AUTOMOBILISMO

Pé na estrada

Nelsinho Piquet ampliará o currículo com participação inédita no Rally dos Sertões no fim deste mês. Em entrevista ao Correio, o candidato ao título da Stock Car conta por que topou o desafio off-road

Maíra Nunes
postado em 05/10/2020 22:33
 (crédito: Piquet Sports/Divulgação)
(crédito: Piquet Sports/Divulgação)

Aos 35 anos, Nelsinho Piquet acumula mais de duas décadas dedicadas ao automobilismo profissional. O alemão nascido em Heidelberg e radicado em Brasília foi o primeiro campeão mundial na história da Fórmula E — a categoria revolucionária de carros elétricos —, subiu ao pódio na Fórmula 1 na temporada de estreia dele, em 2008, conquistou o vice-campeonato na GP2, tem títulos da F-3 Britânica e F-3 Sul-Americana e vitórias na Nascar. Agora, vive o melhor início de temporada na Stock Car. Mesmo assim, não dispensou a oportunidade de inovar mais uma vez no esporte a motor. Ele aceitou disputar, pela primeira vez, o Rally dos Sertões.

“Sempre gostei de correr em qualquer modalidade. Corri tudo na minha vida. Correr nos Sertões era só questão de achar uma equipe”, diz Nelsinho em entrevista ao Correio. Ele pilotará o UTV Can-Am Maverick X3 com a equipe Varela Racing Team. Para Nelsinho, o mais diferente será dividir a aventura com um navegador responsável pela condução do trajeto ao lado do piloto.

O filho do tricampeão mundial Nelson Piquet entrou para o mundo off-road por meio do pai. “Foi em uma expedição de quadriciclo, de Fortaleza a São Luiz, há muitos anos”, conta Nelsinho. Quando passou a frequentar os Lençóis Maranhenses, ele experimentou andar no Can-Am de um amigo. “Achei o lugar maravilhoso e o UTV também, tanto que comprei um para usar lá”, conta.

A largada do Rally dos Sertões está marcada para 30 de outubro, no Autódromo Velocitta, em Mogi Guaçu (SP), e a chegada para 7 de novembro, em Barreirinhas (MA). São 5.000km. Os competidores cruzarão cinco estados e o Distrito Federal, onde cresceu.

“É uma coincidência boa. Não sei exatamente por onde do DF o Rally passará, mas é sempre bom andar por lá. Conheço bastante e já tem um tempo que não ando”, anima-se. Mas o percurso todo promete ser encantador, ainda mais para quem gosta de natureza, como Nelsinho diz ser o caso dele. “É uma corrida superconhecida, que passa por áreas muito bacanas, vários lugares que nós, brasileiros, não conhecemos.”

Nelsinho não poderá cumprir o trajeto completo dos Sertões. A corrida está prevista para terminar na véspera da etapa de Curitiba da Stock Car. Na terceira temporada completa na categoria, o piloto vive o melhor início de campeonato. Em quatro provas, conquistou dois pódios. Entre eles, a primeira vitória na principal categoria do automobilismo brasileiro, no fim de agosto, em Interlagos (SP).

“Temos um carro bom. Estamos trabalhando com pessoas boas e, agora, eu chego no fim de semana de corrida com aquela confiança em alta. É bom sentir isso”, comemora o piloto da equipe Texaco Full Time Sports, décimo colocado na classificação geral, com 99 pontos, 47 a menos que o líder, Rubens Barrichello.


Experiência na Fórmula 1

Antes de representar o país em várias modalidades pelo mundo, Nelsinho Piquet foi a esperança do Brasil na Fórmula 1. Em 2008, terminou o Grande Prêmio da Alemanha na segunda colocação a bordo da Renault. Naquele ano, Nelsinho e o inglês Lewis Hamilton, que conquistaria seis campeonatos mundiais, dividiram o pódio no GP da Alemanha. Foi a última vez em que dois pilotos brasileiros terminaram uma corrida da categoria entre os três primeiros. A vitória de Lewis Hamilton, com a McLaren, teve Nelsinho Piquet e Felipe Massa em segundo e terceiro lugar, respectivamente.

No ano seguinte, porém, Nelsinho protagonizou escândalo e as portas da principal categoria do esporte a motor fecharam-se para ele. O piloto confessou que provocou acidente no Grande Prêmio de Singapura de 2008 para forçar a entrada do Safety Car e facilitar a vitória do companheiro de equipe, o espanhol Fernando Alonso.

Segundo as investigações, Flavio Briatore, chefe da escuderia, e o diretor de engenharia, Pat Symonds, teriam pedido ao brasileiro que forjasse o acidente. Após o episódio, o brasiliense ampliou o currículo, com destaque para as participações na Nascar, na Fórmula E e na própria Stock Car.

“Desde que fui para os Estados Unidos, em 2010, comecei a correr mais e sempre enfrentei qualquer tipo de carro e de categoria”, conta. Nelsinho Piquet é o único piloto brasileiro a vencer na Nascar, por três divisões diferentes, tanto em pistas ovais quanto em circuitos mistos.

Na avaliação dele, porém, poucos pilotos saem da zona de conforto para conduzir um carro diferente do que está acostumado. “Eu faço porque comecei a aceitar os convites que recebi e sempre fui bem em qualquer tipo de prova”, explica, orgulhoso pelos aprendizados durante a carreira. “Meu prazer é pilotar, não interessa se em um carro de pouca ou muita velocidade, se um kart ou uma Fórmula 1.”

entrevista | Nelsinho Piquet

O que te motivou a disputar o Rally dos Sertões? Como surgiu a oportunidade?
Eu iniciei um relacionamento com a Can-Am, há um ano, quando comecei a frequentar os Lençóis maranhenses. Eles gostaram muito do jeito que a gente explorava a região, por meio do UTV, que é um tipo de bugego muito bacana, que passa no meio de rios, é bom nas subidas. Quando me fizeram o convite, foi muito bom.

O Rally dos Sertões está previsto para terminar em 7 de novembro, véspera da etapa de Curitiba da Stock Car. Como conciliar?
Eu vou fazer até dois terços do percurso dos Sertões. Tenho um limite, porque preciso me deslocar até Curitiba. Vai ser o primeiro ano no Rally dos Sertões, então, é bom não ter expectativa para terminar. Farei para ganhar experiência. É uma prova que exige muito conhecimento dos pilotos, muita experiência, mesmo. Se eu quiser entrar para ganhar um dia, terei de acumular essa experiência.

O Rally dos Sertões é mais uma categoria na sua carreira. Imaginou que correria em tantas?
Eu já tinha corrido de rallycross, mas, nela, a corrida é em uma pista em arena fechada, não é de um ponto A a B, como nos Sertões. Eu já tinha experiência de correr em estrada de terra. Agora, estar em um rali com um navegador, vai ser novo. Desde que fui para os Estados Unidos, em 2010, comecei a correr mais e sempre enfrentei qualquer tipo de carro e de categoria. Acho importante. Piloto que é bom tem de se adaptar a modalidades diferentes de automobilismo. No fim, é tudo feeling para calcular o risco a tomar. Eu acumulei muita experiência, para mim foi bom. Não sei se imaginei ter feito tanto tipo de coisa assim, mas fico feliz de ter feito e aceitado fazer tantas coisas diferentes. Acabei evoluindo e crescendo muito.

A que você atribui essa alta rotatividade na carreira? É uma tendência no automobilismo?
São poucos pilotos que fazem isso. Em geral, não gostam de sair da zona de conforto e ficar diversificando desta forma para enfrentar uma modalidade nova ou uma prova diferente. Eu faço porque comecei a aceitar os convites que recebi e sempre fui bem em qualquer tipo de prova. Há alguns anos, eu disputei um KartCross, que tinha um motor muito forte, em um deserto no Chile. Consegui ganhar a prova entre vários pilotos locais e com experiência. Fui acumulando milhagem e aprendendo a andar em carros diferentes, em tipos de terras, pistas variadas. Meu prazer é pilotar, não interessa se em um carro de pouca ou muita velocidade, se um kart ou uma Fórmula 1.

Você está em décimo lugar da Stock Car. Como avalia o início da sua temporada?
Essa pausa na competição por causa da pandemia, de certa forma, deu uma chance de a gente, como equipe, recuperar a performance, que estava faltando um pouco no ano passado. Começamos o ano bem, mas ainda tem mais da metade da competição pela frente. Estou bem confortável, trabalhando muito bem com os engenheiros, que são diferentes do ano passado. Não que sejam melhores, mas a equipe estava precisando de mudança após dois anos frustrantes. Neste ano, veio uma vitória e estamos na briga pelo campeonato. Temos um carro bom, estamos trabalhando com pessoas boas e, agora, chego no fim de semana de corrida com confiança. É bom sentir isso.

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