W3 | A AVENIDA DE BRASÍLIA

'O principal desafio da W3 é reinventar-se', diz especialista

Frederico Flósculo, professor da UnB e ganhador do concurso nacional de revitalização da W3, fala sobre a salvação de uma das principais avenidas da capital

Minervino Júnior/CB/D.A.Press - 13/04/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Caderno aniversário de Brasília. W3 sul.
A revitalização da W3 enfrenta diversos desafios, desde superar a falta de continuidade de projetos de gestão pública até resistir à pressão da especulação imobiliária. É o que defende o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (FAU-UnB) Frederico Flósculo. Segundo o especialista, que em 2002 ganhou o concurso nacional de revitalização da W3, o futuro da avenida depende de uma governança coordenada entre o Governo do Distrito Federal (GDF) e a sociedade, priorizando a escala horizontal de Lucio Costa e o fortalecimento de instituições artísticas. Confira os principais trechos da entrevista:

Qual é o principal desafio da W3 hoje?

O principal desafio da W3 neste momento, em 2026, é realmente reinventar-se. A W3 pode e deve reinventar-se. o problema é que dificilmente fará isso sozinha. Você tem a parceria da comunidade, você tem a parceria dos artistas, você tem a parceria dos comerciantes, dos empresários, você tem tantas parcerias que poderiam estar coordenadas pelo governo, e não estão. O governo não coordena parcerias. O GDF deixou de ser protagonista do desenvolvimento de Brasília, deixou de ser o grande discutidor para se tornar apenas um terceirizador de serviços públicos, um gerente de contas a pagar a empresas que prestam o verdadeiro serviço. Então, é um desafio muito grande, porque a comunidade dificilmente consegue ter a resiliência, a persistência para se organizar na direção de fazer com que a W3 seja um corredor cultural. Na época do concurso de 2002, essa diretriz do corredor cultural na W3 foi aceita unanimemente pela comunidade. Os moradores adoraram, assim como adoraram que eles tivessem suas prefeituras fortalecidas; da mesma maneira, a associação comercial fosse fortalecida; que nós tivéssemos um ciclo de revitalização baseado em ciência, em conhecimento e em oficinas de inovação empreendedora. A W3 tem tudo para ser um grande laboratório da cidade nas áreas de negócios, nas áreas de serviços, nas áreas da cultura, e não é, porque o governo não toca uma só dessas políticas de maneira criativa.

Qual foi a sua proposta vencedora para o concurso de revitalização da W3 em 2002?

A proposta de revitalização da W3 foi baseada nos pressupostos da psicologia ambiental, da sociologia urbana, das ciências comportamentais aplicadas ao urbanismo. Então, foi baseada numa extensa pesquisa junto aos moradores e no exame dos fundamentos da melhor versão da W3 de acordo com quem mora, e não de acordo com quem quer especular com a cidade. O que querem os moradores? Os moradores querem que a W3 tenha uma comunidade com prefeituras fortes, tenha uma vizinhança que realmente faça com que o cotidiano da W3 seja, digamos assim, parisiense. O que é um cotidiano parisiense? É um cotidiano que você tem o comércio das padarias, o comércio da refeição, o comércio do encontro, o comércio da cultura. Todo esse comércio do gregarismo implantado de uma forma gentil, uma forma que não é exagerada, impactante, digamos assim, americanizada, extremamente verticalizada. Então a proposta buscou retratar os desejos da comunidade. Na verdade, o que a proposta vencedora desenhou foi o retrato de uma W3 revitalizada na versão da comunidade. Também ouvimos os comerciantes, os empresários, e era consenso que uma W3 que enfatizasse a vida comunitária, a vida cultural, a beleza do verde, a beleza da cidade parque, retomasse o caminho de Lucio Costa, seria a melhor proposta. E foi exatamente essa a proposta vencedora do concurso nacional de 2002.

Minervino Júnior/CB/D.A.Press - 13/04/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Caderno aniversário de Brasília. W3 sul.

E qual o principal trunfo da sua criação? Por que manter a ideia de uma avenida horizontal pode funcionar em uma metrópole?

A horizontalidade que assegurou a vitória da proposta que realmente foi escolhida pelo júri do concurso de 2002, o concurso nacional de revitalização da W3, ela respeitou sobretudo as escalas de Lucio Costa. Respeitou as proporções para as áreas residenciais, para as áreas comerciais, para as áreas de serviços do conjunto urbano, não somente da W3 Norte como da W3 Sul, sobretudo no caso da bela W3 Sul, muito mais bonita do que a W3 Norte. A W3 Norte foi deformada pela equipe de urbanismo dos governos militares. Eles deformaram a W3. Na verdade, o que nós temos que preservar em Brasília é essa escala de uma certa horizontalidade que se combina moderadamente com essa verticalidade dos seis andares, nas superquadras, e dos três andares na região das 500 Sul. Já a Asa Norte, ela tem mais andares, mas de um modo geral prepondera uma certa horizontalidade, não somente na W3 em toda Brasília. Assegurar que a cidade não se verticalizasse e assim não congestionasse, não tivesse seu trânsito congestionado, não tivesse sua vida no chão, no térreo, nos jardins totalmente comprometida pela especulação imobiliária, que é fortíssima em Brasília, foi uma grande vitória. Graças àquela única proposta dentre 30 que realmente preservou o projeto de Lucio Costa, nós não temos uma W3 desastrosamente verticalizada nos dias de hoje. E era isso, infelizmente, que o governo Roriz, que promoveu aquele concurso nacional, queria. Ele queria desmoralizar o tombamento, desmoralizar a proposta de Lucio Costa.

O VLT pode ser mesmo uma boa opção para a avenida?

O VLT é totalmente viável com a ampliação do calçadão das 500 Sul e Norte, com a criação de pistas um pouco mais estreitas, tanto indo quanto vindo, nas duas mãos. A W3 continuaria com a mesma capacidade de fluxo de trânsito, só que agora com um calçadão nas 500 pelo qual passaria o VLT. Os usuários do VLT desceriam no calçadão, subiriam no VLT pelo calçadão, o comércio se beneficiaria enormemente. O valor das áreas comerciais na W3 subiria para o espaço sideral. A competitividade comercial, a luta pela qualidade, a luta pelo usuário, a luta pelo cliente seria uma coisa belíssima de ver em Brasília.

Como a ocupação cultural contribui para uma cidade (e uma localidade) mais harmônica, e inclusive menos violenta?

Nós temos que a cultura, ela acaba arregimentando talentos que vêm do povo, talentos que vêm de escolas de arte, talentos que vêm de um mercado que valoriza o intelecto, que valoriza a beleza, que valoriza o artesanato, que valoriza as mulheres, que valoriza os adolescentes, que valoriza os idosos capazes e desejosos e hábeis no fazer a arte. Valoriza o teatro, valoriza o cinema. Então é isso que nós deveríamos ter: o experimento da cultura com o fortalecimento de uma coisa que Brasília não pratica, que é o convite a grandes instituições do mundo para instalarem-se em Brasília. Nós podemos ter espaço para a Guggenheim Foundation, para a Fundação Le Corbusier, para o Museu de Arte Moderna de Nova York. Eles podem ter sucursais em Brasília, mas eles devem ser convidados. É aí que entra o Governo do Distrito Federal, é aí que entra o Itamaraty, a política externa fortalecendo a capital do Brasil como um grande atrator de instituições e eventos culturais. E não é isso que temos. O maior evento que nós temos é proporcionado pela construção civil, na forma de edifícios de péssima qualidade, em um festival de ostentação e especulação imobiliária. Isso não é cultura, isso não é avanço, não é civilização brasileira.

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