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Qual é o futuro dos Brics após guerra da Ucrânia - e como Brasil se equilibra no bloco?

O grupo formado por Rússia, Índia, Brasil, China e África do Sul prometia ser nova locomotiva econômica no sistema internacional

Mariana Sanches - @mariana_sanches - Da BBC News Brasil em Washington
postado em 05/04/2022 08:28
Bandeiras dos países que compõem os BRICS
Marcelo Camargo/Agência Brasil
O bloco formado por Rússia, Índia, Brasil, China e África do Sul prometia ser nova locomotiva econômica no sistema internacional

Quinze anos depois de ser criado, o bloco de países emergentes formado por Brasil, Rússia, China, Índia e, mais tarde, África do Sul, e conhecido pela sigla Brics, está numa encruzilhada.

A Guerra da Ucrânia, iniciada por um de seus cinco membros, pode forçar o grupo a cumprir um dos destinos que analistas internacionais apontam como o futuro da instituição: de um lado, virar um "bloco zumbi", sem impactos práticos para seus membros; de outro, se fortalecer a ponto de representar uma força alternativa ou antagonista a grupos dos países ricos como o G7 (composto por Canadá, França, Alemanha, Japão, Reino Unido, Itália e EUA).

Especialistas em relações internacionais ouvidos pela BBC News Brasil se dividem sobre qual será o destino dos Brics mais de um mês após os tanques russos adentrarem as fronteiras com a Ucrânia, em uma guerra que já gerou milhares de mortos e mais de 4 milhões de refugiados na Europa.

"Instituições não somem e por isso os Brics devem seguir funcionando, mas com pouca relevância em termos de definições de posicionamentos e de peso geopolítico. O bloco flerta com a condição de zumbi, não há coesão ideológica e seus membros devem seguir com planos independentes paralelamente ao bloco", afirmou à BBC News Brasil Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial e membro do Policy Center for The New South, que acompanhou a formação e o desenvolvimento dos Brics.

Já Manjari Chatterjee Miller, pesquisadora sênior para Índia, Paquistão e Sul da Ásia do Council on Foreign Relations, discorda do prognóstico de Canuto. Segundo ela, nos quase 16 anos de existência, os Brics permitiram a seus membros compartilhar informação (não só econômica, mas estratégica, como dados de segurança) e tirar do papel planos compartilhados, como a criação do banco do bloco, o New Development Bank (NDB).

O NDB, composto por cotas de 20% de cada um dos países membros, financia projetos em países emergentes a juros mais baixos e em moeda local, uma forma de proteger as economias desses países das oscilações do dólar.

No começo de março, o banco informou que, por decisão "técnica", suspendeu as operações com a Rússia, depois que parte significativa do sistema bancário russo foi alvo de sanções e de exclusão do sistema internacional de transações financeiras, o Swift.

"Tudo isso foi feito em um espaço que excluía países ocidentais e os Estados Unidos. E foi muito importante para todos os seus membros porque fomentou a cooperação e permitiu a liderança. Duvido que veremos uma desintegração do Brics em breve, mesmo que haja bloqueios e recuos pontuais atualmente, como no caso do NDB, que suspendeu todas as novas transações na Rússia por causa da crise na Ucrânia", disse Manjari à BBC News Brasil.

BRICS: uma promessa não cumprida?

O termo Bric foi cunhado em 2001 pelo economista-chefe do banco Goldman Sachs, Jim O'Neil, como uma categoria analítica que olhava para Brasil, Rússia, China e Índia como países emergentes que poderiam se tornar, dado seu então crescimento acelerado, um novo eixo de governança econômica do mundo.

Em 2006, o conceito ganhou vida fora da análise econômica quando o presidente russo Vladimir Putin convidou seus colegas do Brasil, da China e da Índia, a viabilizar a existência do grupo, em uma conversa inicial entre diplomatas à margem da Assembleia Geral da ONU, quase 16 anos atrás. O primeiro encontro no nível mais alto do grupo aconteceria só em 2009. E a África do Sul, não prevista no modelo de O'Neil, chegaria apenas 4 anos mais tarde, como a representante do continente africano.

"A vocação primordial dos Brics era funcionar como uma alavanca para os interesses comuns dos membros, aumentar o peso deles nas instituições multilaterais", afirma Canuto, que em 2010 publicou o livro "The day after tomorrow", em que sugeria que poderia haver uma "troca de locomotivas na economia global", já que a importância dos emergentes naquele momento era muito maior do que havia sido no fim dos anos 1980 e 1990, o que deveria provocar mudanças na maneira como as decisões geopolíticas eram tomadas. Entre 2003 e 2007, por exemplo, o crescimento de Brasil, China, Rússia e Índia representou 65% da expansão do PIB mundial.

O próprio Canuto, no entanto, nota que o "entusiasmo" mostrou seus limites. "Os Brics nunca tiveram uma real integração, estão longe de concordar em muita coisa e de levar em conta o posicionamento dos pares nas decisões, como faz o G7", diz o economista, para quem o bloco se mostrou pouco "ambicioso".

Além disso, o próprio ritmo de crescimento dos membros se mostrou intensamente variado, o que torna difícil colocá-los em patamares semelhantes. Enquanto em 2000 o PIB da China era apenas o dobro do que o da segunda maior economia do bloco, na época o Brasil, em 2020 a economia chinesa se mostrou 6 vezes maior do que o segundo colocado no grupo, a Índia (o Brasil foi o quarto maior, apenas à frente da África do Sul).

Jim O'Neill
Cortesia Jim O'Neill
O economista Jim O'Neill, que cunhou a sigla Bric, disse que a China foi o único país no bloco que consistentemente exerceu todo o potencial econômico que ele vislumbrara em 2001

Em um artigo escrito pelo próprio Jim O'Neil em 2021, quando o termo que ele criou completou 20 anos, e publicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), o economista afirma que a China foi o único país no bloco que consistentemente exerceu todo o potencial econômico que ele vislumbrara em 2001. Já Brasil e Rússia, além da África do Sul, enfrentaram recessões nos anos 2010.

"A segunda década deste século foi um grande contraste com a primeira década, que para todos os quatro países (Brasil, Rússia, China, Índia) se mostrou ainda melhor do que nos cenários que projetei em 2001. Embora a Índia tenha decepcionado notavelmente nos últimos anos, está se desenvolvendo amplamente ao longo do caminho que imaginei. Tanto para o Brasil quanto para a Rússia, no entanto, o desempenho econômico de 2010 a 2020 foi muito decepcionante, o que ocasionalmente me levou a brincar que talvez eu devesse ter chamado os 'Brics' de 'ICs'", escreveu O'Neil.

Para ele, o Brasil e a Rússia sofreram com o que o economista chama de "maldição das commodities", ou seja, ficaram muito dependentes de alguns poucos produtos essenciais e vulneráveis à flutuação do mercado internacional desses itens. Ambos, segundo ele, precisariam diversificar mais a economia e expandir a participação do setor privado nos negócios.

Os RICs e o fim do G20

Se do ponto de vista econômico os BRICS não mostraram estar no mesmo ritmo, do ponto de vista geopolítico, o peso e a importância desses países, além de sua conexão, também não foi consistente ao longo do tempo. Mas esse é um cenário que a Guerra da Ucrânia pode alterar profundamente.

"Há aí uma oportunidade pra reativação do bloco, se é que ele estava dormente. É um bloco anti-hegemonia por princípio, revisionista e reformista da ordem mundial estabelecida no pós-guerra fria. Nesse sentido, goste-se ou não, o bloco tende a ganhar com a guerra da Ucrânia", afirma Vinícius Rodrigues Vieira, professor de Relações Internacionais da FAAP.

Vieira nota que, enquanto o G7 mostrou coesão e musculatura na crise da Ucrânia (impondo sanções em conjunto à Rússia e realizando reuniões semanais desde o início da guerra), o G20, seu antagonista que incluía países emergentes e nações fora do eixo Europa-EUA deve perder condições práticas de operar. Em resposta, países como China, Índia e Rússia procurarão acelerar sua independência em relação ao dólar e fortalecer seus posicionamentos regionais e em blocos multilaterais, processos iniciados antes da guerra da Ucrânia.

"O G7 acena com a exclusão da Rússia do G20, os Brics já disseram que não concordam com isso, mas na prática é impossível imaginar os líderes da Alemanha e dos EUA apertando a mão e posando para foto ao lado do Putin, a quem (o presidente americano Joe) Biden chamou de "criminoso de guerra". Então o mais provável é que o G20 deixe de funcionar, de ter reuniões. É nesse vácuo que os Brics passam a se tornar uma instância multilateral alternativa importante", afirma Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas.

O chanceler russo Sergey Lavrov (segundo da esquerda para a direita) e colegas diplomatas dos BRICS em recente reunião
Divulgação
O chanceler russo Sergey Lavrov (segundo da esquerda para a direita) e colegas diplomatas dos BRICS em recente reunião

Há duas semanas, o Ministério de Relações Internacionais russo postou uma foto em suas redes sociais na qual o chanceler Sergey Lavrov, alvo de sanções da Europa Ocidental, EUA e outros países, posava ao lado dos embaixadores dos demais quatro países dos Brics. A mensagem por trás da postagem, avalia Stuenkel, era mostrar que a Rússia não está isolada do mundo, como gostariam os EUA e a Europa Ocidental.

E não só a Rússia está interessada em investir nesse espaço. A China, que disputa com os EUA a hegemonia econômica mundial na última década, tenta construir um polo alternativo de poder geopolítico.

"Brasil e África do Sul, mergulhada em crise doméstica, perderam muita relevância político-estratégica. O que se impõe agora é uma aproximação dos RICs - Rússia, Índia e China - que até fizeram uma cúpula à parte depois da reunião dos Brics em 2019. São 3 países que lidam com uma realidade geopolítica mais específica e mais grave", afirma Guilherme Casarões, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas.

Casarões lembra que nem entre esses três atores internacionais é possível falar em harmonia ampla. Embora a Rússia tenha com a China uma relação que os países descreveram recentemente como uma "amizade sem limites", e com a Índia uma complementaridade econômica, com o comércio de combustível e armas, entre China e Índia, a situação é mais tensa. Isso porque os dois países travam há décadas uma disputa territorial e fronteiriça, na região da Cordilheira do Himalaia. E também porque a Índia questiona o protagonismo dado pela China ao seu rival, o Paquistão, na chamada nova rota da seda, o projeto econômico internacional de Pequim.

Apesar dessas diferenças, no entanto, China e Índia parecem dispostas a manter os Brics como um espaço multilateral.

"Todos os três grandes players do Brics - China, Índia e Rússia - têm fortes incentivos para manter o Brics funcional e relevante. Todos esses países têm diferenças entre si, e a instituição dos Brics oferece uma via de cooperação. No mínimo, a crise na Ucrânia tornou ainda mais importante manter o Brics relevante. A China, por exemplo, que sedia a cúpula do Brics este ano, quer a participação da Índia na cúpula. Os chineses veem a Índia compartilhando posição semelhante sobre a Ucrânia (ambos se recusaram a condenar publicamente a Rússia), e o bloco é um espaço que inclui a Índia e exclui os Estados Unidos. Para a Rússia, o Brics é uma instituição legitimadora em um momento em que o país se tornou um pária internacional em muitos quadrantes. Para a Índia, os Brics mantém canais abertos com a China e tem o efeito simultâneo de mostrar à Rússia que não precisa fazer negócios apenas com a China", afirma Manjari Chatterjee Miller.

O equilibrista Brasil

Da esquerda para a direita os líderes de China, Rússia, Brasil, Índia e África do Sul em reunião dos Brics em 2019
Alan Santos/ PR
Da esquerda para a direita, os líderes de China, Rússia, Brasil, Índia e África do Sul em reunião dos Brics em 2019

O posicionamento do Brasil em relação à crise da Ucrânia é uma boa síntese do equilibrismo que o país terá que adotar para navegar entre tantos parceiros comerciais fundamentais, como China, Índia e EUA, sem que essas relações tragam custos ao país.

O Brasil foi o único dos membros dos Brics a votar pela condenação das atitudes da Rússia em relação à Ucrânia, tanto no Conselho de Segurança quanto na Assembleia Geral da ONU. A própria Rússia vetou a sua admoestação e os demais países do bloco se abstiveram. O presidente brasileiro, no entanto, deu diversas declarações favoráveis a Rússia e o diplomatas do país discursaram contra as sanções aos russos.

"O que os brasileiros fizeram foi manter uma ambiguidade que pudesse agradar a todos. Fez o gesto para os americanos na ONU, mas também garantiu apoio aos russos contra as sanções. Foi o mesmo quando Putin anexou a Crimeia em 2014 e a (então presidente) Dilma (Rousseff) se recusou a condenar Putin. O posicionamento não era um alinhamento com os russos, mas uma sinalização de que essa guerra não é nossa", afirma Stuenkel.

Dentre os membros do bloco, o Brasil é o que parece ter menores condições de romper ou perturbar a relação com qualquer um dos lados da disputa. Se, por um lado, a China é o maior parceiro comercial do Brasil, por outro, os EUA são o segundo.

Manter esse fino equilíbrio agora, no entanto, pode ser ainda mais difícil do que já foi no passado. Segundo Stuenkel, entre diplomatas europeus, o comportamento brasileiro hoje é visto como pró-Rússia e essa percepção pode ser usada para dificultar as relações do Brasil no exterior, já abaladas recentemente.

Os americanos, por exemplo, ameaçaram sanções à China se Pequim aceitar enviar socorro financeiro ou armamentício a Moscou, algo que os chineses negam que farão. A Índia anunciou que seguiria comprando petróleo russo, mais barato dadas as sanções de dezenas de países ao produto. Em resposta, a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse que o movimento colocaria a maior democracia do mundo "no lado errado da História", mesma acusação feita por ela ao Brasil quando o presidente brasileiro Jair Bolsonaro expressou "solidariedade" aos russos em uma visita a Moscou, em fevereiro.

"O Brasil terá que fazer um esforço político real para transformar os Brics em um bloco viável sem necessariamente focar nas questões geopolíticas, que realmente dividem esse grupo de maneira incontornável", afirma Casarões.


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