QUAL É A ESCOLA DO FUTURO?

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A educação não conseguiu seguir os avanços tecnológicos com a mesma velocidade em que eles ocorreram. É natural que esse processo de mudança seja mais lento, mas é também inegável que as novas gerações precisam de um modelo educacional diferente e mais conectado à realidade em que elas vivem.



Professores, acadêmicos, pais e até mesmo os estudantes estão em busca desse ideal e têm apenas a certeza de que não deve haver modelo pronto: a escola deve ser moldada aos contextos de cada país, cidade e comunidade. Débora Sebriam, coordenadora de Projetos do Instituto Educadigital, acredita que uma escola do futuro precisa ser menos fragmentada, ou seja, mais interdisciplinar. Um primeiro passo seria, na opinião dela, repensar a divisão em aulas de 50 minutos de duração, por exemplo.

Para a especialista, o fato de a educação não ter acompanhado a velocidade dos avanços tecnológicos tem a ver com a falta do estímulo à participação de professores e estudantes no sentido de criarem e compartilharem os próprios materiais de estudo. "O conteúdo das editoras é importante, mas esse estímulo à autoria também é essencial", observa.

É preciso colocar os alunos como protagonistas no processo de aprendizagem, e os professores, como mediadores. Nosso grande desafio é como relacionar isso ao conteúdo mais fragmentado"Débora Sebriam, coordenadora de Projetos do Instituto Educadigital

Ela acrescenta que a tecnologia pode contribuir para a educação com uma série de recursos que vão além dos digitais. É o caso da robótica, dos Makerspaces Makerspaces são centros que combinam a criação de equipamentos, a integração com a comunidade e a educação com o objetivo de desenvolver algum produto ou solução conjunta e dos FabLabs É sinônimo de makerspace e tem sido usado no empreendedorismo e no meio acadêmico para descrever espaços de inovação. O Massachusetts Institute of Technology (MIT) tem uma rede mundial de laboratórios de fabricação digital, os FabLabs. Um deles fica em Brasília . "É preciso colocar os alunos como protagonistas no processo de aprendizagem, e os professores, como mediadores. Nosso grande desafio é como relacionar isso ao conteúdo mais fragmentado", explica.

Na avaliação dela, esse é um obstáculo a ser vencido não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Modelos que privilegiem uma maior autonomia dos estudantes na construção do aprendizado e com divisão por áreas de interesse são algumas das sugestões de Débora para a construção de um sistema de ensino mais adequado às novas gerações. Esse é um processo de mudança que deverá ocorrer de forma gradativa, salienta a especialista, e que deve contar com a participação de toda a equipe pedagógica nas escolas.

Gabriela valoriza o aprendizado de maneira lúdica na formação da filha, Luiza, com a tecnologia como suporte | Foto: André Violatti/Esp. CB/D.A. Press

A advogada Gabriela Queiroz Soares, 34 anos, sempre buscou para a filha Luiza, 12, colégios que priorizassem a aprendizagem de maneira mais lúdica. "Para mim, a escola precisa ter o cuidado de observar a criança sendo fiel às fases dela", afirma. Na instituição de ensino em que ela está matriculada hoje, o Colégio Seriös, aprende matemática na aula de gastronomia e geometria na de moda.

"A partir daí, o conhecimento chega de uma forma natural, a criança assimila mais facilmente", observa. Ela acredita que a tecnologia tem um papel importante na escola que considera ideal, mas precisa ser vista de forma interligada. "Eu acho que é preciso usar tudo a favor da educação. Ninguém está exigindo que a escola adote uma postura obsoleta, mas ela não pode perder algumas coisas."

Para Francisco Thiago Silva, professor da Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEDF) e especialista em currículo, o primeiro ponto a ser destacado é que a escola do futuro deve ser aquela para a qual não existe receita pronta. Na avaliação dele, também não é possível pensar ainda numa escola de caráter pós-moderno, pois não se conseguiu sequer chegar à completude da modernidade no ensino. "A escola do futuro não pode abrir mão do processo participativo, da gestão democrática, principalmente num país com uma democracia ainda tão frágil", completa.

A escola do futuro não pode abrir mão do processo participativo, da gestão democrática, principalmente num país com uma democracia ainda tão frágil"Francisco Thiago Silva, especialista em currículo

Não pode também abolir os conteúdos clássicos, ou seja, aquilo que ainda não foi superado e que não deve ser confundido como tradicional ou obsoleto, pelo contrário: são temáticas que resistiram ao tempo e que trazem contribuições essenciais para o aprimoramento da cultura adquirida, sobretudo, na escola. Segundo ele, as instituições de ensino precisam usar a tecnologia a favor do aprendizado, e não como mero futurismo.

"Não sou contra a tecnologia, mas ela tem que estar a serviço da escola, e não o contrário. É um recurso a mais que eu tenho para dar aula", explica. E, é claro, precisa fazer parte de um sistema de ensino que garanta formação inicial e continuada de excelência aos professores.

Características da escola do futuro:


  • Tem na tecnologia uma aliada do conhecimento, por meio do uso de softwares livres, de blogs acadêmicos, de wikipedias locais e da criação de aplicativos por professores e alunos
  • Não perde de vista o contexto local. É o caso de uma escola do campo que insere nas aulas a previsão do tempo, usando os recursos tecnológicos disponíveis
  • Valoriza a formação inicial e continuada dos professores, preparando-os para ensinar estudantes do século 21. Por isso, é também uma escola que mantém diálogo constante com o ensino superior
  • Apresenta conteúdos clássicos de maneira conectada à realidade do aluno. Relacionar as revoluções Francesa e Industrial, por exemplo, com textos de blogueiros ou de historiadores contemporâneos
  • Funciona de maneira interdisciplinar e menos fragmentada em comparação ao ensino tradicional. A tecnologia passa a ser um componente curricular que permeia todas as disciplinas
  • Atribui ao aluno o papel de protagonista do processo de aprendizagem. Já o professor é o mediador do conhecimento que cada estudante deve adquirir ao longo da trajetória escolar

Educação é repensada em todo o mundo

A Organização das Nações Unidas (ONU) preconiza em suas metas globais que a escola tenha como objetivo maior o desenvolvimento do ser humano e a busca por um planeta sustentável. Esse é o quarto objetivo definido na agenda para 2030 do organismo internacional. Em novembro de 2015, 184 Estados-membros da Unesco - braço da organização para a Educação, a Ciência e a Cultura - firmaram acordo que determina o Marco de Ação da Educação 2030, reforçando essa meta.

Rebeca Otero, coordenadora de Educação da Unesco no Brasil, destaca que, nesse contexto, a escola ou o sistema educacional ideais devem ter em vista três aspectos: inclusão, qualidade e equidade. Este último diz respeito, por exemplo, ao acesso de homens e mulheres às instituições de ensino. Não basta que o ingresso seja paritário - a mesma proporção de cada gênero matriculada -, trata-se também de igualdade de oportunidades de obtenção do conhecimento e de colocação no mercado de trabalho posteriormente.

Já a inclusão refere-se a uma escola que acolha a todos, como pessoas com algum tipo de deficiência física ou dificuldade de aprendizagem. "Além disso, precisa ter qualidade e, nesse quesito, alguns aspectos são importantes: tem que oferecer professores qualificados, que saibam dar aula, que usem novas metodologias e que sejam inovadores", destaca Rebeca. Para isso, é importante que haja investimento na formação e um plano de carreira que garanta a remuneração adequada.

A infraestrutura ideal é outro ponto ressaltado pela coordenadora, além da participação de toda a comunidade escolar - pais ou responsáveis, professores e estudantes, principalmente os jovens. "É preciso incentivar o protagonismo juvenil", reforça. Essa interação é importante, pois as metodologias de ensino adotadas vão depender de cada região. Além de ensinar o conteúdo tradicional, é importante que a escola incentive o desenvolvimento do pensamento crítico, do raciocínio lógico e que se preocupe com a dimensão da educação ao longo da vida.

Segundo Rebeca Otero, essa é a visão da Unesco sobre a escola do futuro, e não algo de outro mundo. "É uma escola pautada nos direitos humanos, reflexiva, que busca como objetivo o desenvolvimento da pessoa e do planeta", observa.

Foto: Marcelo Ferreir/CB/D.A. Press

O retorno que eu espero dessas escolas é que formem meus filhos como cidadãos críticos e que deem um suporte multidisciplinar"Roberta Oliveira Antunes, mãe de Arthur e Guilherme

São esses elementos que a secretária executiva Roberta Oliveira Antunes, 34 anos, preza na educação dos filhos, Arthur, 8, e Guilherme, 17. Nas séries iniciais do ensino fundamental, o que ela sempre buscou no momento de escolher a escola foi a forma de trabalhar valores.

"O retorno que eu espero dessas escolas é que formem meus filhos como cidadãos críticos e que deem um suporte multidisciplinar, diferente do que eu e meu marido tivemos", relata. Para ela, esse elemento é tão importante quanto uma boa infraestrutura e o método pedagógico adotado. É o que garantirá uma preparação mais completa para o mercado de trabalho e permitirá que os dois possam contribuir de alguma forma para melhorar a sociedade em que vivem.

Na publicação Repensar a educação: rumo a um bem comum mundial?, a Unesco elencou diversos pontos que ajudam a pensar qual seria a escola ideal para as novas gerações. Um dos trechos destaca que a educação e o conhecimento deveriam ser considerados bens comuns mundiais. "Isso significa que a criação de conhecimentos, seu controle, sua aquisição, sua validação e seu uso são comuns a todas as pessoas, como um esforço social coletivo. A governança da educação não pode mais ser separada da governança do conhecimento", informa o texto.

Esse é um ponto a ser considerado não só no Brasil, mas em todo o mundo, conforme destaca Rebeca Otero, lembrando que a situação dos refugiados na Europa exigirá atenção especial inclusive no âmbito escolar. Mesmo no continente europeu e na Ásia, onde países como Finlândia, Suécia, Reino Unido e Coreia do Sul se destacam com ótimos indicadores nas respectivas redes de ensino, currículos e metodologias precisam ser repensados de tempos em tempos. "Espera-se que um povo educado, que tenha um itinerário formativo no campo educacional adequado, seja pacífico e que melhore o planeta", resume.

Os quatro pilares da educação ao longo da vida:


  • Aprender a conhecer, combinando uma cultura geral, suficientemente ampla, com a possibilidade de estudar, em profundidade, um número reduzido de assuntos, ou seja: aprender a aprender, para beneficiar-se das oportunidades oferecidas pela educação ao longo da vida
  • Aprender a fazer, a fim de adquirir não só uma qualificação profissional, mas, de uma maneira mais abrangente, a competência que torna a pessoa apta a enfrentar numerosas situações e a trabalhar em equipe
  • Aprender a conviver, desenvolvendo a compreensão do outro e a percepção das interdependências - realizar projetos comuns e preparar-se para gerenciar conflitos - no respeito pelos valores do pluralismo, da compreensão mútua e da paz
  • Aprender a ser, para desenvolver, da melhor forma possível, a personalidade e estar em condições de agir com uma capacidade cada vez maior de autonomia, discernimento e responsabilidade pessoal

Fonte: Unesco

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