Arrecadação

Analistas preveem deficit zerado só depois de 2027

Especialistas analisam que governo terá dificuldades para fechar as contas no fim de 2024. Eles também preveem PIB negativo no terceiro trimestre deste ano

Fachada do ministério da Fazenda

     -  (crédito:  Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Fachada do ministério da Fazenda - (crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
postado em 26/11/2023 04:00

Apesar de ter tentado minimizar o desafio fiscal no início do ano, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, está cada vez mais distante de conseguir fechar as contas e entregar um deficit primário zerado em 2024. A desaceleração da economia está em curso, com o governo e analistas do mercado reduzindo as previsões de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano para menos de 3%. O consenso entre analistas é que o rombo das contas públicas deverá ser zerado somente depois de 2027 — pelas projeções mais realistas.

Na semana passada, o Ministério da Fazenda reduziu de 3,2% para 3% a previsão de crescimento do PIB deste ano e aumentou de R$ 141,4 para R$ 177,4 bilhões o tamanho do rombo das contas públicas, que equivale a 1,7% do total, bem acima da promessa de Haddad do início de 2023 de entregar um rombo menor do que 1%. Para 2024, as projeções pioram e o consenso é que não haverá deficit zerado no ano que vem.

Outro consenso entre analistas ouvidos pelo Correio é que, o PIB do terceiro trimestre será negativo. Pelos cálculos do especialista em contas públicas Gabriel Leal de Barros, economista-chefe da Ryo Asset, haverá queda de 0,3% no PIB do terceiro trimestre deste ano, que será divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no início de dezembro. Ele avalia que o governo só conseguirá voltar a registrar superávit primário em 2028.

"Acredito que ninguém do mercado tem projeção de PIB positivo para o terceiro trimestre", destacou. Ele lembra que, para 2024, a projeção de deficit de em torno de 1% do PIB já é um consenso e tende a piorar nas próximas projeções que devem ser revisadas. "A meta de zerar o deficit está longe de ser factível", diz.

Desafios

Luis Otavio de Souza Leal, economista-chefe da G5 Partners, alertou que o principal desafio do governo está em arrumar arrecadação extra, pois o aumento de gastos é tido como certo. Para ele, que revisou de 3% para 2,8% a previsão de crescimento do PIB deste ano, somente "com sorte", o Executivo conseguirá zerar o rombo fiscal em 2027.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, ainda não mudou as projeções, e manteve as previsões de deficit primário de 1,3% do PIB, em 2023, e de 0,7%, em 2024, mas admite que o desenho do arcabouço é um dos principais problemas de Haddad.

Gabriel Leal de Barros, da Ryo Asset, lembra que a desaceleração do PIB é um grande complicador, porque, com a economia crescendo menos, o governo precisará arrecadar ainda mais. Segundo ele, o governo esperava um volume de R$ 470 bilhões de receitas não recorrentes e deverá ter, no máximo, no melhor cenário, R$ 70 bilhões.

"O volume de receitas extraordinárias será muito menor do que o governo estimou originalmente. Então, a soma desses três fatores revisão da meta para pior em 2023, que piora o ponto de partida. Mas há a desaceleração da economia, que bate na receita recorrente. E há as medidas pelo lado da receita extraordinária, que vão entregar um ganho menor do que o que foi estimado originalmente e impedem que a meta de déficit zero seja atingida", explica.

"Haddad tem vários problemas, e, para chegar não só nessa meta de deficit zero, mesmo um saldo negativo de 0,5% do PIB também será desafiador. O mercado, hoje, está com um déficit de aproximadamente 1% do PIB e, a depender do que acontece com o PIB no último trimestre deste ano, essa projeção tende a piorar", acrescenta Barros.

Projeções

Vários alertas foram dados no Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF), da Instituição Fiscal Independente (IFI). Segundo a entidade, o risco de descumprimento das metas para resultado primaário é elevado e se mostra desafiador no curto prazo". Pelas projeções, haverá um deficit primário de 1% do PIB em 2023, equivalente a R$ 107,9 bilhões, acima da meta inicial, que permitia um rombo de até R$ 65,9 bilhões, que foi ampliada com a PEC de Transição para um deficit de até R$ 213,6 bilhões, conforme a nova meta da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) deste ano.

"A nova projeção para as despesas primárias é ligeiramente melhor que a apresentada em maio. Ponto importante é que a limitação dos gastos com precatórios configura um alívio no curto prazo e uma sobrecarga no médio prazo", destaca o documento.

De acordo com a entidade, a situação poderá mudar se a Advocacia-Geral da União (AGU) obtiver êxito em sua consulta ao Supremo Tribunal Federal (STF), o que permitiria a regularização do fluxo de pagamentos dos precatórios com a possibilidade de pagamento dos passivos por meio de créditos extraordinários.

Analistas reconhecem que o quadro previsto pelo governo para as contas públicas pode ser pior, porque o Tesouro Nacional está utilizando a contabilidade criativa para tentar reduzir o tamanho do rombo fiscal. Além de contabilizar o empoçamento de recursos empenhados e que podem não ser utilizados até o fim do ano pelos órgãos, em torno de R$ 30 bilhões, precisaram ser ignorados já que o governo não inclui na conta despesas com precatórios que deveriam ser pagas no mesmo montante. E, para piorar, o Banco Central não aceitou registrar como receita primária a transferência de recursos do PIS/Pasep não sacados na conta do Tesouro, de R$ 26 bilhões.

"Já estamos com um deficit esperado muito próximo do autorizado pela LDO, de R$ 203,4 bilhões. Mesmo que não levemos em conta os precatórios devidos e não pagos, teremos um déficit de R$ 178 bilhões (1,7% do PIB), bem distante dos 0,5% inicialmente prometidos e, também, de 1% do PIB, que foi o valor que o governo passou a mirar a partir da metade do ano", disse o economista e professor do Insper Marcos Mendes, via redes sociais.

 


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