Renda

Sob Bolsonaro, salário mínimo encolhe

Tainá Andrade
postado em 10/05/2022 00:01

"No final do mês, não tem quase nada. Está muito difícil para sobreviver hoje", afirma Rosângela Camilo, 44 anos, moradora de Brazlândia e funcionária de serviços gerais que desembarca todos os dias, ainda de madrugada, na Rodoviária do Plano Piloto para trabalhar.

A queixa de Rosângela retrata o achatamento do salário mínimo no governo Bolsonaro. Estudo divulgado pela corretora Tullet Prebon Brasil indica que o salário mínimo retrocedeu de R$ 1.213,84 em 2018 para R$ 1.193,37 em 2022, levando-se em consideração o Índice Nacional de Preços do Consumidor Amplo (IPCA) de 6,45% para este ano. Caso a projeção inflacionária aumente, a perda do salário mínimo será maior.

Com esses números, o governo Bolsonaro será o primeiro a ter a maior taxa de desvalorização do salário mínimo brasileiro desde a criação do Plano Real, em 1994. "A queda resulta do ajuste fiscal, que limitou a correção nominal à inflação passada, mais a aceleração na inflação. Da ótica das contas fiscais da União, a perda retratada em nossa simulação para o mínimo estende-se, em realidade, a todos os benefícios e pagamentos corrigidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) — toda a folha da previdência, abono, Loas (Benefício de Prestação Continuada para idosos e pessoas com deficiência de baixa renda)", afirma o relatório.

"O poder de compra da população diminuiu, ou seja, com o mesmo valor em dinheiro, o brasileiro consegue comprar menos produtos. Isso afeta diretamente a população com renda mais baixa, já que a inflação age sobre os bens e serviços. Por isso, chamamos a inflação de imposto dos pobres", ressaltou Fábio Louzada, economista especializado em gestão financeira e fundador da escola Eu me banco.

Rosângela tem sentido na pele. "Hoje em dia a gente trabalha praticamente para comer, pagar água, luz e gás. Comer mal, porque tudo está muito alto", lamentou a funcionária de serviços gerais.

Para Débora Messemberg, professora de sociologia na Universidade de Brasília (UnB), a crise econômica agrava a deficiência alimentar e o retorno de brasileiros para a linha da pobreza. "Há um discurso no Brasil de caridade e pouco de uma discussão filantrópica, no sentido de dar condições materiais para que as pessoas possam de fato ter o melhor salário ou associativismo para conquistar direitos ou salários mais dignos. Isso é pouco discutido na sociedade brasileira, principalmente entre os mais pobres, que têm menos potencialidades de se organizarem. Então, hoje em dia ter um emprego já é uma sorte", explicou.

Diferentemente de Rosângela, Alessando Furtado, 47 anos, não viu o poder aquisitivo diminuir para se alimentar. "Geralmente é a feira pra dentro de casa, só que como eu vivo sozinho, no meu caso, o que aperta bastante são as contas de água, luz e aluguel. Mesmo que não tenha contrato, os donos de barraco estão aproveitando o fato para seguir no embalo para aumentar também", relatou. O homem, que trabalha como carpinteiro, mora em Lago Azul (GO).

Apesar disso, ele isenta a responsabilidade do governo Bolsonaro. "As coisas vem aumentando, mas não por conta dele (Bolsonaro)", justificou.

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