FUTEBOL DE BASE

Filho de rapper, jogador de Ceilândia se projeta no Corinthians

Zagueiro Robert Renan ganha espaço na equipe corintiana que disputa o Campeonato Brasileiro Sub-17. O jovem jogador teve iniciação em projeto social surgido nas ruas da cidade natal

Maíra Nunes
postado em 22/10/2020 00:45 / atualizado em 22/10/2020 21:53
O brasiliense Robert Renan vem ganhando espaço no Corinthians no Brasileiro sub-17 -  (crédito: Rodrigo Gazzanel/Ag. Corinthians)
O brasiliense Robert Renan vem ganhando espaço no Corinthians no Brasileiro sub-17 - (crédito: Rodrigo Gazzanel/Ag. Corinthians)

O ex-zagueiro Lúcio saiu dos campos de Planaltina para ganhar projeção internacional e integrar o último elenco brasileiro a levantar a taça da Copa do Mundo, em 2002. Um ano depois do pentacampeonato mundial do Brasil, nascia Robert Renan Alves Barbosa, que esbanja talento para, quem sabe, ser o próximo defensor do Distrito Federal a trilhar uma carreira de sucesso no futebol.

Da expansão do Setor O, em Ceilândia, o garoto vem ganhando espaço na equipe de base do Corinthians no Campeonato Brasileiro Sub-17. Após três jogos, o alvinegro está na quinta colocação, com cinco pontos. O Palmeiras lidera com sete. Filho do rapper Roberto Barbosa da Silva, 36 anos, do grupo Sobreviventes de Rua, em atividade desde 1997, Robert Renan também arriscou-se nos palcos de Ceilândia quando criança. Mas o encantamento pela bola falou mais alto.

O pai, conhecido no meio musical como Preto Beto, canta a rotina e os desafios dos moradores das periferias urbanas: das mulheres trabalhadoras às crianças que brincam na rua. Ao lado de Henrique EXP e Buda, o grupo de rap usa a cultura como mecanismo de transformação social. O filho não deixa de seguir o exemplo do rapper, mas com outra ferramenta tão potente quanto a música: o esporte.

“O jovem que escuta meu rap não vira criminoso. A jovem e a menina que escutam meu rap não vão para a prostituição”, comenta Preto Beto. Assim como a bola também pode mudar o destino de muitos pequenos brasileiros.

Os comentários pela vizinhança sobre o talento de Robert Renan no projeto social promovido pelo batalhão comunitário de polícia começaram por volta dos seis anos. Nessa idade, ele ganhou a primeira chuteira do pai e se tornou a mascote dos torneios de futebol do movimento Aspecel-SDR, sigla de Ação Social pela Cultura Esporte e Lazer Sobreviventes de Rua.

Aos 13, Robert Renan encarou o desafio de morar longe dos pais para jogar no Novo Horizonte (MG), em 2018, e no Grêmio Novorizontino (SP), no ano seguinte. Em outubro de 2019, assinou o primeiro contrato profissional da carreira, aos 16, com Corinthians, clube que atualmente defende no Campeonato Brasileiro Sub-17 de 2020.

Há dois meses, a revelação ceilandense voltou a morar com a mãe, Renata Alves Barbosa, 35. Ela largou o serviço em uma loja de acessórios de carro, onde trabalhava havia oito anos, para acompanhar o filho de perto, em Tatuapé, bairro na Zona Leste de São Paulo, onde fica o Parque São Jorge, sede dos treinos do clube.

“Está sendo uma experiência nova para mim. Eu morei em Ceilândia desde os oito anos e nunca tinha imaginado morar tão longe. Teve choro, luta e muita oração. Mas é gratificante”, admite Renata. Segundo ela, a preocupação diante da pandemia de covid-19 colaborou para a decisão. “Está sendo muito bom estar perto do meu filho. Vejo que ele tem mesmo chance de chegar no profissional e, com a gente por perto, ele fica mais seguro”, completa a mãe, que tem Robert como único filho. 

Homenagem de pai para filho


O pai continua morando no DF, mas está se organizando para se juntar aos dois em São Paulo. De longe, sobra saudade e orgulho. Sentimentos que Preto Beto transformou no rap Do terrão pro mundo, disponível no YouTube. Nos versos, ele canta: “Sabe a área de risco que você falou?/ Eu ‘tava lá dançando na chuva, na beira do abismo/ Profissão perigo, passado virou nosso chão/ Enfrentando o medo, futuro nosso da expansão”.

Da expansão de Ceilândia para os gramados do Corinthians, o brasiliense de 17 anos carrega a esperança dos pais como combustível. Na capital paulista, ele tem uma rotina dura para transformar o sonho em realidade. O jogador concilia os treinos, em um turno do dia, com as aulas virtuais do segundo ano do Ensino Médio, das 19h às 22h.

“Considerando que o Corinthians é um dos maiores clubes do mundo, a nossa rotina vai além de jogar", conta Robert. "Temos várias palestras, treinamos aproximadamente quatro horas por dia, todos os dias, temos uma boa alimentação e vários profissionais que ajudam dentro e fora de campo”, descreve o jogador. 


Perfil de Robert Renan, jogador do Corinthians

Nome: Robert Renan Alves Barbosa
Idade: 17 anos
Nascimento: 11/10/2003
Naturalidade: Ceilândia-DF
Posição: zagueiro e lateral-esquerdo
Número da camisa: 4
Altura: 1,84m
Peso: 72kg
Chuteira: 42

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