rodrigo de Oliveira, economista da MAG Investimentos, prevê os juros americanos chegando a 2% ao ano entre setembro e outubro.

"Na estratégia de 'não fazer marola', o comunicado pós-reunião do Fomc foi o mais sucinto possível", avaliou o economista-chefe do Banco Alfa, Luis Otávio de Souza Leal. "Pouco ou nada foi dito a respeito dos próximos passos da política monetária do Fed. Apenas indicou que serão necessárias novas altas e que a decisão a respeito da redução do balanço de ativos será tomada nas próximas reuniões", acrescentou.

Na avaliação de Leal, o comunicado do Fomc foi hawkish (mais agressivo na condução da política monetária), mas não pelo que disse, "mas pelo que mostrou que vai fazer". "Isso reforça a nossa projeção de juros ao final do ano em 2% e de final de ciclo em 3%", concluiu. Ele apostava alta de 0,25 ponto percentual na decisão do Fomc e alta de 1,0 ponto percentual na taxa básica da economia (Selic). "Os bancos centrais querem evitar mais agitação no mercado. Há muita volatilidade no mercado por conta da guerra e das incertezas", disse.

André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, também aposta em novas altas de juros nos EUA. "O Fed citou o conflito da Ucrânia como um motivo adicional de incerteza e a inflação corrente em alta", destacou.

Segundo ele, falta sinalização sobre o programa de redução de ativos, o tapering, o que pode deixar esse assunto "soando frouxo", fazendo os juros mais curtos dispararem. Com isso, a decisão do Fed, na avaliação dele, não agradou aos investidores e deve reforçar o sentimento de que será necessário mais altas de juros. (RH)

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