Mercado financeiro

Ibovespa perde força e fica mais longe dos 200 mil pontos

Bolsa de São Paulo perde força em abril, mas analistas avaliam que retomada é possível e depende do futuro da guerra no Oriente Médio

Abril foi um mês longo para o principal Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa/B3). Entre altos e baixos, o resultado foi praticamente zero a zero, com uma ligeira queda de 0,08% no fim das contas, no patamar de 187.317 pontos. Apesar de ser o segundo mês consecutivo em queda, o índice ainda acumula uma expressiva alta de 16,26% no ano, muito em razão do primeiro bimestre, quando a bolsa apresentou um salto consistente antes do início da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, no último dia de fevereiro.

É possível dividir o mês de abril em dois períodos iguais. Na primeira quinzena, a bolsa chegou a acumular uma alta de mais de 5% e atingiu o pico no dia 14, quando fechou aos 198 mil pontos, bem perto de superar a barreira dos 200 mil pontos durante o pregão. A mudança de rumo, no entanto, se deu logo após a reabertura do Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, que ficou fechado por mais de 40 dias. Nas últimas duas semanas do mês, o principal índice da B3 recuou 2,23% e 1,8%, respectivamente.

Apesar da volatilidade no curto prazo, analistas ainda enxergam uma tendência estrutural positiva para este ano, que será marcado por eleições e um cenário geopolítico tensionado. Dados sobre as negociações dentro do Ibovespa ajudam a entender esse cenário, de acordo com a Elos Ayta Consultoria. Em 2026, o volume financeiro médio diário do mercado à vista da B3 atingiu R$ 26,18 bilhões por dia até o último dia de abril, o que representa o melhor nível desde 2021 e o segundo maior da história.

Além disso, os números mostram que o investidor estrangeiro ingressou com força no mercado brasileiro nos primeiros quatro meses do ano. Até 28 de abril, o saldo líquido da bolsa ficou positivo em R$ 60,7 bilhões, resultado de R$ 1,77 trilhão em compras contra R$ 1,72 trilhão em vendas.

"Isso significa uma pressão compradora consistente sobre ativos locais, especialmente ações, ao mesmo tempo em que reduz a atratividade relativa de posições dolarizadas ou atreladas ao exterior", destaca o especialista em dados financeiros Einar Rivero. "É o tipo de dinâmica que cria uma assimetria clara: o Brasil sobe não apenas por fundamentos internos, mas por realocação global de capital."

Ano positivo

No acumulado do ano, o Ibovespa lidera com folga o ranking de desempenho entre os principais índices, segundo levantamento da Elos Ayta. Na sequência da bolsa, aparecem o Índice de Dividendos (Idiv), com 13,77%, e o ouro, com 5,69%. Por outro lado, os piores desempenhos de 2026 até aqui estão concentrados em ativos ligados ao exterior. O Bitcoin lidera as perdas, com queda de 21,35%, seguido por euro (-9,55%), dólar (-9,34%) e o índice de BDRs (-4,45%).

A tendência positiva para o Ibovespa em 2026, no entanto, ainda depende da manutenção do ritmo atual de entrada de investimentos estrangeiros na bolsa, que está em patamares históricos. Para a consultoria financeira, se esse fluxo continuar, o principal índice da B3 pode entrar em novos patamares, caso contrário, o ajuste poderia ser rápido. "Por enquanto, o diagnóstico é claro: 2026 não é apenas um bom ano para a bolsa brasileira, é um ano em que o Brasil voltou para o radar do capital global. E isso, historicamente, costuma fazer preço", sustenta Rivero.

O cenário, no entanto, poderia ser melhor com uma redução da taxa básica de juros (Selic), que está em 14,5% ao ano, com o último corte de 0,25 ponto percentual implementado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Essa é a avaliação do analista da RB Investimentos, Gustavo Cruz, que acredita que um aumento do fluxo de capital doméstico poderia garantir mais sustentação à alta do Ibovespa. "Conforme a taxa de juros caia, os fundos de pensão podem subir um pouquinho esse mínimo e fazer, também, com que as pessoas físicas fiquem mais alocadas em fundos multimercado", considera.

Cruz destaca, ainda, que pode haver uma influência direta das eleições nas movimentações do mercado, que, segundo ele, torce por uma renovação no Palácio do Planalto. "A gente sabe que o mercado financeiro gostaria que o presidente Lula não tivesse um quarto mandato. Então, se outros candidatos começarem a crescer na pesquisa, eu entendo que teria uma alocação maior de investidor brasileiro e estrangeiro ajudando a puxar a bolsa para cima", comenta o analista.

Moeda forte

Ao mesmo tempo em que a bolsa manteve estabilidade, o real ganhou força no último mês de abril, com o dólar perdendo 4,4% de valor nos últimos 30 dias e atingindo o menor patamar desde março de 2024, quando atingiu R$ 4,95 na cotação comercial. Desde o início do ano, o câmbio entre as duas moedas acumula uma desvalorização de quase 10%, e o real segue com o posto de divisa com o melhor desempenho em todo o mundo no ano.

Na visão do banco Goldman Sachs, o desempenho do real é sustentado pela valorização dos termos de troca do Brasil nos últimos dois meses — o que significa que o país pode importar mais sem a necessidade de expandir as exportações —, além da recuperação de ativos de risco, que, segundo a instituição, vinham limitando o valor do real até o mês de março. O banco também atribui o bom resultado ao carry trade (alocação de investimento em países com juros altos, como o Brasil) elevado, comparável, apenas, ao do peso colombiano.

Para o banco, que prevê dólar a R$ 4,90 nos próximos três meses, o desempenho positivo do real ainda tem fôlego para continuar, contanto que os preços da energia, como petróleo, permaneçam elevados, mas não levem a um enfraquecimento do apetite por risco. Na semana passada, o valor do barril do tipo Brent acumulou alta de 9% no mercado internacional, sendo vendido a US$ 114. Para o economista-chefe da Bluemetrix Asset, Renan Silva, esse cenário ainda pode influenciar os preços dos supermercados e trazer de volta o "fantasma da inflação".

"A gente precisa de mais estabilidade das instituições, em todos os sentidos, político, social, econômico, risco legal, para que você tenha continuidade desse fluxo de capital para cá", avalia Silva.

 

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