O que mostram as Avaliações

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Apesar de os dados do Ideb terem sido pouco animadores, é preciso considerar o contexto escolar na hora de examiná-los. Município com o maior Ideb do país começou reestruturação no ensino há quase 20 anos e, agora, colhe os resultados

A divulgação dos dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) no último mês deixou alerta o Ministério da Educação (MEC). A meta nacional para 2015 foi atingida apenas nos anos iniciais do ensino fundamental e no médio o índice permanece estagnado desde 2011 - o cálculo é feito a cada dois anos. No entanto, é necessária uma análise mais profunda ao se considerarem as notas, conforme destacam especialistas ouvidos pelo Correio, entendendo as estatísticas que compõem os dados e usando as informações para promover políticas públicas mais eficazes.

No Distrito Federal, nenhuma das etapas alcançou a meta estipulada para o período. No entanto, todas as fases superaram ou igualaram a média nacional. Os índices relativos ao ensino fundamental continuaram a trajetória de avanço desde 2005, enquanto o do ensino médio se manteve no patamar de 4 pontos.

Para o professor Cleyton Gontijo, do Departamento de Planejamento e Administração da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (FE/UnB), ainda há tempo de se chegar ao resultado estipulado para o longo prazo no país. O objetivo é que todas as escolas do país alcancem o índice 6 nos anos iniciais do ensino fundamental até 2021. "Apesar de as escolas do DF ainda não terem alcançado esse patamar, nós observamos que já há um crescimento e que possivelmente chegaremos lá naquela data", afirma.

Ele chama atenção para a heterogeneidade da rede pública de ensino, que atende a alunos de diferentes níveis socioeconômicos nas regiões administrativas. O especialistas lembra que muitas das escolas localizadas nas áreas periféricas, por exemplo, recebem alunos do Entorno, que não têm direito ao Passe Livre para vir ao DF. "A evasão desse alunos se torna maior por falta de condições ou políticas que favoreçam sua permanência na escola."

Segundo Fábio Pereira de Sousa, subsecretário de Planejamento, Acompanhamento e Avaliação Educacional da Secretaria de Educação do DF (SEDF), esse foi um fator determinante para que a capital não atingisse a meta esperada. "Nós tivemos excelentes resultados no desempenho da prova, nossa grande questão é o fluxo escolar - aprovações, reprovações e abandono. Mas, na proficiência, tanto em língua portuguesa quanto em matemática nós tivemos crescimento", explica.

"Agora, é importante analisar esses dados e fazer um trabalho junto às escolas para corrigir essa distorção idade-série, que é o que está prejudicando os nossos resultados", complementa o subsecretário. O plano da secretaria é lançar projetos, a partir do próximo ano, focados nos alunos que têm mais de dois anos de defasagem em relação à série em que deveriam estar matriculados.

Ele ressalta, ainda, que, mesmo sem ter cumprido as metas estipuladas, o DF continua a ocupar as melhores posições no ranking nacional por unidades da Federação. No ensino médio, por exemplo, está em segundo lugar, com o mesmo índice de Rio de Janeiro, Espírito Santo e Pernambuco.

Nós tivemos excelentes resultados no desempenho da prova, nossa grande questão é o fluxo escolar - aprovações, reprovações e abandono. Mas, na proficiência, tanto em língua portuguesa quanto em matemática nós tivemos crescimento"Fábio Pereira de Sousa, subsecretário de Planejamento, Acompanhamento e Avaliação Educacional da Secretaria de Educação do DF

O professor Cleyton Gontijo destaca que o Ideb não é uma boa forma de comparar desempenhos, justamente porque as metas variam de uma unidade de Federação para outra, entre o sistema público e privado e até entre as redes estadual, municipal e federal. Além disso, o índice não mede o nível de motivação do estudante para responder a prova, o que pode refletir no resultado. Não revela ainda o modelo de gestão ou o salário dos professores naquela região.

"Ele serve como comparativo para tentarmos entender, numa perspectiva nacional, onde as políticas públicas poderiam estar sendo mais efetivas para melhorar essas realidades", afirma Gontijo. Por isso, na avaliação do especialista, mais importante do que olhar o índice no momento de escolher a escola do filho ou, no caso do governo, de formular políticas públicas, é conhecer o contexto local de cada rede e instituição. Saber, por exemplo, se escola tem uma boa estrutura, com biblioteca e laboratórios, pode ser mais importante do que avaliar a nota no Ideb.

Outro fator essencial, de acordo com ele, é desenvolver o sentimento de pertencimento àquela comunidade escolar, o que a análise superficial do índice pode prejudicar. "Um elemento importante para que a escola atinja seus índices é acreditar na instituição. Quando se diz que o índice é baixo, isso pode gerar um sentimento de descrença na qualidade da escola. Isso começa a gerar uma ilusão de que só uma escola de alto Ideb é boa."

Ele (o Ideb) serve como comparativo para tentarmos entender, numa perspectiva nacional, onde as políticas públicas poderiam estar sendo mais efetivas para melhorar essas realidades"Cleyton Gontijo, do Departamento de Planejamento e Administração da Faculdade de Educação da UnB

Alunos da Escola Classe 106 Norte: melhor Ideb da rede da Secretaria de Educação do DF | Foto: André Violatti/Esp. CB/D.A. Press

Esse clima de pertencimento e de colaboração entre a comunidade escolar é o que não falta na Escola Classe 106 Norte, instituição da Secretaria de Educação do DF mais bem colocada no Ideb dos anos iniciais do ensino fundamental - fica atrás apenas do Colégio Militar Dom Pedro II, do Corpo de Bombeiros do DF. A diretora, Edimar Teixeira dos Santos, e a vice, Lisete Prediger, destacam que a colaboração e o bom convívio entre pais, professores e alunos são determinantes para a qualidade do ensino.

Edimar elenca três pontos essenciais para o sucesso do trabalho: a pedagogia de projetos, a parceria com a família e os cursos de formação continuada dos quais os professores participam. As avaliações contextualizadas e os relatórios dissertativos sobre o processo de aprendizagem de cada aluno também são importantes.

A alfabetizadora Zizelda Bosco, que dá aulas para o 3º ano na escola, acredita que o diferencial é o trabalho em grupo. "Aqui, o grupo é muito unido, eu conheço os alunos do 1º ano e os outros professores conhecem os alunos do 3° ano", afirma. Essa unidade, em conjunto com o apoio da direção, permite realizar uma formação que alcança a todos. A classe da professora Zizelda, por exemplo, é inclusiva e recebe alunos com sete transtornos de aprendizagem diferentes, todos estudando juntos.

A mudança possível

O município de Sobral (CE) alcançou o maior Ideb do país nos anos iniciais do ensino fundamental, com média de 8,8 pontos. A boa colocação vem se repetindo ao longo dos anos. Em 2016, o destaque ficou com a Escola Emílio Sendim, mais bem colocada do país nessa fase do ensino em redes municipais. A instituição alcançou 9,8 na escala que vai a 10 pontos.

A escola recebe estudantes do 1º ao 5º ano do ensino fundamental e oferece ainda a modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA) no período noturno. Para a diretora, Mílvia Carvalho Soares, a evolução da escola e do município na avaliação promovida pela Prova Brasil é consequência de uma política educacional fortalecida, que começou a ser construída há quase 20 anos.

O primeiro passo, segundo ela, foi a reestruturação das escolas. "O trabalho começou em 1997 e foram quatro anos de ampliação da rede, construindo mais salas, melhorando a infraestrutura e construindo mais escolas", detalha. Além disso, houve investimento na formação dos professores.

Outro ponto, na avaliação dela, fundamental para o avanço qualitativo do ensino no município foi a instituição de processo seletivo para a escolha dos gestores escolares - diretores e coordenadores pedagógicos. A seleção inclui provas escrita e situacional, entrevista e análise de títulos.

A esses dirigentes é dada autonomia pedagógica, administrativa e financeira. Eles mesmos escolhem os coordenadores pedagógicos. Os três da Escola Emílio Sendim, que atende a 720 alunos, foram Mílvia quem escolheu. Ela explica que é necessário seguir as diretrizes determinadas pela Secretaria de Educação, mas o colégio tem liberdade para trabalhar os próprios projetos e estratégias. "No ano passado, colocamos os alunos com alguma dificuldade no reforço, no contraturno, para garantir e reforçar habilidades que eles não haviam consolidado", destaca.

Escola Emílio Sendim, em Sobral (CE): boa nota nos anos iniciais do ensino fundamental | Foto: Divulgação

Todos os meses, a escola recebe a verba da prefeitura, por meio do Conselho Escolar, para pagar contas de luz, água, telefone, gás e material de expediente e de limpeza. Já a autonomia administrativa permite que Mílvia e outros gestores de Sobral contratem os próprios professores temporários e os funcionários administrativos.

A inauguração da Escola de Formação Permanente do Magistério (Esfapem), em 2006, foi outro marco na reestruturação da rede pública do município. Uma vez por mês, os professores participam da formação em serviço na entidade. Além disso, um terço da carga horária do docente é cumprida fora de sala, ou seja, eles podem usar esse tempo para preparar as aulas ou complementar a formação. "Temos uma equipe muito fortalecida e sabedora dos seus deveres e direitos. Todos os funcionários, tanto os administrativos quanto os professores, sabem realmente qual é o seu papel", destaca Mílvia.

Cada gestor e prefeito ia dando continuidade (ao projeto). Isso foi uma decisão política. Hoje, percebemos que a educação é a menina dos olhos de Sobral"Mílvia Carvalho Soares, diretora da Escola Emílio Sendim

Um dos fatores determinantes para a ascensão do Ideb em Sobral é a regularidade do trabalho. %u201CCada gestor e prefeito ia dando continuidade (ao projeto). Isso foi uma decisão política. Hoje, percebemos que a educação é a menina dos olhos de Sobral%u201D, afirma Mílvia.

"Nós passamos por avaliações semestrais. A prefeitura tem um sistema de avaliação externa. A partir dele, é gerada uma média da escola, da sala de aula e do município", detalha a diretora. "Partindo daí, há uma política de incentivo aos gestores e professores e, em cima desse resultado semestral, é concedida uma gratificação para quem ultrapassa ou iguala a média do município", complementa. A gratificação varia de R$ 300 a R$ 500. "É muito trabalho, mas nós trabalhamos sem reclamar. É apaixonante", conclui.

Escola de aplicação

A escola mais bem colocada no Ideb nos anos finais do ensino fundamental tem outro diferencial. A Escola de Aplicação do Recife, que integra a rede pública estadual de ensino, seleciona os alunos por meio de prova para ingresso no 6º ano. Conhecida como Escola do Recife, a instituição é uma unidade organizacional da Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco (FCAP/UPE) e alcançou 8,5 no índice.

A gestora do colégio, Cristina Beltrão, destaca outros aspectos que acredita fazerem a diferença para atingir um índice tão alto - acima da média nacional em escolas privadas. "Temos uma disciplina logo no início do 6° ano (do ensino fundamental) que se chama metodologia de ensino. Ela incentiva e estimula o aluno não apenas a pesquisar, mas a elaborar projetos. O nosso corpo docente também faz uma grande diferença. Temos professores não só graduados, como mestres e doutores", resume.

O colégio também recebe alunos do ensino médio e conta com a infraestrutura da universidade a que está vinculado. Foi criado em 1984 e, desde 2011, passou a integrar totalmente a rede estadual, por meio de convênio firmado entre a universidade e a Secretaria de Educação.

O conteúdo, por sua vez, é o mesmo da rede estadual, segundo Cristina, só que mais explorado, com carga horária de 1,4 mil horas por ano do 6º ao 9º ano do ensino fundamental - a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) determina carga horária mínima de 800 horas para essa etapa do ensino.

Escola do Recife, mais bem colocada nos anos finais do fundamental | Foto: Divulgação

Sistema de avaliação nacional


  • Prova Brasil é como ficou conhecida a Avaliação Nacional do Rendimento Escolar (Anresc). Consiste em uma avaliação censitária que envolve os alunos dos últimos anos do primeiro e do segundo ciclos do ensino fundamental das escolas públicas das redes municipais, estaduais e federal. Participam instituições que têm, no mínimo, 20 alunos matriculados nos anos avaliados. Ela é um dos componentes do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que conta ainda com a Avaliação Nacional da Educação Básica (Aneb) e com a Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA).

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