Uma pesquisa inédita realizada pela Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV RI) revela que a opinião pública de cidadãos, principalmente agricultores, do Centro-Oeste e do Norte do país, está desvinculada do alinhamento político. Conforme dados do relatório Como a Fronteira Agrícola Vê as Relações Internacionais, obtido pelo Correio com exclusividade, apesar de essas duas regiões terem um forte comércio com a China, isso não quer dizer que os agricultores confiam nos chineses.
Um dos destaques da pesquisa mostra que a China absorveu 80% das exportações de soja e 86% das exportações de carne bovina da fronteira em 2022. Contudo, os moradores das duas regiões confiam muito mais nos Estados Unidos do que nos chineses.
Conforme os dados do relatório, enquanto 21,8% dos entrevistados descrevem os EUA como "muito confiáveis", apenas 12,6% dizem o mesmo da China — uma diferença de mais de nove pontos percentuais. A confiança na China recuou quase 20 pontos percentuais desde 2017.
"A fronteira vende para a China sem confiar nela. A China compra 80% da soja e 86% da carne bovina da região, mas os EUA inspiram mais confiança. Isso quebra a lógica de que quem compra, manda. Comércio não compra lealdade política", afirma o diretor da FGV RI e um dos autores da pesquisa, Matias Spektor, em entrevista ao Correio.
Motor exportador
O pesquisador explica que a fronteira agrícola é formada pelo Centro-Oeste e pelo Norte do Brasil que, hoje, são o motor exportador nacional. Juntas, essas duas regiões geram cerca de 25% das exportações brasileiras, o equivalente a US$ 86,6 bilhões em 2025. "O Centro-Oeste sozinho produz quase metade dos grãos e oleaginosas do Brasil. Somado ao Norte, ambos concentram 58% do rebanho bovino nacional. É onde a soja e a carne que abastecem o mundo saem do chão — e onde as decisões de Washington, Pequim e Bruxelas chegam primeiro, antes mesmo de chegarem a Brasília", destaca.
De acordo com o estudo, a fronteira agrícola do Brasil comporta-se como uma região politicamente independente, e está emergindo como decisiva nas eleições presidenciais. O pesquisador destaca que essas duas regiões representam 15% do eleitorado nacional.
"Quem acha que essa região é só pauta de bancada ruralista está olhando para o retrovisor. É direita, é antiestatista, e não vai seguir cegamente quem compra sua soja. Nenhum candidato à Presidência pode mais vencer ignorando essa fatia tão importante do Brasil", destaca.
O relatório também traça o perfil político da região. Uma pluralidade de 83,5% dos moradores se identifica como de direita ou centro, enquanto apenas 16,5%, de esquerda. Maiorias expressivas acreditam que o governo interfere demais na vida das pessoas (55,9%) e que a regulação governamental dos negócios faz mais mal do que bem (64,3%).
O levantamento ainda mostra que essa cultura política antiestatista é a lente por meio da qual todas as pressões externas são filtradas — e explica, em parte, tanto a vantagem de credibilidade dos EUA quanto o ceticismo em relação às regulações da União Europeia e ao modelo de Estado chinês.
Conforme o relatório, os Estados Unidos são vistos como uma presença tanto econômica quanto política, e a China é percebida, principalmente, como um ator econômico cuja influência política permanece indefinida e aberta a reinterpretações. Enquanto isso, empresas americanas foram responsáveis por quase metade (47,9%) das exportações de soja da fronteira para a China.
Acordo UE-Mercosul
Em relação ao acordo que prevê livre-comércio entre União Europeia e Mercosul, Spektor conta que houve uma descoberta mais interessante do que o apoio ou a rejeição ao acordo.
"Descobrimos como esse cidadão entende a pressão europeia por regras ambientais — e o que descobrimos é puro cálculo por parte dos indivíduos. Quase três quartos dos entrevistados dizem que cumprir as exigências ambientais da UE fortaleceria a reputação internacional do Brasil. Ao mesmo tempo, dois terços acham que isso reduzirá a competitividade do produto brasileiro. E 61,5% acreditam que a regra existe para proteger economicamente o produtor europeu, não o meio ambiente", destaca. "O cidadão brasileiro da fronteira aceita a régua imposta pela Europa, mas desconfia dos europeus, e entende exatamente que isso custará ao Brasil", resume.
De acordo com o pesquisador, o cidadão brasileiro tem um comportamento contraditório, pois considera as regras ambientais europeias razoáveis, mas também acha que elas existem para proteger o produtor europeu, não o meio ambiente. "Curiosamente, esse mesmo cidadão quer menos regulação ambiental no Brasil de modo geral. A lição é simples: regra que abre mercado, ele aceita. Regra imposta pelo Estado brasileiro, ele rejeita", explica.
