Habilidades para o Século 21

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Vários aspectos daquele considerado o modelo tradicional de ensino vêm sendo questionados. O sistema de educação permaneceu inalterado por muito anos, não só no Brasil como no resto do mundo também, e as mudanças começam a chegar, mesmo que timidamente. A oferta de componentes extracurriculares ou interdisciplinares surge como alternativa à rotina repetitiva de aulas e exercícios, que não parece ser suficiente, na maior parte das vezes, para que o aluno do século 21 esteja apto a enfrentar os desafios da vida - e não apenas vestibulares.

"Por muito tempo, pensávamos na escola como um lugar que completa a educação dada em casa pelos pais. Na verdade, uma coisa complementa a outra. É lá que a criança passa grande parte do dia e da vida", argumenta Tatiana Nakano, professora de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Cabe à instituição ter essa visão e oferecer aulas diversificadas na grade curricular. Ela reconhece que o número de escolas que estão se adaptando cresceu. Existem vários exemplos de instituições que se importam em passar para os alunos habilidades que são importantes para o mercado de trabalho, como criatividade e liderança.

Há quatro anos, o professor de matemática do Colégio Alub, Fernando Rodrigues, começou a lecionar um novo tipo de aula. Isso porque a escola decidiu investir em matérias que vão além do conteúdo padrão, classes que pudessem aproximar o aluno da realidade. Fernando foi convidado para dar aulas de educação financeira e mostrar aos estudantes a relevância da organização financeira e que saber planejar as finanças é uma lição para a vida inteira.

Estudantes participam de atividades sobre sustentabilidade e educação financeira | Andre Violatti/Esp. CB/D.A Press

No colégio, aulas como a de educação financeira não são opcionais, integram a grade curricular da escola, ao lado de disciplinas como português e geografia. Durante as aulas, o conteúdo é trabalhado de três formas com os alunos. Temas como economia e planejamento são estudados de forma teórica, prática e com trabalhos realizados em casa, com a família, de acordo com a realidade de cada um. "Os pais comentam que os filhos desenvolveram uma compreensão maior das despesas da casa e se oferecem para ajudar. Seja financeiramente, seja por meio de uma economia", conta o professor.

Para manter o entusiasmo dos estudantes, Fernando traz, para o ambiente de aprendizado, temas de interesse dos alunos, para que eles façam pesquisas. A faixa etária dos estudantes é de 11 a 14 anos. Nessa idade, muitos deles dizem querer um animal de estimação. O professor, então, propôs uma pesquisa sobre os gastos envolvidos na rotina dos bichinhos. "Dessa forma, eles puderam visualizar as despesas de ração, veterinário e banhos", exemplifica o educador. Segundo Fernando, após esse trabalho, muitos alunos decidiram adiar o plano de adquirir um cachorro ou um gato, porque acharam as despesas altas.

Além de educação financeira, a escola oferece aulas de ética e de cidadania, inteligência emocional e o projeto Jovem Escritor. "A educação está cada vez mais voltada para o dia a dia. Essa é uma forma de mantê-los motivados a ir para a escola. É preciso investir nesse tipo de atividade", afirma Fernando. Ele defende que os conteúdos extracurriculares são ferramentas que ajudam na formação de cidadãos mais conscientes e que buscam cada vez mais conhecimento.

Desenvolvimento integral

É cada vez mais comum o debate sobre o desenvolvimento de competências para o século 21. Especialistas reforçam a importância dessa discussão, que já tomou proporções mundiais, e ressaltam que a escola precisará se preocupar em incluir essas habilidades no currículo para garantir a formação completa dos estudantes.

Para a presidente executiva do movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz, o debate em torno dessas competências tem crescido. Na opinião dela, é preciso ir além dos conteúdos que a escola tem que ensinar a todas as crianças e jovens: este é o momento de começar a desenvolver habilidades para a vida. "A escola deve fazer um trabalho integral, fortalecendo todas as potencialidades do jovem. Essas habilidades já são valorizadas, mas, no futuro, serão ainda mais importantes", garante a especialista.

Priscila atribui o crescimento dessa corrente na educação aos estudos recentes que apontam reações positivas em alunos que desenvolvem essas capacidades (leia artigo na página 58). Por mais que a relação pareça indireta, o rendimento em sala dos estudantes que se envolvem em atividades extracurriculares aumenta. No entanto, ela chama a atenção para um incoerência. "Não é só o jovem do século 21 que precisa ser criativo e inovador. Estas sempre foram competências importantíssimas, mas a percepção de que era preciso investir nelas dentro do ambiente escolar só ocorreu agora", analisa. A presidente executiva do Todos pela Educação diz que os pais devem ficar atentos para diferenciar os modismos e o marketing de um trabalho sério.

Nessa perspectiva, a pesquisadora da PUC-Campinas Tatiana Nakano ressalta a importância do investimento em aulas diversificadas, pois o modelo escolar tradicional não atende mais às necessidades das crianças. "Vemos isso por meio dos números de reprovações e desistências", comenta a especialista. A escola se tornou muito desinteressante, mas ainda é possível reverter esse quadro.

Os alunos Antônio, Juliano e Leonardo estudam robótica sob a tutoria do professor Mauro e, neste mês, participaram de competição nacional | Carlos Moura/CB/D.A. Press

O professor Mauro Viana leciona oficinas de robótica no Colégio Mackenzie há 10 anos. A matéria é optativa e oferecida no horário contrário ao da aula, mas isso não diminui o engajamento dos 35 alunos que participam. Ele conta que os estudantes que se interessam pelo projeto costumam ter um perfil comum. "Geralmente, são os que têm mais afinidade pelas ciências e pela matemática. Dificilmente você encontrará na aula de robótica um aluno que tem interesse por geografia ou por história", afirma. O número de meninas ainda é pequeno, são apenas duas.

Além da afinidade pelo tema, o docente atribui a busca pelas aulas, ao reconhecimento internacional da escola nesse área. Faz 10 anos consecutivos que os estudantes de lá representam o Distrito Federal no torneio RoboCup. Já se classificaram duas vezes para o mundial e conquistaram o título de campeões no México, em 2012. As competições se tornaram parte importante do aprendizado e os alunos estão sempre envolvidos. Na véspera do torneio, o professor Mauro diz que a empolgação é visível.

Para ele, a maior vantagem das atividades interdisciplinares é a prática. No laboratório de robótica, os alunos têm a oportunidade de acessar o conhecimento encontrado nos livros e valorizam isso. "Eles comentam que têm mais facilidade de entender os conteúdos dados em sala de aula. Às vezes, não compreendem alguma coisa na aula e, quando chegam na oficina, conseguem assimilar", explica Mauro.

O envolvimento dos alunos do Mackenzie com as aulas de robótica é uma prova da importância das atividades extracurriculares. Eles se sentem motivados e inspirados pelos conteúdos e vivências que obtêm nos encontros semanais.O professor menciona que os estudantes se dividem entre duas áreas: as engenharias e a computação. Os alunos Antônio Rodrigues, Juliano Almeida e Leonardo Andrade são exemplos disso.

Antônio, 12 anos, é um dos entusiastas da matéria. Segundo ele, robótica é um conteúdo mais tecnológico e tem a ver com o que o futuro nos reserva, por isso é tão fascinante. Ele participa das aulas há cinco anos e acha iniciativas como essa muito importantes. "Dessa forma, você incentiva os alunos a terem um futuro diferente; está libertando ele para fazer o que quiser", afirma. Os três começaram as aulas praticamente juntos e se tornaram grandes amigos. No início do mês, partiram juntos para a competição nacional de robótica.

Competição mundial


    A RoboCup é uma competição internacional de robótica e inteligência artificial. A primeira ocorreu em 1997, em Nagoya, no Japão, com a participação de 40 times e mais de 5 mil espectadores. A competição anual da RoboCup no Brasil ocorreu entre 9 e 12 deste mês, em Recife. O evento contou com mais de 400 atividades, entre palestras, workshops e apresentações científicas. Os participantes se qualificam durante todo o ano, em etapas estaduais na Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR) ou aprovando trabalhos nos simpósios, por exemplo.

ARTIGO | Por que a aprendizagem socioemocional precisa estar nas escolas?

Por Celso Lopes de Souza*

Entrar no mercado de trabalho, prosseguir os estudos, exercer a cidadania. Há um consenso entre os especialistas de que os 12 anos de educação básica devem preparar os jovens para esses três desafios. Além disso, todos querem que suas filhas e seus filhos sejam realizados pessoal e profissionalmente. A pergunta que costumo fazer é: apenas com aulas convencionais de português, inglês, matemática, história, geografia ou ciências é possível conseguir isso? Durante muito tempo, acreditou-se que sim.

No entanto, não são raros os casos de estudantes com ótimas notas no ensino fundamental e no ensino médio que se tornam adultos frustrados e infelizes; analogamente, alunos e alunas com problemas de aprendizado nas disciplinas do currículo tradicional podem ser, no futuro, profissionais bem-sucedidos e cidadãos responsáveis. Convivi com essa realidade muitas vezes, tanto nas conversas com estudantes em sala de aula, quanto no acompanhamento de pacientes.

Com efeito, de que adianta saber falar sobre biodiversidade, reciclagem de lixo, democracia, combustíveis renováveis se a pessoa não é capaz de gerir emoções, de criar empatia ou de tomar decisões responsáveis?

Essas habilidades, essenciais no século 21, que formam o que chamamos de aprendizagem socioemocional, são valorizadas há muitos anos nos Estados Unidos e na Europa, mas ainda não são desenvolvidas, de maneira estruturada, em muitas das escolas brasileiras.

Talvez exista a crença de que essas habilidades sejam inatas, como se se tratassem de dons, com as quais a pessoa é simplesmente premiada. Ocorre que as coisas não funcionam assim. É possível desenvolvê-las, ensinando crianças e jovens a debater com respeito, a ter autocontrole, a compreender a diversidade cultural, a traçar objetivos, a cumprir metas, a trabalhar em grupo, da mesma forma que ensinamos conteúdos de química, sociologia, geometria, filosofia, física, artes ou redação. E isso vale para todas as pessoas.

Existe, nos Estados Unidos, com sede em Chicago, uma organização - voltada para o desenvolvimento das habilidades socioemocionais de alunos da educação básica - chamada Casel (sigla para Espaço Colaborativo para a Aprendizagem Acadêmica e Socioemocional, em livre tradução), que se tornou o principal centro de estudos de aprendizagem socioemocional do mundo.

Talvez exista a crença de que essas habilidades sejam inatas, como se se tratassem de dons, com as quais a pessoa é simplesmente premiada. Ocorre que as coisas não funcionam assim. É possível desenvolvê-las, ensinando crianças e jovens a debater com respeito, a ter autocontrole, a compreender a diversidade cultural, a traçar objetivos, a cumprir metas, a trabalhar em grupo, da mesma forma que ensinamos conteúdos de química, sociologia, geometria, filosofia, física, artes ou redação. E isso vale para todas as pessoas"

Em 2011, um grupo de pesquisadores ligados ao Casel fez um estudo, reunindo os resultados de inúmeras pesquisas ao redor do mundo que avaliavam o impacto de programas de aprendizagem socioemocional na vida de estudantes da educação básica. Ao todo, o levantamento envolveu cerca de 270 mil estudantes. A equipe de Chicago encontrou evidências robustas de que esses programas eram responsáveis pela diminuição de problemas disciplinares, pela melhora na disposição para aprender e pelo aumento do comprometimento escolar.

Além disso, programas de aprendizagem socioemocional contribuíam para a diminuição da incidência de transtornos psiquiátricos ao longo da vida. Parece claro que tudo isso é mais do que desejável no momento em que estamos preparando jovens para, de maneira autônoma, prosseguirem os estudos, entrarem no mercado de trabalho, exercerem a cidadania e encontrarem a sua realização. Mas o dado mais surpreendente desse estudo foi outro: os pesquisadores comprovaram que programas que trabalhavam sistematicamente com as habilidades socioemocionais geravam uma melhora de 11%, em média, no desempenho acadêmico tradicional.

*Celso Lopes de Souza é professor, médico psiquiatra e criador do Programa Semente

Para que se tenha uma ideia de como esse número é elevado, basta lembrar que o Ideb (índice que mede o desenvolvimento da educação básica no país) do ensino médio passou de 3,4 em 2005 para 3,7 em 2015. Em 10 anos, tivemos um crescimento que não chegou a 9%. O orçamento do Ministério da Educação, nesse mesmo período, aumentou mais de 200% acima da inflação. Não é difícil notar que houve um descompasso entre investimentos e resultados. Talvez uma medida simples, como a inclusão de programas de aprendizagem socioemocional no currículo do ensino médio, tivesse sido mais eficiente.

Não parece sensato, num momento em que discutimos como deve ser a escola do século 21, que o debate continue a ser feito apenas a partir dos currículos tradicionais. É hora de pensar "fora da caixa", para usar uma metáfora popular. Os resultados expressivos que programas de aprendizagem socioemocional têm obtido fora do Brasil indicam que as saídas para a educação básica podem não estar apenas onde imaginamos. Temos uma enorme oportunidade de, escutando as evidências científicas, pensar em soluções menos convencionais e contribuir de maneira mais efetiva para o projeto de vida de nossas crianças e jovens.

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