Conjuntura

77% das empresas espanholas vão ampliar investimentos na América Latina

Estudo realizado pela IE University aponta o interesse crescente dos investidores nas economias latino-americanas. México, Peru e Brasil aparecem como países mais atraentes. Autoridades espanholas defendem retomada de negociações com Mercosul

Vicente Nunes*
postado em 23/03/2022 18:48 / atualizado em 23/03/2022 19:00
Juan Carlos Martínez Lázaro, professor da IE University, apresenta pesquisa sobre investimentos espanhóis na América Latina -  (crédito:  Vicente Nunes/CB)
Juan Carlos Martínez Lázaro, professor da IE University, apresenta pesquisa sobre investimentos espanhóis na América Latina - (crédito: Vicente Nunes/CB)

Enviado especial a Madri — As empresas espanholas estão mais otimistas em relação à América Latina, apesar das incertezas políticas e econômicas que sacodem a região. Pesquisa realizada pela IE University, a quarta mais importante escolas de negócios do mundo, revela que 77% das companhias com sede no país europeu pretendem ampliar os investimentos latino-americanos. No estudo anterior, realizado em 2020, antes da pandemia, esse índice era de 65%. O Brasil aparece na terceira posição entre os países mais atraentes para o capital, atrás de México e Peru. Os espanhóis só perdem para o conjunto da União Europeia em investimentos no Brasil e na América Latina.

Segundo o professor Juan Carlos Martínez Lázaro, da IE University e responsável pelo levantamento, o Brasil enfrenta um ano complicado por causa das eleições presidenciais, muito polarizadas, do freio no crescimento econômico e da elevada dívida pública, que passa dos 80% do Produto Interno Bruto (PIB). “Além das eleições que serão realizadas em outubro próximo, o Brasil se ressente do forte aumento das taxas de juros por parte do Banco Central, que, em um ano, passaram de 2% para 11,75% a fim de conter a inflação, que está em dois dígitos”, disse. No caso do México, apesar de o país ser o mais exposto ao aumento das taxas de juros nos Estados Unidos, movimento que afeta todas as economias emergentes, a perspectiva é de que o país se aproveite do avanço mais forte da atividade norte-americana.

Para o economista-chefe global do Banco Santander, Juan Cerruti, é preciso ter confiança no Brasil, que, no entender dele, está mais forte para superar choques externo e conseguiu reverter, em boa parte, os impactos negativos provocados pela pandemia do novo coronavírus. “O Brasil, que responde por 40% do PIB da América Latina, tem altíssimo potencial. E quatro setores se destacam em oportunidades de investimentos: energia, alimentos, finanças e infraestrutura, no qual os investimentos podem passar de 1,5% para 4,5% do PIB”, frisou. Ele destacou ainda que apenas cinco países do mundo conseguem reunir, hoje, tanta diversidade na economia, entre eles, está o Brasil.

O país, no entanto, precisa avançar em reformas estruturais, especialmente no caso da tributária, como forma de ampliar a competitividade e a inovação da economia. Ex-ministra de Relações Exteriores da Espanha, Trinidad Jimenez afirmou que as mudanças constitucionais devem sair do papel independentemente de quem vencer as eleições presidenciais de outubro. Atual diretora de Estratégia Global de Assuntos Públicos da Telefónica, dona da Vivo no Brasil, e presidente da Câmara de Comércio Brasil-Espanha, a executiva enfatizou que, se o país não caminhar rumo à digitalização nos próximos anos, não conseguirá ampliar a produtividade dos negócios. A empresa espanhola reinveste 40% dos lucros nas operações brasileiras.

Ministro conselheiro da Embaixada do Brasil na Espanha, Leandro Zenni afirmou que o país está preparado para oferecer um ambiente de negócios saudável para os investidores. Nos últimos anos, acrescentou, foram feitas reformas importantes como a da Previdência Social, e aprovados projetos que se arrastavam há tempos, como o que deu independência formal ao Banco Central. Além disso, disse que o Brasil enfrentou a pandemia com programas robustos na área social e, além de comprar vacinas mais do que suficientes para enfrentar a covid-19, conseguiu a transferência de tecnologia para a produção local de imunizantes. “Os investidores estão cientes dos enormes potenciais que o Brasil oferece”, emendou.

Mercosul

Ministro para a Iberoamérica e Caribe, Juan Fernández Trigo disse que a Espanha e seus empresários devem pressionar a União Europeia para que retome as discussões sobre acordos comerciais como os com o Mercosul, que reúne Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, e aqueles que envolvem México e Chile. O atraso nessas negociações mostra, segundo ele, que a Europa não dá o devido valor à América Latina, que agrega quase 800 bilhões de euros em investimentos europeus, mais do que todos os ativos detidos na China, no Japão e na Índia. “Tem de se sentar e negociar. Os motivos para a paralisação são difíceis de explicar”, acrescentou. Ele criticou ainda o fato de, há sete anos, não haver uma reunião de Cúpula entre os governos da Europa e da América Latina.

Na avaliação de Maria Jimenez Duran Sanin, diretora do CAF, o Banco de Desenvolvimento da América Latina, os países latinos detêm características muito importantes para o desenvolvimento sustentável, que é defendido pela Europa. Tem a matriz energética mais limpa do mundo, possui reservas de minerais considerados fundamentais para o desenvolvimento das tecnologias do futuro, como baterias, mobilidade elétrica e semicondutores. “A América Latina concentra 67% das reservas mundiais de lítio, 39% das de cobre, 32% das de lítio e 25% das de estanho. Essa combinação de oportunidades evidencia as prioridades de investimentos e de desenvolvimento na região”, assinalou.

Não são apenas as grandes companhias que estão dispostas a abrir o caixa para incrementar os negócios na América Latina. O professor Lázaro, da IE University, ressaltou que, entre as pequenas e médias empresas, o apetite é ainda maior: 79% delas veem espaço para ampliar investimentos na região em 2022. Ele frisou que, no geral, 86% das firmas espanholas esperam aumento no faturamento nos negócios latinos nos próximos três anos. Esse indicador é o maior entre todas as outras regiões. Nos Estados Unidos e no Canadá, os investimentos espanhóis devem crescer 77% no mesmo período. Na União Europeia, 67%. Na Ásia, 44% e, na África, 40%. Mais: a despeito da invasão da Ucrânia pela Rússia e de todos os seus reflexos negativos para o mundo, 51% dos empresários espanhóis acreditam que a América Latina, grande produtora de commodities, sairá melhor desta crise. (* O jornalista viajou a convite da IE University)

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