CB.Agro

Riqueza desperdiçada

Investimentos e divulgação da agricultura sustentável são chaves para o Brasil, afirma diretor da CNA

Maria Eduarda Angeli*
postado em 19/03/2022 00:01
 (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Na quarta semana do conflito entre a Rússia e Ucrânia, a questão dos fertilizantes permanece grande motivo de preocupação para o setor agro no Brasil. Em menos de um mês, houve um aumento de 52% no preço nas versões nitrogenadas. Para esta safra, o país está garantido, uma vez que os produtores já possuem esses insumos estocados.

Mas a próxima colheita — prevista para o bimestre de setembro e outubro — carrega incertezas. A guerra no Leste Europeu ameaça o fornecimento dos principais elementos usados na indústria de produtos agrícolas.

Segundo o diretor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Bruno Lucchi, o confronto russo-ucraniano impede, ainda, a definição de um cenário para o fim do ano. Segundo ele, é necessário ter mais variáveis para analisar os impactos na economia brasileira. O especialista foi o convidado de ontem do CB.Agro, programa da parceria entre o Correio e a TV Brasília.

"Nós vamos ter uma sinalização do que pode acontecer com o Brasil a partir de abril, quando o Hemisfério Norte começa a plantar. Conforme for o plantio desses países, a gente vai ver", disse. Ele ressalta que, atualmente, 90% do fertilizante consumido pelo país é importado. Lucchi entende que reduzir o nível de dependência brasileira é uma questão de "segurança nacional", pois impacta diretamente na disponibilidade de alimento para a população.

"A Rússia figura entre os principais fornecedores de fertilizantes no mundo. No caso do Brasil, de todo o volume que importamos no ano passado — em torno de 41 milhões de toneladas — 22% vieram da Rússia. Então um problema com a Rússia, que dificulta esse escoamento da produção, causa uma preocupação muito grande", nota.

O especialista lembra que o Brasil, apesar do perfil exportador, mantém no território nacional a maior parte dos alimentos produzidos. Assim, é estratégico desenvolver a indústria brasileira de forma competitiva. "Temos hoje vários eixos que precisam ser sanados. O Brasil ser autossuficiente [em termos de fertilizantes], a gente acredita que não vai ser algo que vamos buscar, porque esses outros países têm muito mais vantagens competitivas que nós", observou Lucchi.

Sustentabilidade

De acordo com o diretor técnico, "o Brasil tem condições de estar em qualquer mercado mundial, justamente porque o produtor rural brasileiro aderiu ao Código Florestal, que é nossa lei principal no setor agrícola". No entanto, o país perde competitividade porque não divulga suficientemente os sistemas de cultura utilizados pelos produtores nacionais.

"Quando eu exporto uma soja — que é uma commodity —, teoricamente o nível de proteína, as condições de umidade, são padrões internacionais. O Brasil tem um diferencial, porque ele tem uma reserva legal, uma área de preservação permanente, que é muito maior do que a de outros países", afirmou. "Então, em um grão de soja, ele agrega muito mais sustentabilidade do que qualquer outro país no mundo, só que a gente não sabe capitalizar isso", lamentou.

O especialista disse que o momento é oportuno para discutir políticas estruturantes. "E essa política do fertilizante é essencial. O plano lançado na semana passada prevê um horizonte de 30 anos. Esse período é a médio e longo prazo para se desenvolver uma série de iniciativas que nos permitam ter uma dependência em torno de 40%, 50%", estimou.

Bruno Lucchi justifica o prazo prolongado. "Não é um setor que a gente consegue trabalhar do dia para a noite. É uma data realista, em função das mudanças estruturantes que precisam ser feitas. Demanda muito investimento, estudo, e melhoria do arcabouço legal para dar segurança jurídica para o investidor."

*Estagiária sob a supervisão de Carlos Alexandre de Souza

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