INFLAÇÃO

Inflação corrói poder de compra das famílias e atinge países ricos e pobres

Levantamento mostra que 43% das nações do planeta registraram carestia acima de dois dígitos em 12 meses até outubro

O mundo todo tem sofrido com pressões inflacionárias persistentes, que corroem o poder de compra das famílias de forma generalizada nos países ricos e pobres. Levantamento da publicação Visual Capitalist feito com base nos dados do site Trading Economics mostra que 43% dos países registraram inflação acima de dois dígitos no acumulado em 12 meses até outubro. Em alguns casos, o índice do custo de vida chega a três dígitos, como o Zimbábue, que lidera a lista com a maior inflação do mundo, de 263% ao ano. Líbano e Venezuela aparecem em seguida, completando o pódio do ranking global, com inflação de 162% e 156%, respectivamente.

A guerra entre Rússia e Ucrânia e as sanções econômicas impostas pelas principais economias do mundo aos russos ligaram o alerta para mais uma crise mundial. O impacto mais imediato do conflito foi nos preços das commodities. Petróleo e alguns alimentos, como trigo, milho e proteínas, iniciaram um movimento de forte alta após o início da ofensiva russa.

"Devemos lembrar que, junto com o início da guerra, houve medidas de retaliação que afetaram principalmente a principal mercadoria de exportação da Rússia, que são os hidrocarbonetos, por exemplo, o petróleo e o gás natural. Com a redução das exportações, houve, além disso tudo, um aumento expressivo da cotação do petróleo no mercado internacional, pressionando todos os os seus derivados e consequentemente o preço dos combustíveis, com o aumento do preço dos fretes e, além disso, o aumento da cotação do gás na Europa", destaca o economista especialista em macroeconomia e doutorando em ciência política, Felipe Queiroz.

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Crise energética

A crise energética, problema que se agravou no início da pandemia da covid-19, exerceu um importante papel nesse cenário de inflação de dois dígitos no mundo e nos maiores patamares dos últimos 40 anos em muitos países desenvolvidos. Em comparação com a média de 2021, os preços do gás natural na Europa aumentaram seis vezes. Os preços reais da eletricidade doméstica no Velho Continente subiram 78% e o custo gás disparou 144%, em comparação com as médias dos últimos 20 anos.

No Brasil, o aumento mais perceptível na conta de luz vem do sistema de bandeiras tarifárias, que indica o quanto será cobrado a mais pela energia. Justificado pela escassez de água e o acionamento das termelétricas durante a pandemia, o acréscimo de 52% na bandeira vermelha patamar 2, anunciado em junho do ano passado pelo governo, representou encarecimento de 17% na conta de luz residencial dos brasileiros.

Queiroz ressalta que o aumento da energia elétrica causa uma reação em cadeia, expandindo as pressões inflacionárias na economia, elevando, por exemplo, o custo de produção de bens em geral.

Neste ano, o preço dos combustíveis, também devido à crise internacional, bateu recorde em meados de abril e pesou no bolso dos consumidores, com a gasolina chegando a custar R$ 8,59 o litro em alguns postos das cidades brasileiras. A servidora pública Eduarda Matos, 27 anos, precisou mudar sua rotina e voltar a andar de ônibus, devido ao custo exorbitante da gasolina. "Foi perceptível o aumento nas bombas, principalmente para os trabalhadores que fazem região do entorno. Eu, por exemplo, faço a rota de Luziânia para Brasília todos dias e pode parecer um aumento insignificante, mas na ponta do lápis, no fim do mês, esse valor acaba alterando a dinâmica e toda a minha programação para as contas de casa", conta.

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Vilões

No cenário doméstico, os alimentos são os maiores vilões do aumento do custo de vida e os preços acumulam altas de dois dígitos. Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o grupo alimentação e bebidas acumularam alta de 11,84% nos últimos 12 meses encerrados em novembro — o dobro da variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no mesmo período, de 5,90%.

"Fazendo um apanhado do ano até o momento, o que mais pressionou a inflação brasileira foram os alimentos, que vão terminar o ano com o aumento real acima da inflação média. Contando que as famílias, principalmente as de baixa renda, gastam praticamente tudo que ganham com a compra de alimentos, eu diria que uma alimentação subindo acima do índice médio faz com que famílias de baixa renda percebam ainda mais a inflação, porque diferente de outras categorias, todo mundo consome alimentos e precisa comer", afirma o coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), André Braz.

Apesar da desaceleração do IPCA, que acumulava alta de 6,47% nos 12 meses até outubro, em grande parte devido à redução dos impostos nos combustíveis e na energia, ele alerta para o fato de a alta de preços ainda estar muito espalhada na economia. "A inflação está bem espalhada e o índice de difusão, que mede o percentual de produtos e serviços que tiveram aumento em novembro, ficou em 59%, um patamar alto."

A empregada doméstica Adriana Oliveira, 42 anos, mudou os hábitos nas compras do supermercado e reconhece que está cada vez mais difícil manter a geladeira cheia. "É surreal o preço que estão as coisas. Lá em casa eu já praticamente parei de consumir carne vermelha, porque é mais caro, só compro frango, que é mais em conta. Também não tem mais como levar os agrados que meu filho gosta, porque hoje em dia você pega o mínimo e a compra não dá menos que R$ 300 reais", reclama.

Outro vilão da inflação brasileira são os itens de vestuário, que acumularam a alta de 18,65% nos 12 meses até novembro. O segmento, de acordo com o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, vem operando com certas particularidades desde de agosto de 2020, primeiro ano da pandemia. "Naquele momento, as pressões derivadas dos aumentos de custo começaram a bater nas relações comerciais com varejo e as pressões inflacionárias vinham trazendo muito estresse para todas as indústrias, principalmente aquelas que dependiam do algodão. Esse cenário manteve-se durante todo o primeiro semestre de 2022", afirma.

Alta nos juros

Bancos centrais do mundo vem intensificando o ritmo do aperto monetário com aumento de taxas de juros na tentativa de conter a inflação que acelerou globalmente desde a pandemia da covid-19. No Brasil, o Banco Central interrompeu o ciclo de alta dos juros iniciado em março de 2021 devido à desaceleração da inflação ao longo do ano, mas a variação do IPCA acumulada em 12 meses continua acima da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 3,5%, e do teto de tolerância de 5% para 2022.

E, apesar de o Brasil não estar no topo do ranking da inflação mais elevada do quadro acima, o país lidera em outro ranking nada animador, que é o de juros reais (descontada a inflação) mais altos do mundo. Conforme dados da Infinity Asset Managment, o país, com taxa de 8,16% ao ano.

Analistas reconhecem que, mesmo a desaceleração da alta de preços, as autoridades não podem negligenciar no controle das pressões inflacionárias. Não à toa, o Banco Central deixou a janela aberta para nova alta da taxa básica da economia (Selic), atualmente em 13,75% ao ano, se houver piora nas perspectivas para o IPCA e no quadro fiscal. E, no cenário internacional, analistas reconhecem que grande parte do mundo ainda deve enfrentar inflação acima de dois dígitos por um tempo mais prolongado. "A questão até quando vai o aumento inflacionário é complexa. Envolve muitas incertezas relacionadas tanto ao processo de continuidade ou não da guerra e a política macroeconômica adotada pelos bancos centrais, que tem gerado um efeito muito perverso sobre o mercado global", alerta Felipe Queiroz.