Como Analisar o Ensino

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Especialistas são unânimes em afirmar que a instituição adequada é aquela que atenda de maneira mais completa a necessidade da criança ou do jovem. Pais e responsáveis precisam saber o que esperar do desenvolvimento nas diferentes fases da educação básica e considerar os desafios impostos pela tecnologia

A escolha da escola deve partir da pesquisa e da observação dos pais sobre as instituições e sobre as características dos filhos. Apesar de serem os responsáveis que darão a palavra final, é importante que as crianças participem do processo e principalmente que os jovens sejam ouvidos antes da decisão.

"Há criança que reage melhor sob pressão, com provas toda semana ou todo mês. Outras ficam nervosas e, com isso, não conseguem aprender", analisa a psicopedagoga Amanda Rangel. Nessa escolha, entre uma instituição conteudista e outra que foque em valores coletivos, não há certo ou errado, conforme entende a professora Adriana Borges, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). "Depende do que a família valoriza em termos de educação", salienta ela, que é pesquisadora da área de educação especial e inclusiva.

Segundo Adriana, a escola deve contar com espaços amplos e áreas verdes. "Também deve-se verificar a rotatividade de professores. Se é grande, significa que não se cuida dos profissionais, e pode ocorrer o mesmo com os alunos", diz.

A professora Silvia Colello, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que a instituição que funciona com um filho pode não dar certo com outro. "Além disso, há pais que optam pelas escolas em que estudaram, como se o bom colégio do passado fosse o bom de hoje. É uma visão reducionista da complexidade que essa escolha envolve", diz.

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O ideal é que a escola explore o esporte, a arte e atividades cognitivas. Contudo, algumas terceirizam serviços, como ensino de línguas, balé e mesmo o catecismo, sem que se integrem com a proposta do colégio. Nesses casos, o período integral vira um projeto sem coerência" Silvia Colello, professora da Faculdade de Educação da (USP)

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O projeto político-pedagógico, na visão da especialista, que coordena o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Alfabetização e Letramento, é o critério mais importante, pois vai determinar o que e como a escola vai ensinar. No entanto, é preciso estar atento à capacidade da instituição de cumprir a proposta e perguntar sobre o método adotado. "Muitos pais ficam tímidos em perguntar, pois não sabem as diferenças entre as linhas pedagógicas. É preciso buscar, na explicação desse projeto, sintonias com os valores, objetivos e prioridades daquela família", orienta Silvia.

Quando se opta pelo horário integral, a pesquisadora da USP afirma que deve ser avaliada a qualidade das atividades no contraturno, que precisam estar alinhadas ao método pedagógico do ensino regular. "O ideal é que a escola explore o esporte, a arte e atividades cognitivas. Contudo, algumas terceirizam serviços, como ensino de línguas, balé e mesmo o catecismo, sem que se integrem com a proposta do colégio. Nesses casos, o período integral vira um projeto sem coerência", analisa.

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Liana e André com o filho Marcelo: pesquisa sobre espaço físico e método de ensino antes de tomar a decisão | Foto: André Violatti/Esp. CB/D.A. Press

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Seis meses antes de matricular Marcelo, 3 anos, no maternal, a publicitária Liana Rollemberg, 33, iniciou a pesquisa da instituição ideal para o filho. "Moro no Guará e não me interessei em nenhuma de lá, então priorizei a Asa Sul e fui a cinco escolas. Em algumas, que minhas amigas consideravam ótimas, concluí que não era o que eu esperava. Tem de ser uma escolha pessoal da família", observa.

Com o apoio do marido, André Silva, Liana buscou escolas e turmas pequenas. "O Marcelo estava começando a vida escolar, então queria mais atenção nele, para facilitar a adaptação inicial. E foi super importante, já que ele demorou para se adaptar. Foquei em colégios térreos, por receio de escadas, e arejados, com áreas grandes e poucas crianças. Também li sobre o ensino montessoriano, pelo qual optei", conta.

A instituição escolhida manteve, segundo a mãe, contato constante com a família. %u201CColoquei no período da tarde. Como ele tinha o hábito de tirar soneca após o almoço, perdeu isso e passou a chegar irritado e cansado à escola. A instituição percebeu e sugeriu mudá-lo para a manhã, e foi ótimo", lembra. "O principal é visitar a escola, tirar todas as dúvidas, não ter vergonha de perguntar, porque estará colocando seu bem mais precioso nas mãos de quem ficará com ele boa parte do dia", conclui.

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Confira algumas dicas para o momento de escolher a escola


  • Na hora de visitar a escola, leve a criança. Faça ela participar desse momento, para que crie um senso de responsabilidade, ainda que a decisão final seja dos pais
  • O adolescente ou jovem também deve participar da escolha do colégio. Tem de ser feita uma negociação com os pais. Caso contrário, as chances de a escolha dar errado são maiores
  • Priorize escolas inclusivas, preocupadas com a diversidade. Cheque a acessibilidade. Ainda que a criança não tenha deficiência, pode necessitar de uma rampa caso se machuque
  • Avalie se os professores estão, de fato, envolvidos com a filosofia do colégio e de quanto tempo lecionam ali
  • Desconfie de escolas que concedem descontos. Uma escola transparente normalmente não dá descontos aleatórios nem para grupos, em razão do custo que isso gera. Também não é permitido cobrar uma 13ª mensalidade
  • Se o estudante tiver alguma necessidade especial, é preciso levar o diagnóstico por escrito para solicitar atendimento adequado
  • Fontes: Silvia Colello, Adriana Borges e Aspa-DF

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ENTREVISTA | Álvaro Domingues

O presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe-DF) explica que os pais devem levar diversos fatores em consideração na hora da escolha da escola, como proposta pedagógica, estrutura, quadro de professores, opções de alimentação e atividades extras.

No ensino médio, a análise de rankings de notas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou do número de aprovados em seleções para instituições de ensino superior também podem ser analisados, segundo ele, mas sem deixar de lado essas outras variáveis.


Em relação ao ensino fundamental, quais os pontos positivos e negativos do ensino integral, oferecido pelos colégios particulares?
São muitos os pontos positivos propiciados pela ampliação do tempo de permanência do estudante no espaço escolar, quando atrelado a um planejamento que propicie otimizar o aproveitamento desse tempo com atividades extracurriculares, voltadas ao desenvolvimento pleno do aluno em áreas tais como cultura, artes (cênica, visual e musical), esportes e interação social. Possibilita ainda orientação dos estudos e acompanhamento das tarefas de forma sistematizada e sob supervisão especializada, proporcionando um melhor aproveitamento do tempo e consequente melhoria em seu rendimento acadêmico. Além dessas, a ampliação do tempo na escola possibilita que haja maior equilíbrio no tempo destinado ao uso de redes sociais e de mídia, a exemplo de televisão, videogames, celular etc. Além disso, a escola geralmente oferece orientação nutricional balanceada, atrelada a hábitos saudáveis, o que termina sendo também um ganho na saúde e na qualidade de vida.

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Em relação ao ensino médio, qual a relevância do posicionamento da escola em rankings como o do Enem e o número de aprovações no PAS e vestibular na hora da escolha?
O posicionamento da escola no Enem e o percentual de aprovações em processos seletivos para o ingresso no ensino superior são importantes por constituírem referência para a escolha da instituição desejada. Contudo, outras variáveis igualmente importantes e que vão impactar de forma significativa as vidas pessoais e profissionais devem ser avaliadas e consideradas na sua formação integral. Dentre essas variáveis, destacam-se os valores éticos e morais, a capacidade de interação e o convívio social, valorizadas e cultivadas pela instituição de ensino, que devem ser analisadas pelos pais na hora de escolher uma escola. Obviamente, os valores cultivados pela família, suas prioridades, deverão estar em sintonia com os praticados pela instituição de ensino a ser escolhida. Certamente, estar bem posicionada no ranking do Enem e ter bons números de aprovação do PAS e no vestibular são bons indícios para uma instituição, pois mostram que boa parte de seus alunos estão bem preparados para esses processos seletivos tão importantes na vida escolar. Entretanto, é indicado que os pais também avaliem outros critérios, tais como proposta pedagógica, estrutura, quadro de professores, opções de alimentação e atividades extras.

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Os pais precisam ser mais participativos e conhecer o projeto da escola. É o local onde os filhos e filhas passarão a maior parte do tempo, durante muitos anos. A escolha precisa estar em sintonia com a família"

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É importante os pais terem acesso ao projeto político pedagógico da escola? Por quê?
É muito importante. O projeto pedagógico de uma escola vai além do conteúdo obrigatório, pois está relacionado à forma como o conhecimento será transmitido e quais os diferenciais que a instituição apresenta. O Sinepe/DF conta com o Selo Escola Legal, distribuído para estabelecimentos que promovem práticas administrativas e pedagógicas inovadoras. Os pais que quiserem podem consultar a lista de colégios que têm o selo na hora de escolher a escola dos filhos. O conhecimento do Projeto Político Pedagógico possibilita ainda aos pais o reforço dos conteúdos a partir das vivências do mundo real.

Que outras sugestões poderia dar para esse momento de escolha?
A primeira dica é observar se a escola está legalizada e se tem autorização para funcionar, o que pode ser verificado com a Secretaria de Educação de cada cidade. Isso é o mais importante, pois trata-se de uma garantia aos pais de que os filhos vão estudar em um local seguro e terão acesso a todos os conteúdos obrigatórios. As outras dicas dizem respeito aos itens acima (conhecimento do projeto pedagógico, estrutura da escola, quadro de professores, etc), principalmente o alinhamento de valores da escola com os da família. Os pais precisam ser mais participativos e conhecer o projeto da escola. É o local onde os filhos e filhas passarão a maior parte do tempo, durante muitos anos. A escolha precisa estar em sintonia com a família.

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Por dentro dos métodos de ensino

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A decisão da melhor escola para matricular os filhos é uma grande responsabilidade. Para escolher o ambiente onde as crianças vão passar a maior parte do tempo, existem vários aspectos que devem ser levados em consideração (leia mais na página 62), um deles é o método de ensino adotado pela instituição. Os pais devem ir além das visitas para conhecer a infraestrutura da escola pretendida e a metodologia na qual o filho será educado.

A professora da Universidade de Brasília (UnB) e doutora em educação Edileuza da Silva ressalta que os responsáveis devem usar todo o conhecimento que detêm sobre as crianças nesse momento. "Os pais devem observar e analisar as características dos filhos. Os interesses, habilidades e até as brincadeiras que eles mais gostam são fatores decisivos para acertar na escolha da escola", afirma.

A metodologia é a teoria que a escola opta por aplicar de forma prática no ambiente de aprendizado. Aqueles serão os fundamentos, técnicas, recursos e meios que vão orientar a equipe de professores no cotidiano escolar. No entanto, as escolas podem utilizar mais de uma metodologia como base. "É difícil encontrar uma escola que assuma uma metodologia pura. Apesar de optar por uma linha pedagógica específica, nada a impede de incorporar elementos de outros métodos", defende a professora da UnB.

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É difícil encontrar uma escola que assuma uma metodologia pura. Apesar de optar por uma linha pedagógica específica, nada a impede de incorporar elementos de outros métodos" Edileuza da Silva, professora da UnB e doutora em educação

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Segundo a especialista, a pedagogia está renovada. Atualmente, existem várias opções de escolas que adotam metodologias que se afastam cada vez mais do ensino tradicional. Em meio às novas alternativas, é importante que os pais façam o dever de casa e pesquisem sobre os métodos aos quais se interessam. A escolha deve ser feita de maneira consciente e comprometida. "Vivemos um movimento de busca por renovação. É preciso pensar em novas metodologias alinhadas a uma perspectiva crítica e emancipatória, a fim de formar uma criança cidadã", comenta. Entretanto, Edileuza alerta que não adianta a escola ter uma proposta inovadora e não ter espaço, material e ambientes adequados para executá-la.

Mesmo com todo o cuidado para tomar a decisão certa, é possível que a escolha não seja a melhor. Nessas situações, o mais importante é reconhecer o erro e não ter medo de mudar o filho de escola. Edileuza da Silva explica que identificar se determinada metodologia está funcionando ou não é uma tarefa simples: basta ouvir a criança. "Ela é o melhor termômetro. Na fase de adaptação, é normal um estranhamento, mas, se a criança continuar relutando em ir para a escola por muito tempo, isso é um sinal claro de que a metodologia proposta não é adequada a ela", esclarece. Conheça, a seguir, alguns dos métodos oferecidos em Brasília.

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Foto: Divulgação

Montessoriano

De acordo com a obra da educadora e criadora do método, Maria Montessori, a educação, especialmente no estágio pré-escolar, deve privilegiar a busca direta e pessoal do aprendizado, por meio do manuseio de objetos e de atividades práticas, desenvolvendo, assim, a capacidade motora e as sensações do aluno individualmente e de forma coletiva.

No método montessoriano, a criança é autora da própria aprendizagem: ela tem a liberdade de escolher - dentro de um ambiente totalmente preparado e adaptado para a metodologia - o conteúdo que vai desenvolver naquele dia. A diretora pedagógica da escola Maria Montessori, Marcia Fatureto, explica que os materiais montessorianos ficam separados na sala de aula por idade e por conteúdo.

A maioria dos brinquedos é fabricada em madeira e é colorida, pois as cores têm papel essencial na estimulação da criança. Outro diferencial é a rotina. "O professor planeja o dia alternando momentos expositivos, coletivos e individuais", conta Marcia. A escola também valoriza o contato das crianças com o meio ambiente. Para isso, tem um minizoológico na área verde, com pássaros, coelhos e répteis.

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Foto: Divulgação

Logosófico

A pedagogia Logosófica tem sua origem na logosofia, ciência criada pelo educador e humanista argentino Carlos Bernardo González Pecotche, que apresenta uma clara concepção do ser humano, do universo e das leis que regem a criação. Ela se baseia na formação consciente do ser humano, de forma concomitante com os estudos curriculares. "Nosso trabalho não é apenas conteudista, também é formativo", explica a diretora do Colégio Logosófico de Brasília, Lúcia Andrade.

O método logosófico acredita na importância da reflexão. "Trabalhamos os conceitos de pensamento e de sentimento. Ensinamos eles (os alunos) a identificarem o que são pensamentos bons e o que são pensamentos ruins', afirma. As crianças aprendem desde cedo a responsabilidade que têm sobre as próprias tarefas e com relação aos colegas. De acordo com a diretora, isso estimula o estudante a pensar nas consequências dos atos de maneira mais responsável.

O ensino não está pautado na repetição e o educador procura vincular o conteúdo curricular a alguma vivência do estudante. Alguns dos pontos chave são: a pedagogia do afeto, sempre respeitando o aluno; e o ensino de forma humanizada e sem punição. A missão do método é desenvolver todas as potencialidades e competências dos alunos - físicas, morais e espirituais -, buscando a formação de um indivíduo consciente.

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Foto: Divulgação

Freinet

Nas escolas que adotam os fundamentos do pedagogo francês Célestin Freinet, o processo de aprendizagem ocorre por meio do trabalho e da cooperação. No método natural da leitura e da escrita, o ensino é individualizado, de forma a respeitar o tempo do aluno, sem, no entanto, perder o foco em capacitar a criança para trabalhar em equipe. Os estudantes são incentivados também a compartilhar as produções com os colegas.

O Colégio Arvense é um exemplo de escola que adota essa metodologia no DF. Lá, o processo de alfabetização ocorre de maneira intuitiva. Ao longo do ano, são trabalhadas 50 palavras com os alunos. A escolha dos termos é feita de acordo com os interesses deles. Se uma das palavras for avião, por exemplo, eles vão pesquisar como é uma aeronave, desenhá-la e, depois, farão uma visita ao aeroporto, numa aula-passeio. "Dessa forma, os cinco sentidos do aluno são acionados. Quando a criança está motivada e tem interesse, ela aprende mais facilmente e não esquece", defende a diretora educacional do colégio, Margareth Nogueira.

Ela conta que os alunos não usam cartilhas ou desenhos prontos. A escola acredita que a utilização de modelos pré-determinados inibe o potencial criador da criança. Por meio dos desenhos, os alunos desenvolvem habilidades motoras, refinam o traço para, depois, aprenderem a escrever.

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Foto: Divulgação

Waldorf

Criado pelo filósofo alemão Rudolf Steiner, o método também segue uma linha educativa mais naturalista. A ação, o pensamento e o sentimento são integrados com atividades corporais e artísticas. Nas escolas que adotam a metodologia Waldorf, a proposta é criar um ambiente propício para a educação de cada aluno, dentro das capacidades e limitações deles.

O método Waldorf é contra o uso da televisão e de brinquedos industrializados. Os alunos brincam com objetos feitos de materiais orgânicos, como bonecas de pano. "Inclusive, desaconselhamos que os pais as deixem assistirem à televisão. A ideia é preservar a ludicidade e o processo de fantasia dentro da criança", explica a professora da escola Jardins Belas Flores, Catarina Basso. A corporalidade dos alunos é a prioridade. Apenas depois que ela for trabalhada, os professores começam a desenvolver a parte cognitiva.

A escola é mantida por uma associação de pais e professores que tomam todas as decisões em grupo. Não existe hierarquia e toda a renda é convertida em melhorias para a instituição, que integra pais, alunos, professores e a comunidade.

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Expectativas a cada etapa

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A escolarização exige dos pais o estabelecimento de uma parceria com a escola, isso porque, na sala de aula, diferentes realidades se encontrarão num mesmo ambiente, e as crianças vão precisar desenvolver a habilidade de conviver nesse contexto. Nesse sentido, a tecnologia no cotidiano delas surge como desafio nos anos iniciais.

Na visão da professora do ensino fundamental 1 Kamila Fernandes, a competição com a tecnologia chega a ser desleal. "Enquanto a escola exige cada vez mais dos alunos, o mundo tecnológico demanda cada vez menos", afirma. Esse é um dos fatores que precisa ser considerado desde a alfabetização. Nessa fase, além do letramento, a criança precisa passar pelo processo de sociabilização, e, hoje em dia, isso inclui uma preocupação ainda maior com ensiná-la a se expressar frente a frente com uma pessoa, e não apenas por meio do celular.

"Os pais precisam entender que não lidamos com um, mas com vários estudantes. São diversas culturas e diferentes formas de educar em casa. Aqui, temos que ver essa individualidade, mas trabalhar com o todo. Por isso, a parceria da família é muito importante", acrescenta a educadora. As crianças devem aprender, por exemplo, que a responsabilidades sobre as atividades escolares é delas, e não dos pais, desenvolvendo a autonomia que será necessária nos anos seguintes.

Veja abaixo o que esperar do desenvolvimento escolar do seu filho a cada uma das etapas da educação básica - do ensino infantil ao médio.

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| Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press

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Os pais precisam entender que não lidamos com um, mas com vários estudantes. São diversas culturas e diferentes formas de educar em casa. Aqui, temos que ver essa individualidade, mas trabalhar com o todo. Por isso, a parceria da família é muito importante"Kamila Fernandes, professora dos anos iniciais do ensino fundamental

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Tudo a seu tempo

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Uma das lições mais importantes que Julyana Mendes, 40 anos, aprendeu com a maternidade foi acompanhar a aprendizagem dos filhos respeitando a individualidade de cada um deles. Ela é mãe de sete, cinco deles matriculados no ensino fundamental, e reforça a importância de manter a parceira com a instituição de ensino. "Nas reuniões iniciais da escola é colocada a expectativa de aprendizagem para aquele ano. Além disso, eu sempre estou presente, porque essa parceria escola e família é o que faz a diferença. Não adianta esperar do colégio se você não está presente", resume.

O acompanhamento é feito pela agenda escolar dos quatro que estão na primeira fase do fundamental - as trigêmeas Maria Fernanda, Maria Carolina e Maria Eduarda, 7 anos, e João Eduardo, 10 - e pela internet no caso de Luís Felipe, 13, que está no 8º ano. %u201CEu dou autonomia para eles, mas cada criança funciona de um jeito. Tem criança que eu preciso deixar que faça do jeito dela, outras que eu tenho de estar do lado, que necessita de um controle externo%u201D, relata.

Um ponto importante, segundo ela, é não exagerar na cobrança nem na liberdade, um equilíbrio cada vez mais difícil atualmente. "Eles já são extremamente estimulados, em todos os sentidos, e são exigidos em todos os sentidos, com informações disponíveis em tablets, celular, na internet", observa. Para ela, esse é um dos elementos mais complicados de lidar na educação dos filhos, e não adianta proibir o acesso. "É uma coisa que não tem volta. Acho que você tem que tornar isso positivo, e não excessivo."

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Julyana Mendes tem sete filhos e acompanha a formação de cada um. João Eduardo e as trigêmeas Maria Eduarda (E), Maria Carolina e Maria Fernanda estão nos anos iniciais do fundamental | Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press

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A importância de brincar

| Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press

Na educação infantil, a professora Fatima Guerra, da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (FE/UnB), destaca que é importante os pais escolherem uma escola que observe a criança como um ser integral e que eles também tenham essa visão. "A criança é uma só. Não tem a criança da família e a criança da escola. Tem uma pessoa só, em uma fase muito especial do desenvolvimento", explica Fatima, que é PhD em educação infantil.

No âmbito escolar, essa visão completa da criança a partir de quatro anos se reflete em atividades que estimulem a construção do conhecimento e da aprendizagem de diferentes linguagens - oral, escrita, da arte, da estética, corporal e até a digital - por meio da brincadeira. "Tudo isso sem se preocupar com a escolarização rígida do ensino fundamental", observa.

Também é o momento de iniciar o processo de letramento dos pequenos, mas sem pressioná-los demais. "É claro que com quatro ou cinco anos a criança pode e deve começar a aprender a ler, porque vive numa sociedade letrada e não pode ficar de fora. Mas isso não quer dizer que a alfabetização vire uma obrigação nessa etapa e que não possa ocorrer de maneira lúdica", avalia.

Outras aprendizagens básicas elencadas pela especialista - naturais do desenvolvimento infantil e que devem ser acompanhadas na escola - são a percepção da própria identidade, sobre quem ela é e seu lugar no espaço e no tempo, e o conhecimento de princípios como solidariedade, ética, justiça, igualdade de direitos e de acesso e cidadania.

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Eliane Perdigão, diretora pedagógica do Le Petit Galois, reforça a necessidade de respeitar o desenvolvimento em cada faixa etária, sem retardar ou acelerar o processo. "A criança não vem vazia, ela traz para a escola a vivência, a cultura, as experiências e a postura da família. É aqui que ela vai fazer essa troca", explica a diretora.

Ela destaca que a criança deve chegar ao ensino fundamental 1 com a psicomotricidade e percepção do corpo bem desenvolvidas, ou seja, com destreza motora e, ainda, com pequenos hábitos incorporados, como cortesia, convivência, ética e respeito às normas e limites. "É o link que eu tenho do infantil para o fundamental 1. Quando a criança ingressa no 1º ano, eu não quero que ela tenha um desenvolvimento cognitivo superacelerado e, por outro lado, apresente uma dificuldade relacional enorme."

Já durante os anos iniciais do ensino fundamental, a diretora explica que devem ser desenvolvidas habilidades de compreensão e interpretação do mundo, de interpretação gráfica - escrita, leitura e produção de texto - e domínio do pensamento lógico-matemático - com compreensão das quatro operações matemáticas.

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É claro que com quatro ou cinco anos a criança pode e deve começar a aprender a ler, porque vive numa sociedade letrada e não pode ficar de fora. Mas isso não quer dizer que a alfabetização vire uma obrigação nessa etapa e que não possa ocorrer de maneira lúdica"Fatima Guerra, professora da Faculdade de Educação da UnB

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Avanço monitorado

Nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio, os estudantes devem desenvolver cada vez mais a autonomia e se preparar para a transição entre as etapas

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O acompanhamento que a pedagoga e servidora pública Mirian Benites Falkenberg, 51 anos, faz da formação dos três filhos tem como base o diálogo. "Os pais têm a obrigação de acompanhar a vida escolar do filho. Esse acompanhamento é diário, por meio da conversa. Na nossa família, eles têm uma liberdade muito grande para conversar", relata.

O mais velho, Fernando, 19 anos, já está na universidade e estudou durante o segundo ciclo do ensino fundamental na mesmo escola em que as irmãs estão matriculadas. Helena, 14, está no 9º ano e vai para o ensino médio em 2017. Ana, 12, cursa o 7º ano. Mirian escolheu a escola depois de visitá-la e gostar da proposta pedagógica, que, na avaliação da pedagoga, equilibra bem o aspecto acadêmico com outras atividades relevantes para a formação dos filhos.

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Mirian com as filhas Ana e Helena: acompanhamento da formação em casa é por meio do diálogo | Foto: André Violatti/Esp. CB/D.A. Press

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"Infelizmente, o nosso sistema de ensino é muito competitivo, acredito que por causa da preocupação de levar a uma vaga na UnB ou no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Entretanto, acho que essa pressão não pode ser exagerada", afirma.

Daniel Souza, diretor-geral do SEB Dínatos COC, explica que é no segundo segmento do ensino fundamental que o estudante começará a criar o hábito do estudo diário, além de desenvolver habilidades e competências que o ajudarão a chegar ao ensino médio mais preparado. "O aluno vai aprender a resolver problemas e a expandir o uso da linguagem, para que consiga, de uma forma ainda não tão autônoma, aprender a aprender", detalha.

Com a facilidade de acesso à informação hoje em dia, Daniel destaca que o aluno pode aprender tudo o que quiser. O desafio da escola - e o que os pais precisam acompanhar na formação dos filhos - é incentivar o interesse de aprender o que será necessário para uma trajetória acadêmica e para a vida de uma maneira mais ampla.

A transição para o ensino médio é outro ponto que precisa de atenção, pois as mudanças na rotina do estudantes são muitas. O diretor do colégio explica que a quantidade de disciplinas quase dobra, o que significa que eles terão mais professores também. "Os conteúdos começam a ser cada vez mais profundos, e isso tudo ocorre num período de tempo muito curto. Demora um pouco para o estudante se organizar. Antes, sobrava tempo. Agora, passa a faltar tempo", complementa Daniel.

Nessa última etapa da educação básica, a palavra de ordem é autonomia. "O estudante tem que atender a várias competências que o próprio Enem elenca de uma forma muito precisa. Deve entender situações-problema, construir uma argumentação e elaborar propostas", destaca. "O ensino médio é um fechamento, e é isto que precisamos que esse aluno entenda: que ele deve ser agente do aprendizado dele. O papel da escola e da família inevitavelmente vai mudar. Vamos passar a ser mais curadores do que transmissores de conhecimento."

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O ensino médio é um fechamento, e é isso que precisamos que esse aluno entenda: que ele deve ser agente do aprendizado dele. O papel da escola e da família inevitavelmente vai mudar. Vamos passar a ser mais curadores do que transmissores de conhecimento%u201DDaniel de Souza, diretor-geral

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