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Na Petrobras, general sai e economista entra

Após ser "fritado" devido ao reajuste dos derivados de petróleo, Joaquim Silva e Luna será trocado por especialista do setor

iNGRID SOARES MICHELLE PORTELA CRISTIANE NOBERTO
postado em 29/03/2022 00:01
 (crédito: Arquivo pessoal)
(crédito: Arquivo pessoal)

Preocupado com os prejuízos que a alta dos combustíveis pode causar no projeto da reeleição, o presidente Jair Bolsonaro (PL) decidiu, ontem, tirar o general Joaquim Silva e Luna do comando da empresa. Depois de um lento processo de fritura, o militar cederá o cargo ao economista Adriano Pires, atual diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, ex-assessor na Agência Nacional de Petróleo (ANP).

No Palácio do Planalto, não se escondia mais o incômodo causado pela gestão de Luna e o impacto que o último aumento dos combustíveis causaria na inflação, ao acelerá-la — mais um fator de irritação do eleitor, já incomodado com o preço cobrado na bomba. O temor com a duração da invasão russa da Ucrânia deixa esse cenário ainda mais nebuloso.

Luna deixa o comando a poucos dias de completar um ano à frente na Petrobras, para onde foi levado para substituir Roberto Castello Branco — também pressionado pelo Palácio do Planalto, em 2021, a intervir no preço do diesel devido à possibilidade de os caminhoneiros, categoria fiel a Bolsonaro, cruzarem os braços. A ideia do presidente era colocar mais um militar em um posto-chave. Ele acreditava que Luna conseguiria trazer a Petras na rédea curta, descolando-a da política de preços do mercado internacional.

O general conseguiu, em parte, cumprir o que pretendia Bolsonaro. Passou a represar os reajustes, porém, o mais recente — que entrou em vigor em 11 de março — colocou Luna na alça de mira do presidente, do Centrão e da ala política do governo. De nada adiantou o vice-presidente Hamilton Mourão afirmar que o colega de força "como bom nordestino aguenta a pressão". Como não saía, foi "saído" por Bolsonaro.

Irritação

A pressão do presidente sobre Luna vem há vários dias. Num dos momentos de maior irritação, acusou a estatal de cometer um "crime" contra a população ao não ter esperado um dia para realizar o reajuste dos combustíveis — que classificou de "impagável". Bolsonaro disse, ainda, que a "Petrobras não colabora com nada".

"Por um dia, (a empresa) cometeu esse crime contra a população desse aumento absurdo. Isso não é interferir na Petrobras, na ação governamental. É apenas bom senso. Poderiam esperar", cobrou.

A ofensiva continuou intensa. Para o presidente, a Petrobras "poderia ser privatizada hoje" para "ficar livre do problema". Embora dissesse para seus apoiadores em comícios e na saída do Palácio da Alvorada que não tinha ingerência sobre a gestão da estatal, classificou a companhia de "Petrobras Futebol Clube" — numa alusão de que pensa apenas nela, sem preocupação com o social.

Ajuda de Lira

Bolsonaro não estava sozinho na pressão sobre Luna e a Petrobras. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), juntou-se no esforço de desestabilizar o general ao endossar as críticas contra a escalada do preço dos combustíveis. A saída de Luna, porém, só deverá ser confirmada depois da Assembleia Geral Ordinária da empresa, em 13 de abril.

Ontem, numa reunião de Bolsonaro com o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, e os comandantes das três Forças Armadas, no Palácio do Planalto, o destino de Luna parecia selado. Eles retiraram o apoio ao general devido aos aumentos nos combustíveis e à forma com que o presidente da estatal respondeu publicamente ao presidente à época do anúncio da alta nos preços — que considerara imprópria.

Às 16h44, logo após o anúncio da saída de Luna, as ações da Petrobras chegaram à mínima do dia, com 33,81 pontos. Até o fechamento, às 17h15, se recuperou e terminou o dia com 34,08 pontos — ainda assim o desempenho da empresa foi destaque negativo.

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