Aventura

De bike na Transamazônica

Aos 65 anos, o militar aposentado Benhur Maieron não se intimida nem mesmo diante da malária contraída na longa viagem e realiza o sonho de percorrer mais de 4 mil quilômetros na mítica BR-230

O militar aposentado Benhur Luiz Maieron começou a se aventurar em longas viagens em cima de uma bicicleta apenas aos 39 anos. Na primeira empreitada, em 1994, percorreu 2 mil quilômetros, de Manaus à Venezuela. Três anos depois, também saiu da capital do Amazonas pedalando. Percorreu 4.820km no percurso que incluiu a Bolívia e terminou em Brasília, onde passou a morar em 1997. A travessia mais recente havia feito entre 2013 e 2014, quando atravessou o país do Oiapoque (AP) ao Chuí (RS), totalizando 11.640km. Aos 64 anos, decidiu que aposentaria a magrela, mas apenas após fazer o itinerário que sempre sonhou: percorrer a BR-230, mais conhecida como Rodovia Transamazônica.

“Eu havia decidido que essa seria a última viagem de bicicleta. Um encerramento com chave de ouro, sem dúvida, visto que esse era o meu grande sonho”, explica Benhur. O que o gaúcho de Sobradinho (RS) não esperava era ter de interromper a viagem por quase um ano, após 67 dias na estrada e 4.618km pedalados desde Brasília. Ele começou a sentir uma série de mal-estar que provocou a perda de 11kg. Após voltar de avião para a capital federal, em 2 de outubro de 2019, ficou seis dias internado até descobrir a causa: malária, contraída durante a viagem.

“Quase um mês de tratamento e dois meses de acompanhamento. A ideia inicial seria a aposentadoria no ciclismo de longa distância”, conta Benhur. “Mas o inconformismo pela desistência falou mais alto”, completa. Ele reequipou a bicicleta com novos alforjes e bagageiros, encaixotou tudo e voou de Brasília a Santarém. Ainda percorreu um trecho de ônibus até Uruará (PA) para reiniciar a jornada em 18 de agosto de 2020, quase um ano após a primeira tentativa. Desta vez, teve a companhia do filho Douglas, que comprou uma bicicleta em Uruará para fazer o percurso de terra de 106km até Medicilândia (PA).

Com o vigor em dia e aprovado pelo filho, Benhur seguiu sozinho o restante do roteiro. Mas alguns cuidados foram redobrados. Na primeira tentativa da viagem, o ciclista pernoitou nas mais variadas instalações: postos de combustíveis, casas abandonadas, reservas indígenas, varandas de bares, restaurantes e comércios. Na segunda, todos os descansos até um novo dia amanhecer foram em hotéis, pousadas ou dormitórios. As histórias e os encontros durante o caminho, porém, continuaram se multiplicando a cada quilômetro. “O povo do Norte e do Nordeste é muito simples, receptivo e prestativo. Em quase todos os contatos, a empatia era automática”, alegra-se.

Receptividade pelo caminho

A cada parada, o pedido era sempre o mesmo: água. Mas o traje com capacete, bicicleta “de aventureiro” equipada com alforjes, bagageiro e bandeiras ajudavam na receptividade. “Em várias casas, recebi convite para almoçar, jantar e até pernoitar”, conta. No Pará, Benhur fez um amigo inesperado. Após passar a noite em uma fazenda ocupada apenas por homens que trabalham na extração de madeira no local, o aventureiro pegou a bicicleta e, após pedalar 500 metros, ouviu um barulho de animal no mato ao lado da estrada. “Fiquei apreensivo, porque quem anda na selva passa o tempo todo pensando em onças”, explica. De repente, um cachorro pulou na estrada.

Os dois seguiram juntos estrada afora. Após cerca de 20km, o viajante e o novo companheiro pararam no boteco da Dona Maria, às margens do igarapé Jacaré II, para almoçar. O cachorro era conhecido no local e ainda acompanhou o ciclista por mais dois quilômetros antes de entrar no mato e, provavelmente, tomar o caminho de volta.

As amizades feitas pelo trajeto amenizavam o calor constante. O consumo de água é enorme, tanto para beber quanto para molhar o corpo. Na Amazônia, há abundância de rios e igarapés com água que não necessita de tratamento para o consumo. Cenário oposto à deficiência hídrica do Centro-Oeste e do Nordeste, o que exige o transporte de muitas garrafinhas.

Pneus furados e aposentadoria

Benhur concluiu o sonho em 25 de setembro de 2020, aos 65 anos, quando chegou a Cabedelo (PB). Fez questão de tirar a famosa foto junto à placa que indica o começo da BR-230, a Transamazônica. “Assim, eu realizava o velho sonho de percorrer de bicicleta, de ponta a ponta, essa mítica rodovia, mas tão pouco conhecida”, orgulha-se. Na Transamazônica, foram percorridos 4.433km, sendo 1.569km de terra, em 65 dias efetivamente pedalados, entre 2019 e 2020. Depois de dois dias de descanso merecidos em João Pessoa, o ciclista colocou a bicicleta na estrada de volta para casa, desta vez, com a sensação de objetivo cumprido.

Em 21 de outubro, ele chegou a Brasília, após 10.076km percorridos em 118 dias, de fato, pedalando e pneus furados em 28 ocasiões. “A partir de agora, estrada só de motocicleta, que é minha grande paixão, ou carro”, avisa, com bom humor. A construção da rodovia na Região Amazônica foi inaugurada em agosto de 1972, pelo governo militar, com objetivo de integrar o Norte ao resto do país. A obra se estende de Cabedelo, na Paraíba, até Lábrea, no Amazonas, atravessando mais cinco estados: Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins e Pará, cortando cenários de riqueza de fauna, flora e áreas de preservação que também abrigam etnias indígenas.