Selic

Copom volta a pedir "serenidade e paciência" com taxa de juros

Apesar das pressões de Lula para que os juros baixem de imediato, o BC não deu sinais de quando poderá iniciar o ciclo de queda e manteve a porta aberta para uma possível alta

Rosana Hessel
postado em 10/05/2023 03:55
 (crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
(crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

O Banco Central (BC) reforçou os alertas sobre a resiliência da inflação e voltou a recomendar paciência e serenidade com o atual patamar da taxa básica de juros (Selic), que está em 13,75% ao ano desde agosto de 2022. Os recados constam da ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) realizada na semana passada, na qual o colegiado decidiu manter a Selic pela sexta vez consecutiva. O documento foi divulgado ontem.

Apesar das pressões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para que os juros baixem de imediato, o BC não deu sinais de quando poderá iniciar o ciclo de queda e manteve a porta aberta para uma possível alta, se for necessário. "O Comitê avalia que a conjuntura demanda paciência e serenidade na condução da política monetária. E enfatiza que, apesar de ser um cenário menos provável, não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra como esperado", destaca o documento.

A principal missão do BC é preservar o valor da moeda e fazer a inflação voltar para o centro da meta no horizonte relevante, ou seja, em 2024 — que tem meta de inflação de 3%, com teto de 4,50% —, já que a meta deste ano — de 3,25%, com limite superior de 4,75% — está muito difícil de ser alcançada.

Na ata, o colegiado elogiou o novo arcabouço fiscal, mas voltou a afirmar que não existe relação mecânica entre a aprovação da nova regra e a convergência da inflação para a meta. "O comitê avalia que a probabilidade de cenários mais extremos de trajetória da dívida pública se reduziu, mas nota também que não houve mudança relevante nas projeções de inflação, uma vez que as expectativas não se alteraram de forma significante. Tal comportamento reforça o entendimento de que não há relação mecânica entre a política monetária e o arcabouço fiscal", frisa a ata.

Juro neutro

Analistas lembraram que o Banco Central não mudou o tom do comunicado e acabou dando mais subsídios aos motivos da manutenção da Selic no atual patamar, apesar de os juros altos serem um freio para o crescimento econômico.

"As atas têm sido um acúmulo de questões colocadas pelo BC. Nas últimas, eram a questão do arcabouço fiscal e os gastos parafiscais. Agora, o BC entrou mais na questão dos juros neutros, apontando que eles subiram de patamar, no Brasil, em torno de 4%. Talvez seja um pouco mais do que isso, mas é uma ata que traz riscos adicionais aos que a gente tem visto. E sinaliza que, para trazer a inflação a 3%, que é a meta, seria preciso manter os juros em 13,75% durante um longo prazo, provavelmente, além deste ano", comentou Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

A taxa neutra real de juros é aquela que mantém a inflação estável e não prejudica a atividade econômica, pois ainda garante ganhos de produtividade na economia. A ata enfatiza que "a possível adoção de políticas parafiscais expansionistas tem o potencial de elevar a taxa neutra e diminuir a potência da política monetária", registrando que, nesse aspecto, houve divergências de opiniões entre os membros do Copom.

Na avaliação de Vale, para que a Selic não continue no atual patamar até o fim do ano, será preciso que o novo arcabouço evolua e seja aperfeiçoado no Congresso, e que o Conselho Monetário Nacional (CMN) mantenha a meta do próximo ano em 3%, em vez de aumentá-la para 4% ou 4,5% como tem sinalizado a vontade do presidente Lula, patamares de quando ele assumiu o primeiro mandato.

"Se o CMN mantiver a meta em 3%, as expectativas de inflação começam a baixar e haverá espaço para o BC seguir no cenário de queda dos juros", afirmou Vale. Ele manteve a projeção de que o ciclo de queda da Selic deve começar em setembro, e prevê os juros básicos terminando 2023 em 12,50% ao ano, passando para 10%, no fim de 2024.

Para Eduardo Velho, o Copom sinalizou, de forma implícita, que é contra o ajuste da meta de inflação, que pode ser feito na reunião de junho do Conselho Monetário Nacional (CMN). "Vale lembrar que o Banco Central reiterou a desancoragem das expectativas e que estamos no ciclo de desaceleração do IPCA, que será lento. E, de fato, a partir de agosto, a inflação em 12 meses deverá aumentar para uma taxa mais próxima de 7% do que ficar abaixo de 6% em 2023", afirmou.

O especialista reforçou as apostas de que a Selic continuará no atual patamar até o fim do ano. "A pressão política sobre o Banco Central será muito forte em junho, não somente pela próxima decisão do Copom, mas também na reunião do CMN. É possível que Tebet e Haddad possam querer elevar a meta de inflação", disse. 

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