CANDANGÃO

Acima da média

Entenda por que a faixa etária dos elencos de Gama e Brasiliense serviu para levá-los à final local, mas não se enquadra na fórmula do sucesso dos últimos 12 times que subiram da série D para a C do Brasileirão

Protagonistas do último capítulo do Candangão 2020, hoje, às 16h, no Bezerrão, Gama e Brasiliense têm um dever de casa para depois da euforia do título ou da frustração causada pelo vice: observar com lupa pequenos detalhes na montagem dos elencos promovidos da Série D para a C do Campeonato Brasileirão nas últimas três temporadas.

Representantes do Distrito Federal na quarta divisão deste ano — a partir de setembro — os arquirrivais começaram o primeiro duelo, na última quarta-feira, no Mané Garrincha, usando times titulares com média de idade igual ou superior a 30 anos. O plano costuma dar certo nos torneios domésticos, mas, em âmbito nacional, a fórmula da juventude vem se firmando como segredo do sucesso.

Doze times subiram para a Série C nas últimas três temporadas. Nenhum elenco tinha média de idade superior a 30 anos (veja gráficos). O mais velho entre eles foi o Juazeirense. O grupo da equipe baiana tinha 26,7 anos. Favorito ao título depois da vitória por 3 x 1 no jogo de ida, o Brasiliense começou o duelo, no Mané Garrincha, com média de 31,5 anos. Oito jogadores escalados pelo técnico Márcio Fernandes eram trintões. Apenas Bruno Lima (27), que hoje dará lugar a Railan, Peninha (27) e Esquerdinha (29) estão na faixa etária inferior aos 30 anos.

Mesmo assim, o “vovô” da turma comeu a bola. O experiente Marcos Aurélio fez gol, deu assistência e faltou fazer chover em tempos de seca na capital (leia entrevista). Aos 36 anos, o camisa 10 tem cinco gols no Candangão e um na Copa do Brasil. Hoje, pode levar o Brasiliense ao deca no mês em que o clube festejou 20 anos. A festa do título pode ser justamente no Bezerrão, a casa do arquirrival.

Atual campeão, o anfitrião Gama iniciou o jogo de ida com média de 30,09 anos. Rodrigo Calaça (39), Emerson (37), Esquerdinha (30) e Nunes (38) são os experientes da companhia. Por sinal, o veterano centroavante dá exemplo: é o artilheiro isolado do Candangão com 12 gols.

Obrigado a vencer por dois gols de diferença para forçar a disputa por pênaltis ou por três para conquistar o título pela 14ª vez, o técnico Vilson Tadei pode até rejuvenescer o time para ter mais fôlego na corrida contra o relógio para fazer o resultado. Nunes prevê mais um jogo duríssimo. “No ano passado, o Brasiliense não conhecia muito os jogadores do Gama. Neste ano, estão mais espertos”, argumenta, após a perda de 33 jogos de invencibilidade.

A tentativa de virada alviverde terá doping emocional hoje. A torcida uniformizada Ira Jovem organizou recepção ao ônibus do time do lado de fora do Bezerrão — a partida será com portões fechados. Em homemagem ao recém-falecido locutor Marcelo Ramos, o presidente da Federação de Futebol do DF, Daniel Vasconclelos, batizou a taça com o nome do “narrador do povão”, como era conhecido o ilustre torcedor do Gama.

Seis perguntas para MARCOS AURÉLIO, meia do Brasiliense

Como foi quebrar a invencibilidade do Gama?
É a disputa contra o maior rival. Sabemos que a equipe do Gama é muito boa, que estava invicta, mas, em clássico, só se pensa naquele jogo. A concentração e o foco foram fundamentais. Clássico não tem favorito, é resolvido nos detalhes. Ainda bem que consegui encontrar as oportunidades de gol e a equipe soube aproveitar. A postura tem de ser igual, temos de entrar focados novamente.

Quais pontos você destaca no ataque do Brasiliense?
Temos a oportunidade de trabalhar com Zé Love, Neto Baiano e Douglas. São atletas com muita qualidade e experiência. Os treinamentos são fundamentais para manter uma boa performance. São jogadores que pensam o jogo. Todos têm entrosamento, mesmo os que chegaram há pouco tempo adaptaram-se rapidamente. Minha característica é chutar, deixar companheiros em boas condições e bater bem nas bolas paradas.

Como manteve a precisão do chute na quarentena?
Fazia exercício funcional no meu apartamento. Pegamos pesos na academia para praticar em casa. Minha esposa acompanhava. É difícil para quem estava acostumado a treinar no campo, sempre com bola. Uma coisa que minimizava era correr na rua, mas, de máscara, é difícil. Procurei fazer o trabalho na minha casa e manter a boa alimentação. Fiquei sem treinar com bola, mas, na volta, estava bem com a parte física e deu para calibrar o pé facilmente. Tenho um jeito certo de bater na bola e a experiência de fazer isso.

As suas cobranças de falta foram decisivas no primeiro jogo da final. Treina até tarde?
Sempre gostei de treinar. Isso vale, inclusive, para uma das minhas características, que é bater bem na bola. No ano passado, quando joguei pelo Botafogo-PB, tive várias oportunidades de bater falta de média distância e foi muito bom. Prefiro falta próxima da área. Dá para bater com mais precisão, não precisa colocar tanta força.

Há batedores de falta clássicos no Brasil?
Acabou esse meia que tem facilidade nas faltas, como era o Petkovic, excepcional batedor de falta, que me ajudou também a ser um bom cobrador. Mostrou-me como era importante o treinamento. Os caras eram daqueles que, quando tinha gol perto da área, era gol, trave ou o goleiro chegava na bola. Desse jeito teve também o Alex, o Marcelinho Carioca. Hoje, está escasso. Acredito que foi pela mudança no estilo de jogo, que passou a exigir muita força física. Antigamente, o futebol era muito mais posicionado, cadenciado. Hoje, tem de estar com o preparo físico 100%, o jogo tem muita velocidade pelas laterais e os meias têm de ajudar na marcação.

O Brasiliense tem alguns veteranos. Como isso reflete no estilo de jogo do time?
A nossa parte física precisa estar em dia. Não temos mais 20 a 25 anos. Mas a nossa preparação física é excelente. Todo mundo está se ajudando. A experiência conta muito em decisão. Vivemos partidas importantes. Mantemos a tranquilidade para jogar e passamos confiança aos mais novos. (MN)