Rei do futebol

Pelé 80 anos: Relembre a história do craque com Brasília

Recontamos a história dos dois jogos de Pelé na capital. Em um, quase perdeu a linha. No outro, fez gol no velho Mané e deu presentes a um zagueiro bravo escalado para marcá-lo

Marcos Paulo Lima
postado em 23/10/2020 00:24 / atualizado em 23/10/2020 10:51
 (crédito: Arquivo/CB/D.A Press)
(crédito: Arquivo/CB/D.A Press)

Um evitou que Edson Arantes do Nascimento perdesse a majestade no duelo contra a Seleção de Brasília. O outro quase teve um dia de cinderelo depois de peitar o melhor jogador de todos os tempos dentro das quatro linhas. Personagens das duas vezes em que Pelé transformou a capital da república em império e reinou nos gramados da sessentona Brasília, os ex-zagueiros Pedro Pradera e Melo, o Melão, jamais esqueceram os duelos históricos contra o Rei do futebol.

A primeira exibição do Rei Pelé em Brasília rolou em 25 de maio de 1967, no demolido Estádio Municipal de Brasília, o Pelezão, que ficava ao lado do Carrefour e foi demolido para a construção de condomínios residenciais. Capitão da Seleção de Brasília, Melo tirou cara ou coroa com a lenda. Posou para fotos e, quando a bola rolou, quase virou piada. “Lembro-me que o Pelé tentou colocar a bola entre as minhas pernas para fazer graça com a torcida, mas eu me recuperei a tempo. Gesticulei com ele e ouvi: ‘Você abriu as canetas, pô’”, lembra o militar aposentado Moacir Tremendani dos Santos, o Melo, apelido de família.

Além de zagueiro central, Melo fez o papel de pacificador. “Durante o jogo, o Pelé veio reclamar comigo que o Luís estava entrando demais de carrinho. Ele veio em minha direção e falou: ‘avisa para o teu colega que se ele continuar entrando de carrinho em mim, vou cair por cima dele de cotovelo’”, recorda. Para evitar briga, Melo deu o recado. “O Luís virou pra mim e disse: ‘Pô, Melo, eu só estou jogando a minha bola”, diverte-se. “Respondi: Só estou avisando, se você continuar com essas jogadas, ele falou que vai te partir no meio”.

O concerto do Santos terminou 5 x 1 em 1967. Apesar da marcação de Luís, Pelé fez um gol. Coutinho, Toninho, Douglas — substituto do Rei, que saiu aplaudido — e Wilson completaram o placar segundo a ficha técnica fornecida ao Correio por Guilherme Gauche, do departamento de história e estatística do clube paulista. Aderbal fez o de honra do combinado candango. “Nossa seleção (do DF) era formada por jogadores do Rabelo. Fizemos o possível para segurá-los, mas o time o Santos era academia. Tivemos aula. Pepe chutava forte demais, meu Deus!”, lembra Melo.


Peitou Pelé e quase virou cinderelo: chuteira não coube no pé

 (crédito: Arquivo Público do DF)
crédito: Arquivo Público do DF


A segunda exibição de Pelé em Brasília foi em 20 de março de 1974, no velho Mané Garrincha. O extinto Ceub perdeu por 3 x 1 pelo Campeonato Brasileiro. Professor aposentado de educação física da Secretaria de Educação, Pedro Pradera ousou peitar o Rei durante a partida em defesa do lateral-esquerdo Rildo, com quem Pelé jogara na Copa do Mundo de 1966. No dia seguinte, quase calçou uma chuteira dos sonhos.

Na véspera da partida, o técnico do Ceub, Cláudio Garcia, disse que Pelé, aos 34 anos, estava desmotivado. Segundo Pradera, o craque interpretou que havia sido depreciado e entrou em campo aborrecido. “Houve uma falta perto da área e ele (Pelé) começou a bater boca com os caras do nosso time. O Rildo virou pra ele e perguntou: ‘Por que tu tá irritado?’. Ele virou respondeu: ‘Teu técnico tá dizendo que estou uma m…’”, contou ao Correio em 2010, nos 70 anos do Rei. Na confusão, sobrou para Pradera. “Ele me disse alguma coisa que não lembro e não gostei. Eu era atrevido pra caramba. Olhei pra ele e fui comendo o fígado dele de colherzinha: ‘Vem cá, trata de baixar a tua bola aqui dentro. Você é grande, mas não é dois’. A partir dali, ele não falou nada, mas me mandou dois presentes”.

Mesmo desmotivado e pressionado pelos jogadores do Ceub, Pelé deixou a marca dele no estádio que leva o nome do compadre Garrincha. Nenê e Léo completaram o placar e Gilberto descontou para o time do DF.

Após o jogo, a lenda saiu com o amigo Rildo do Ceub. No encontro, elogiou Pradera. “Palavras do Rildo, que hoje mora nos Estados Unidos e foi quem me contou: “Gostei muito daquele zagueiro do teu time, é forte e tem personalidade. Leva esses presentes e entrega para ele”.

As lembranças eram uma camisa autografada do Santos e um par de chuteiras. “Cara, era uma chuteira Puma (42), sonho de qualquer jogador na época”, lembra Pradera. O brinde não ficou com ele. “Não coube nos meus pés (44). Eu dei para um jogador do juvenil”, diverte-se o zagueiro. Desapegado, Pradera não guarda nem a camisa histórica. “Dei para o meu pai à época”, riu. (MPL)

 

Jimmy Carter "usa" Rei no DF

Em 1978, um poderoso apelido de quatro letras fez parte do discurso do então presidente dos EUA, Jimmy Carter, a Brasília, para amenizar divergências entre a Casa Branca e o Palácio do Planalto: a incerteza sobre a política de energia nuclear que começara a ser implementada no Brasil, como também o Boeing da comitiva americana, que, ao chegar ao DF, havia sido interceptado e escoltado por um Mirage da Força Aérea Brasileira.

Ao discursar diante do então presidente Ernesto Geisel, Jimmy Carter quebrou o clima citando o Rei. “Não posso deixar de mencionar o nosso agradecimento ao ao Brasil por ter partilhado conosco um dos mis valiosos tesouros nacionais na pessoa que, talvez, seja o maior atleta de todos os tempos, o incomparável Pelé. Ele é amigo meu e a bravura dele nos campos de futebol tem servido de inspiração ao povo norte-americano”. (MPL)

Aniversário frustrante

Pelé, por pouco, não entrou em campo em 21 de abril de 1961, na comemoração do primeiro aniversário de Brasília. O clube paulista venceu a partida por


4 x 0, em um antigo estádio no Guará, mas Pelé não jogou. Veja o que diz o Correio na edição de 23 de abril daquele ano: “Pelé foi demoradamente aplaudido quando entrou em campo. Mas o público ficou decepcionado: o famoso craque brasileiro estava sem o uniforme de jogo. O técnico Lula e os médicos do clube revelaram que ele estava contundido”.

Arquivo CB/CB/D.A Press

Livro forma dupla de ataque JK-Pelé

 (crédito: Reprodução/D.A Press)
crédito: Reprodução/D.A Press

No dia em que Pelé completa 80 anos, um dos tributos ao Rei é prestado por um mineiro radicado em Brasília. O jornalista e ex-secretário de Cultura do DF, Silvestre Gorgulho, lança, hoje, no Museu do Futebol, em São Paulo, o livro de Casaca e Chuteira — a era dos grandes dribles na Política, Cultura e História. A obra de 448 páginas é uma preciosidade desde a capa, com “dupla de ataque” formada por JK e o Rei Pelé.

Pelé era criança quando dona Celeste desencorajou o filho a investir na carreira de jogador. O marido dela, Dondinho, não havia feito fortuna no futebol. Ela vislumbrava o mesmo para o herdeiro mineiro de Três Corações. Na entrevista a seguir, Silvestre Gorgulho revela, por exemplo, que seu pai contratou Dondinho, pai do Rei, para jogar em num time de São Lourenço (MG).

Como nasceu a ideia de escrever De Casaca e Chuteiras?
O livro surgiu depois de um encontro de três grandes amigos meus, que considero meus ídolos: meu pai, um dos responsáveis por contratar Dondinho, pai de Pelé, para jogar na minha cidade natal, São Lourenço; Oscar Niemeyer, um amigo e companheiro desde 1985; e Pelé. As circunstâncias da vida colocaram essas três figuras maravilhosas no meu caminho. O livro começou a nascer em 2010, quando o Pelé fez 70 anos.

O título do livro fala em “A era dos grandes dribles na política, cultura e história”. Pode contar quais são alguns desses dribles impressos na obra?
Olha, em 1956 “nasceram” três fatos que marcaram o Brasil para sempre. Foram os primeiros dribles políticos, culturais e históricos: JK toma posse como o 21º presidente da República, ele anuncia o Projeto de Lei ao Congresso Nacional para mudança da Capital do Rio para Brasília e Pelé — com apenas 15 anos — faz seu primeiro jogo como profissional. De 1956 até 1977, são muitos dribles políticos, históricos e culturais. Nasce a Bossa Nova, o Cinema Novo, Brasil ganha a primeira Copa do Mundo.

Por que decidiu fazer uma tabelinha entre política e futebol?
São duas paixões nacionais. O Brasil é um antes de JK e outro depois da construção de Brasília. Da mesma forma, no futebol. O Brasil é um antes de Pelé e outro depois de Pelé.

Quais são as intersecções entre eles eles além de serem mineiros?
Mais do que mineiros, são ídolos, nomes nacionais de respeito e estadistas que fizeram uma revolução pela competência, pela arte, pelo patriotismo, pela generosidade, pela determinação, pela ousadia e pelo amor ao Brasil. Ambos deram autoestima aos brasileiros. Pelé e JK representam uma era de desenvolvimento do país na política e no esporte.

Um personagem muito bem abordado por você no livro é Dondinho, o pai do Pelé.
É um resgate que faço da vida de Dondinho. O livro tem umas 30 páginas dedicadas ao Dondinho. Dizem que só teve um jogador melhor e mais completo do que o Pelé: justamente o Dondinho. Era craque de bola. Deu azar de quebrar a perna, no primeiro jogo que fez pelo Atlético-MG. Mas, Dondinho jogava tanta bola que dona Celeste, mãe do Pelé, ficava aflita quando Pelé dizia que queria ser jogador de futebol. Ela dizia: — Dico, (apelido de Pelé na família é Dico) você sabe o tanto que seu pai jogava. Era sempre o melhor em qualquer jogo. E, no entanto, nossa vida foi muito difícil. E você nunca vai jogar melhor do que seu pai. Aliás, por causa do Dondinho, o menino Edson, que tinha apelido de Dico, virou Pelé. Foi em São Lourenço e é nessa história que entra meu pai. Edson nasceu em Três Corações e o Pelé, em São Lourenço.

Onde comprar o livro?
Vou lançar neste 23 de outubro, no Museu do Futebol, no Pacaembu, em São Paulo. E já estamos preparando uma segunda edição para lançar em Brasília, em Santos, em Três Corações, São Lourenço, Campos Gerais, e onde mais quiserem, para o início do ano que vem. Em Brasília, por sugestão do amigo e cineasta José Damata, pensamos em lançar no Cine Brasília em duas noites seguidas. Na primeira, após a exibição do filme Pelé Eterno, do Aníbal Massaíni. Na segunda noite, após a exibição do filme JK no exílio, do Charles Cesconetto.

Que mensagem deixa ao oitentão?
Ao Pelé, agradecimento. Obrigado, Rei! Mais do que ao Pelé eu queria deixar uma mensagem aos brasileiros. Cultivem seus ídolos. Vamos valorizar nossos heróis, aqueles que ajudaram a construir nossa autoestima. Vamos bendizer quem nos deu emoções. A vida não se mede pelo número de vezes que respiramos, mas pelo número de vezes que nos tiram o fôlego. E quantas vezes JK e Pelé nos tiraram o fôlego e deixaram nossos corações batendo mais forte de alegria e prazer? Se tem uma lição de casa que o brasileiro precisa fazer: é valorizar e respeitar quem ajudou a fazer do Brasil uma nação respeitada e forte. (MPL)

 

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